Os meus dias estavam cada vez mais longos e cansativos. Eu ia para o trabalho de manhã e voltava ao anoitecer. Às vezes nem jantava e ia direto para a cama.
Eu não lia mais, não fazia sexo com ninguém, não assistia ao jornal. As pessoas me cumprimentavam e eu retribuía o aceno, mas era apenas por formalidade e não mais por educação. Meu cabelo era ensebado, os óculos que usava estavam quebrados e suas respectivas lentes riscadas. Eu não me importava.
Eu tinha perdido tudo. Não tinha moral, não tinha caráter, desejos ou amizades. Estava estagnado psicologicamente no tempo. Dias e noites já não faziam a menor diferença e tirar férias era o meu maior medo. E elas estavam vencidas há dois anos atrás.
E foi num longo dia de inverno que aconteceu. Eu estava sentado em uma cadeira que antes julgava ser a minha favorita, mas que agora se encontrava desprovida de qualquer significado. Minha casa estava toda empoeirada, meus peixes há muito haviam morrido de fome, contudo a morte deles era inevitável, pois o aquário também necessitava de limpeza geral, a qual não dispunha de vontade para fazê-la. Eu assistia a um filme de terror, mas não prestava qualquer atenção, tanto que não sabia nem quem era o protagonista da história. Foi nesse dia que pensei mais uma vez em você.
Eu a via sorrir ao correr pelo imenso parque de diversões. Você e sua mãe estavam magníficas naquele dia. Teddy, seu ursinho de pelúcia predileto, estava sendo prensado contra seu corpo devido à força excessiva de seu abraço. Ele não parava de exclamar “eu te amo!” toda vez que você o apertava daquele jeito. Sua mãe dava um leve sorriso ao admirá-la, para logo depois olhar em meus olhos. O brilho que havia neles também dizia “eu te amo”. Então, como mágica, essa memória borrou-se e desapareceu em seguida. Outra surgiu no lugar.
Um choro de criança. Era você nascendo. Parto normal.
Vomitei todo o meu almoço naquele dia. Porém pude presenciar cada momento do seu nascimento, desde quando saiu a sua minúscula cabecinha até o seu corpo sair por completo. O pé direito foi o último a retirar-se do corpo de sua mãe. Eu ria, eu chorava... Gostaria de quebrar o vidro de tanta ansiedade ao vê-la chorando no berçário. Mas agora tudo se foi. Para sempre.
Outra lembrança. Era um dia quente de verão e fazia cerca de quarenta graus no interior do carro. Todos estavam felizes, mesmo na presença do forte calor. Meu chefe tinha antecipado minhas férias e pude fazer uma viagem com vocês para o interior de São Paulo. A viagem foi tranquila e você dormiu a maior parte do tempo. Teddy cuidou de você enquanto dormia.
Ao chegar ao destino planejado, você e sua mãe desceram do automóvel e me aguardaram na sombra enquanto eu manobrava o carro para estacioná-lo na minúscula vaga em frente a uma casa amarela. Então, após alguns retoques nos cabelos bagunçados pelo vento da estrada, apertamos a campainha da casa dos seus avós. Fomos-nos muito bem recebidos por eles. Você ganhou vários presentes, tanto que foi difícil guardá-los dentro do porta-malas. Depois de três dias, nos despedimos deles e voltamos para casa. O acidente ocorreu logo após de deixarmos para trás a cidadela onde seus avós moravam. Foi neste acidente que você e sua mãe morreram.
Eu gostaria de poder tê-las salvo, mesmo que tivesse que dar minha vida em troca, contudo eu fiquei inconsciente com a batida. Fraturei três costelas, perdi um rim e tive que amputar minha perna direita, a qual foi espremida no impacto. Mas a maior dor foi a que senti no enterro. Eu perdi tudo naquele momento.
Toda minha vida se esvaiu, transformando-se na carcaça que sou hoje.
Depois do choque que sempre levo ao lembrar tudo de novo pela milésima vez eu levanto e caminho a passos lentos em direção ao banheiro. Começo a tossir.
A dor que sinto dilacera meu pulmão, mas não abranda a desolação que só cresce no meu coração. Meus cabelos caem por cima de meu rosto ao arquear-me em frente a pia do banheiro. Levanto e reparo na silhueta pálida e enrugada que aparece no espelho. Tusso novamente e uma gosma acinzentada escorre pela pia. Viscosa, demora para ser engolida pelo ralo. Pela terceira vez olho no espelho. Com espanto, vejo a mesma gosma sair pelo meu nariz, pelos ouvidos e pelos lábios enquanto através da pálpebra inferior de ambos os olhos, o mesmo líquido desponta. Então tusso novamente, mas não é uma tosse qualquer. O líquido da minha boca esguicha sobre o espelho na forma de vômito sujando-o, corrompendo-o.
Sem que eu notasse toda a gosma se junta formando um grumo que alcança a borda da pia. De súbito, o grumo começa a levitar até atingir a altura de meus olhos, no formato de uma bola maciça. Já não dá para ver o espelho.
A bola cinza me engole. Não dá para ver mais nada. O desespero se apodera de meu ser.
Então, repentinamente, não sinto mais nada.
Lucas de Figueiredo
domingo, 4 de agosto de 2013
quarta-feira, 31 de julho de 2013
O Amanhã
O horizonte parece ser muito belo hoje. Eu gostaria de admirá-lo com você.
Lembro-me de sua face sorridente, seus cabelos ao vento e seus olhos ao fitar os meus. Havia um brilho vital ali tão forte que era contagioso, magnífico, milagroso. E talvez ainda exista, contudo, não posso enxergá-los mais. Não posso te sentir mais.
Esse foi um tempo bom, daqueles que a gente fica com muitas saudades e torcendo para que se repita. Eu ainda faço aquele mesmo caminho, todo dia, só para remoer as boas lembranças, no intuito de espremer a saudade que pulsa em meu peito para, em seguida, entorná-la boca abaixo e sentir seu gosto ácido. Corrosivo.
As árvores continuam no mesmo lugar, enquanto o vento continua a soprar na força de uma leve brisa, acariciando as folhas, novas e brilhosas nessa época do ano, onde o sol brilha com intensidade. Um sol caloroso, chamativo. O dia está perfeito para um piquenique, aquele que eu nunca pude contemplar com sua esplendorosa presença. Eu sinto saudades de tudo isso, inclusive dos momentos que não vivi.
Relembro-me de sua silhueta e a sua voz acolhe minha memória. Sorrio sem motivo, um sorriso vazio, pois a alegria presente neste se foi.
Para sempre.
Eu grito seu nome, sonho contigo e entro em desespero frequentemente. Imagino-a por ai, mostrando aquele sorriso para outro alguém, uma pessoa que, provavelmente gosta de você muito mais do que eu pude gostar. Um ser que realmente te valorize, que a engrandeça, que a ame. Eu sinto sua falta, tenho satisfação por saber que estás bem, mas não consigo sentir-me agradável nessa situação.
E tudo isso for por medo. Medo de viver, medo de ser abandonado assim como várias e várias pessoas com quem convivi. Alianças rolando no chão ao perder o sentido para qual foram feitas, jogadas em um abismo tão medonho e profundo por mãos que não se unem mais. Eu tive medo de ser largado no canto escuro de uma sala minúscula, a esperar por um mínimo de atenção ou um resquício real das lembranças do passado. A fantasia de que melhores momentos virão ainda aflora na mente, porém a esperança já se encontra muito longe daqui. Longe demais para que eu possa alcançá-la.
Por medo do abandono, eu abandonei. Eu feri quem eu menos gostaria de machucar. Eu sofro por isso, contudo, esse sofrimento é mais amargo por acompanhar a solidão que me assola.
E então eu me pergunto: para onde a felicidade foi? E uma resposta, mesmo inconclusiva e desconexa, se distingue dos demais pensamentos: talvez, para você, não exista mais o amanhã.
Lembro-me de sua face sorridente, seus cabelos ao vento e seus olhos ao fitar os meus. Havia um brilho vital ali tão forte que era contagioso, magnífico, milagroso. E talvez ainda exista, contudo, não posso enxergá-los mais. Não posso te sentir mais.
Esse foi um tempo bom, daqueles que a gente fica com muitas saudades e torcendo para que se repita. Eu ainda faço aquele mesmo caminho, todo dia, só para remoer as boas lembranças, no intuito de espremer a saudade que pulsa em meu peito para, em seguida, entorná-la boca abaixo e sentir seu gosto ácido. Corrosivo.
As árvores continuam no mesmo lugar, enquanto o vento continua a soprar na força de uma leve brisa, acariciando as folhas, novas e brilhosas nessa época do ano, onde o sol brilha com intensidade. Um sol caloroso, chamativo. O dia está perfeito para um piquenique, aquele que eu nunca pude contemplar com sua esplendorosa presença. Eu sinto saudades de tudo isso, inclusive dos momentos que não vivi.
Relembro-me de sua silhueta e a sua voz acolhe minha memória. Sorrio sem motivo, um sorriso vazio, pois a alegria presente neste se foi.
Para sempre.
Eu grito seu nome, sonho contigo e entro em desespero frequentemente. Imagino-a por ai, mostrando aquele sorriso para outro alguém, uma pessoa que, provavelmente gosta de você muito mais do que eu pude gostar. Um ser que realmente te valorize, que a engrandeça, que a ame. Eu sinto sua falta, tenho satisfação por saber que estás bem, mas não consigo sentir-me agradável nessa situação.
E tudo isso for por medo. Medo de viver, medo de ser abandonado assim como várias e várias pessoas com quem convivi. Alianças rolando no chão ao perder o sentido para qual foram feitas, jogadas em um abismo tão medonho e profundo por mãos que não se unem mais. Eu tive medo de ser largado no canto escuro de uma sala minúscula, a esperar por um mínimo de atenção ou um resquício real das lembranças do passado. A fantasia de que melhores momentos virão ainda aflora na mente, porém a esperança já se encontra muito longe daqui. Longe demais para que eu possa alcançá-la.
Por medo do abandono, eu abandonei. Eu feri quem eu menos gostaria de machucar. Eu sofro por isso, contudo, esse sofrimento é mais amargo por acompanhar a solidão que me assola.
E então eu me pergunto: para onde a felicidade foi? E uma resposta, mesmo inconclusiva e desconexa, se distingue dos demais pensamentos: talvez, para você, não exista mais o amanhã.
Lucas de Figueiredo
terça-feira, 30 de julho de 2013
O que?
Estou com vontade de escrever, só não sei o que
ando sentindo vontade de muitas coisas
coisas estas completamente indefinidas
completamente estranhas
ando tendo sonhos que não sei dizer o que
e ando querendo, só não sei o que.
Ando tendo pensamentos confusos,
sentimentos confusos,
tudo anda muito confuso,
só não sei porque .
A verdade é que ando com vontade de escrever
só não sei o que, por que, quando ou onde
então me sento e ponho a escrever
só não sei no que
no que isso pode vir a dar
meras palavras ao vento
cheias de significados vazios
de sentidos complexos
e de pensamentos adversos.
Não tenho mais certeza de nada,
não ando mais pensando em nada,
questionando, filosofando, escolhendo, mudando
tudo isso é muito cansativo e eu não quero mais
só ando querendo escrever
só não sei o que.
Tanto para se dizer, tão pouco para se fazer.
Jéssica Curto
segunda-feira, 29 de julho de 2013
A.R.
Por entre meus dedos
Passando pela minha mente
Fluindo entre meus ossos
Cortando minha pele
Entrando nos meus pulmões
Queimando meus olhos
Arrepiando meus pelos
O que você é?
A.R., como A.R.
Feita de A.R.
Construída de ar
O que eu preciso?
A.R., A.R., A.R.
Agora você sente?
Agora você toca
Cada parte interna
Nas partes celulares
Dentro do meu peito
Nas minhas loucuras
Em volta de mim
Amor Racional
Você é frio
Mas eu te faço quente
Amor Racional
Você me ama e desafia
Amor Racional
Eu sou seu enigma
Eu sou sua cobaia
O que você precisa de mim?
O quanto você precisa?
Leonardo Ragacini
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