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segunda-feira, 4 de novembro de 2013

DIFÍCIL VIDA DAS RIMAS


Com tanta imagem
E virtual mensagem
É difícil ter clima
Pra fazer uma rima.

Terminações semelhantes
Parecem perder a graça...
Porém a palavra enlaça 
Até mais do que antes.

Porque nada como
Captar o momento,
Como ser ao escrever
E sonoramente ler
Um novo pensamento

E mostrar que ele prima,
E prima exatamente
Pela magia da rima
E a harmonia do elemento.

Rafael Cardoso

domingo, 3 de novembro de 2013

AS PALAVRAS E AS COISAS

De repente vomito palavras
Saem numa torrente veloz
Como anseio de jovem
Necessidade de externalizar tudo 
Que não foi deglutido.
E este lirismo, repetitivo e sonolento,
Revela-se incapaz de revelar
A mística das ideias
Que se formam na mente sem palavras.

Por que cheira a trevas
Tempos tão abastados?
Porque não fazer o poema
que resgata todas as coisas
e instaura a harmonia das horas
perfeitas? Não me é possível, meu
caro ou minha cara que me lê (e demais gêneros).
A consciência diz que 
evitar o sofrimento é desistir do jogo.
É preciso recriar sentidos,
repassar valores, estabelecer metas,
reapropriar o ser da capacidade
emancipadora de fazer com gosto.
O orgulho e a segurança 
De fazer aquilo que deve ser feito.

De repente vomito palavras
Porque são de tempo distante,
Porque não encontram
representação na realidade,
como diria Wittgenstein.

Rafael Cardoso


domingo, 20 de outubro de 2013

Confissões de um depressivo - Parte 1

Resolvi escrever, porque tem tempos de que não faço algo de que gosto profundamente.
Aliás minha vida anda sendo uma grande piada sem graça nos últimos meses, uma ironia sem fim.
E ando me sentindo tão depressivo que às vezes gostaria apenas que tudo acabasse, que tudo simplesmente recomeçasse... 
E parece que nunca vai melhorar, que no fim a tendência é essa, e me sinto tão infeliz, tão triste, tão incapacitado.... O mundo me deu tantas oportunidades de que não soube aproveitar, e hoje sofro por consequências das minhas próprias escolhas.
Entenda isto apenas como um desabafo, já que até a tentativa de procurar um psicólogo foi frustrante, o meu parco convênio não cobre.
E no fim eu deveria apagar tudo isso e simplesmente esquecer, seguir sem me preocupar, e às vezes sou tomado a fazer isso, mas nem sempre estou animado, às vezes me falta ânimo para qualquer coisa, ate para respirar.
Estou tendo problemas respiratórios ultimamente, você sabia? Guarde este segredo com você, mamãe e papai não sabem ainda, e acho que não contarei, eles já tem problemas demais para se preocupar.
Mas o bem da verdade é que está cada vez mais difícil viver nesse mundo tão estranho, tão cheio de caos, tão complicado... e as vezes, só as vezes, eu realmente queria acabar com tudo... 
Me peguei pensando em quantas pessoas chorariam com real sinceridade em meu enterro, e no fim conclui que ninguém realmente sofre a falta do outro por muito tempo, infelizmente as pessoas não estão tão ligadas a este ponto, e isso me deprimiu, afinal, o que precisamos fazer para sermos especiais na vida dos outros? 
Inesquecíveis para o mundo?
Qual seria a fórmula da eternidade? 
E eu olho para um passado não tão distante e vejo o quanto me deixei levar, eu não me reconheço mais, estou cada vez mais distante do que já fui um dia, com meus conceitos perfeitos e com minhas escolhas intocáveis... por que me deixei corromper? Devia ter fugido quando ainda havia tempo... hoje é tarde e apenas quero dormir, em um sono profundo e tranquilo, um eterno sono de paz e sossego.
Hoje apenas vivo esperando um dia, quem sabe, ver as coisas melhorarem.

Antonie Scarmeloto

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

A PERDA DA AURA

O poeta precisa retratar um tempo 
que carece de significação.
As coisas lá fora nunca foram tão confusas.
Amanhã, talvez, haja revolução: mas já não é
mais nada. O novo emprego: apenas o próximo.
A nova retórica: lançamento feroz do mercado.
Irmão das sensações táteis e olfativas,
dos vícios e perdições, o vazio toma conta
das cabeças e dos bolsos. Meu coração
emudece diante das cifras
e o poder que elas têm.
Meu peito pergunta, em ardência,
A importância das questões últimas,
elementares, fundamentais,
para um sujeito de vida tão comportada,
tão na dele. Meses eram anos. 
Mas o tempo hoje, embora inacabável, é tão...
Insuficiente: a vida sempre no marca passo,
tateando a linha tênue entre
a realização - sempre efêmera
e a derrota - nunca transformadora.
Aquele autor que lemos ontem,
esqueça-o, meu amigo. Há outro melhor hoje.
E também o passeio que prometemos - lembra? - 
já não faz mais sentido.
Haverá, ainda,
a necessidade de se fazer planos?
Ou a possibilidade de realizá-los?
As respostas para a dor, nessa pós-utopia,
são complexas; logo, dão preguiça.
Parece ser mais fácil ficar aqui
Nas sensações táteis e olfativas
que embriagam por toda a vida
Um homo sapiens.

Rafael Cardoso