quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Sobre escrever



Se alguém nos pergunta o que é escrever, é como se perguntasse o que é literatura ou o que é arte, pois as respostas são infinitas. Mas quem gosta do ofício não se cansa em criar algumas. Aí vão elas.

Em primeiro lugar, escrever é uma forma de se expressar, ou seja, um tipo de linguagem. Essa arte é, antes de tudo, a arte de se comunicar. Até aí, nada demais. O mistério é: por que algumas pessoas olham para o céu e conseguem derramar palavras numa folha, como se elas fossem as gotas da chuva? Escrever também é, por consequência, a externalização do pensamento, ou seja, das nossas ideias. Dependendo da forma como elas são apresentadas, são compreendidas ou não, são usadas ou esquecidas, desprezadas ou apreciadas pelo queridíssimo, misterioso e imprescindível leitor.

O leitor. É a ele que nos dirigimos quando escrevemos. A partir dessa obviedade, podemos concluir que escrever é uma tentativa fascinante de transmitirmos as nossas vidas, os nossos sentimentos e pensamentos, para os outros. Fazemos isso simplesmente porque há coisas que só um papel pode dizer. Coisas que, ao serem ditas em voz alta, talvez fiquem menos belas e compreensíveis.

Mas eu diria que o melhor da arte de escrever é a liberdade que ela traz apesar das regras gramaticais. É um mistério: a gramática é sempre a mesma; porém, é com ela que fazemos textos só nossos. Por isso, é com toda a certeza que digo que não há nada mais democrático do que as palavras.

Poucos sabem que a arte é para todos e pode ser feita por qualquer um de nós. Nem todos são, por exemplo, mestres das letras, mas há quem olhe de modo único para as cores de um quadro. Existem aqueles que têm voz angelical ou que interpretam com perfeição. No caso de quem gosta de escrever acontece que, ao ver algo belo, ao sentir aquele instante que provoca o pensamento e o coração, procura traduzir (ou melhor, dar novas cores) aquilo que viu ou sentiu sob a forma de palavras num papel. Isso para que o pensamento de cada um possa reagrupar e interpretar as palavras como bem entender, a fim de sentir a beleza do mundo por meio do nosso alfabeto ocidental.

Pensando bem, talvez seja fácil explicar o que é escrever: o ato em si todo o mundo sabe. Difícil é saber o que ele representa, o que significa esse ato instigante para tantas pessoas. Afinal, para que ele serve? Para tanta coisa que o poeta Drummond já dizia, e acrescento: “penetra surdamente no reino das palavras./ Lá estão os poemas que esperam ser escritos”. E também as cartas, os bilhetes, as postagens das redes sociais... Coisas bonitas, que esperam para ser ditas porque sempre estiveram “lá no fundo”.

Enfim, é mais ou menos isso. É surdamente que você vai entender.

Rafael Cardoso

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