quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Carnaval - a festa pagã



Para meu Pai Curto

Juliana estava empolgada para aquela tarde, o samba no pé, o sacolejo, as pessoas rindo e dançando ao som do bom e velho samba.
Se olhava no espelho com certa vaidade, a maquiagem pesada no rosto e no corpo, iria se destacar no meio da multidão com tanto brilho pelo corpo.
Os olhos verdes sorriam de alegria, Sérgio estaria naquela festa e ela mal podia esperar pelo momento ideal para se jogar em seus braços e fazer dele seu eterno príncipe encantado.
-Vamos logo Juliana, vamos chegar atrasada menina!
Ana, sua melhor amiga berrava do andar de baixo, apressada.
-Já vou, já vou!
Juliana deu uma última checada no espelho em cima dos imensos salto altos antes de ir embora, estava confiante de que tudo daria certo.

***

A festa bombava, as pessoas estavam aos milhões, umas se esbarrando e se apertando nas outras para conseguir um mísero espaço naquele lugar que parecia ser tão imenso, mas que não suportava tamanha multidão.
Rostos felizes eram o que não faltavam, os casais se esfregavam e se amavam em um momento totalmente único, a bebida rolava solta e as pessoas pareciam estar em um outro mundo, em completo delírio.
José se alimentava daqueles sentimentos tão bons de prazer e alegria, há muito não sentia vida em seu ser e aquela época do ano lhe matava a saudade do tempo em que um dia viveu.
Ninguém poderia vê-lo e muito menos tocá-lo, o que lhe dava real saudade, mas não importava, aquelas energias já lhe eram suficientes em meio a sua atual situação.
José da Silva Barbosa, nascido e morador da grande Copacabana no Rio de Janeiro, lugar de praia, sombra e água fresca, mulher bonita e muita alegria.
Em vida, um homem muito enérgico e saudável, pau pra qualquer obra, no entanto sua atual situação era bem diferente, falecido em 1985 vivia agora às custas de pequenas energias que lhes era dada através de pessoas que estavam passando por situações difíceis e tristes, pegava o amargo do outro e fazia para si o doce.
Com toda aquela festança na cidade, poderia esbaldar-se o suficiente o equivalente de um mês no mínimo, por isso era tão apaixonado por aquela data tão incrivelmente calorosa, onde podia, com sorte, experimentar energias em níveis diferentes dos gringos que vinham se divertir e arejar um pouco a cabeça das vidas tão atribuladas que viviam em seus determinados países.
Os olhos negros e profundos de José deliravam com toda aquela movimentação, ele estava em casa.

***

Juliana sambava no meio de uma rodinha feita por homens de vários tipos e espécies, demonstrando o seu gingado, chamando a atenção das câmeras que tentavam focalizar todos os seus movimentos, mas ela só tinha olhos para um ser ali entre os milhares, o mulato Sérgio.
Com um copo de cerveja gelada em mãos, ele sacolejava perto de uma morena bombada, as gargalhadas e passadas de mão abusadas ficavam despercebidas em meio a tanta cor, mas não para Juliana, que irritada com a situação sambava mais e mais, os seios fartos balançavam e davam água na boca de qualquer masculinidade próxima a si, as mulheres competiam entre si para possuir o homem mais bonito, mais bem apessoado e afortunado entre aqueles da festa, mas Juliana só queria o seu amor, e determinada a tê-lo começou a se achegar para o lado da morena que ria e se esfregava no mulato.

***

José há muito não via uma mulher tão bonita assim, de olhos tão verdes e vivos, lábios rubros e um corpo... Que meu Deus do céu!
Lembrava-lhe imensamente de sua doce e amada mãe, que tinha olhos de cor semelhante.
Sentia uma forte energia irradiando dali, mas diferentemente da japa que lhe sedia aquele prazer imenso com o seu amargor interior, embora não fosse isso que mostrasse externamente, aquela ali lhe dava arrepios, e de certa forma... Medo. Ele simplesmente não sabia explicar o porquê, só sentia que precisava se aproximar o máximo que conseguisse.

***

Juliana viu tudo como se fosse em câmera lenta, quando Sérgio agarrou a mulher e a apertando contra seu corpo lhe deu um beijo profundo, caloroso, de tirar suspiros.
A felicidade em volta parecia ter desaparecido por completo, seu mundo estava destruído e sua noite estraçalhada.
Como se não bastasse à mulata começou a acariciá-lo, bem ali, no meio da festa, sem pudor algum e aquilo era demais para Juliana que se preparara tanto para aquele homem.
Assim, sem pensar em mais nada simplesmente saiu e largou para trás todos os seus sonhos.

***

José observava as atitudes da menina e percebia o quanto ela se sentia mal, mas aquele sentimento diferentemente dos outros, não lhe agradava, era como se ele precisasse ajudá-la a qualquer custo.
Quando deu por si, já estava ao seu lado, os lindos olhos dela agora tristonhos e chorosos, sentiu vontade de lhe dar um abraço apertado, depois de todos aqueles anos ele não acreditava que ainda tinha a capacidade de ter um sentimento tão puro e bom como aquele.
Assim, quando a jovem se jogou chorosa na cama, ele simplesmente se sentiu doando um pouco de toda aquela sua energia para a pobre alma, vendo-a por alguns instantes se recompor, não sabia o porque, mas simplesmente queria ajudá-la e aquilo bastava.

***

Horas se passaram até finalmente a moça cair em sono profundo e poder conversar com José que se mantinha parado em frente a sua cama, quando percebeu que ela estava se libertando do corpo para fazer os passeios noturnos seu rosto se encheu de alegria, aquela seria a sua oportunidade de conhecê-la...

Continua...

Jéssica Curto

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