quinta-feira, 30 de maio de 2013

Nas sombras da Inquisição

Noah Gordon mescla História e biografia ficcional em
O Último Judeu

A obra de Noah Gordon, O Último Judeu, conta a história de Yonah Ben Helkias, filho do ourives de Toledo, Helkias Toledano, a partir de 1489. Na época, a Península Ibérica travava seu confronto decisivo com os muçulmanos da região, num processo conhecido como Reconquista. Após a vitória, em 1492, o foco é desviado para a questão dos judeus. É aí que começa a dura jornada dessa família judaica.
A Igreja de Toledo não era muito conhecida no reino de Castela, pertencente à Espanha. Um dia, porém, o padre Sebastián Alvarez viu uma chance da paróquia se destacar: ele tinha familiares ligados ao Cardeal Rodrigo Lancol, muito influente no Vaticano. Por meio de sua cunhada, ele convence Rodrigo a enviar uma relíquia sagrada para a Sé de Toledo. Um osso de Santa Ana, mãe da virgem Maria, ficou sob a res-ponsabilidade do padre. Sebastián logo chamou o ourives da cidade para fazer um cibório, ou seja, um receptáculo adornado em ouro para abrigar o presente.
Helkias Toledano era um grande ourives. Certa vez criou uma rosa de ouro e prata pela qual o conde Fernan Vasca jamais pagou: eis algumas desvantagens da origem judaica naquele tempo. Ao ser incumbido do cibório, o fez com todo o esmero e deu para seu filho Meir levar até a Igreja. No entanto, o jovem foi assaltado e morto no meio do caminho. O padre tenta solucionar o caso e pede ajuda para o médico Bernardo Espina, judeu convertido espontaneamente ao catolicismo. Bernardo tem medo, mas aceita investigar a morte do menino. A Inquisição descobre e, em pouco tempo, ninguém sabe mais onde está o doutor.
Enquanto isso, os judeus da região recebem um ultimato: ou se convertem, ou devem morar em outro local. Helkias recusa sua conversão e a de seus dois filhos, Yonah, de 13 anos e Eleazar, de seis. Seu irmão sugere que eles partam para Valência, mas antes Helkias queria resolver pendências com os nobres que lhe deviam. Um dia antes de partir, o frade Bonestruca inflama os cristãos de Toledo contra o ourives, que é morto em sua própria casa, enquanto Yonah foge pelos fundos para uma caverna próxima. Eleazar es-tava com Benito Martín, um cristão amigo da família.
Após três dias, Yonah sai da caverna e descobre o que ocorreu. Benito pretende adotá-lo e convertê-lo, mas ele foge da casa e começa sua jornada pelo mundo. Decide que continuará a ser judeu não importa o que acontecer, em memória de seu pai e em respeito a Deus, que lhe permitiu ser o último judeu vivo de toda a região. Todos os seus parentes já tinham partido. Sua vida muda radicalmente a partir daí.
Yonah mergulha numa longa jornada rumo ao desconhecido. Trabalha como peão, marujo e em muitas outras profissões. Está sempre fugindo da sombra da inquisição em toda a parte. O livro descreve, com muitos detalhes, os vinte anos seguintes de Yonah e suas andanças pela península: Gibraltar, Denia, Valência, Huesca, Saragoça, Cuenca, Granada, Sevilha, Salamanca, Tembleque e, finalmente, a própria Toledo.
Enquanto peão e também como marujo, Yonah aprende a proteger sua identidade sob o nome de Ramón Callicó. Sua adolescência é um bocado solitária, embora conheça dezenas de pessoas. Está sempre fechado a amizades para não se entregar. A Inquisição reina por toda a Espanha e ele revê o frade Bonestruca, algoz de seu pai. A partir daí, Yonah percebe que não deixará o passado para trás.
A obra de Noah Gordon é o resultado de anos de pesquisa sobre o povo judeu durante o período da inquisição. O autor investigou o provável itinerário de um judeu errante em meio às possibilidades logísticas da época. Ouviu diversos pesquisadores e também moradores das regiões pelas quais passou seu personagem. Tudo isso para descrever com argúcia inúmeros detalhes geográficos que contextualizam as decisões que Yonah toma em seu trajeto. Da mesma forma, Gordon teve de construir uma ideia do comportamento judaico em tempos de forte opressão.
A cultura hebraica sempre possuiu uma solidez invejável, que atravessou séculos e lugares inóspitos. A
resistência de Yonah em se converter retrata toda essa força da tradição judaica em seus praticantes. Aos 13 anos, o último judeu sabia de cor todo o calendário que aprendera com seu pai e se lembrava das datas especiais e seus con-sequentes ritos de homenagem. No exílio, as lições foram ficando opacas, porque era sempre um risco rezar ou acender as velas do Shabat, um período de recolhimento e descanso para os judeus. Apesar de toda a cautela, o leitor notará que a vida do rapaz está sempre em risco, seja no mar, seja testando as armas que ajudou a fazer ou até como médico. 
A história da vida de Yonah não é um bocado de acontecimentos desconexos. Como em todo bom livro, a história se dá cheia de reencontros e é recheada de belíssimas reviravoltas. Desde o início, fica a expectativa de que Yonah possa rever seu irmão, Eleazar. Mas enquanto sonha com esse dia, o judeu vai achando outras pessoas muito importantes ao longo do caminho, e muitas são boas candidatas a serem sua esposa. 
O Último Judeu é a História (com h maiúsculo mesmo) contada pela experiência de um indivíduo, um relato riquíssimo da vida por ser exatamente como ela é: não linear, embora repleta de fatos que lhe conferem certa unidade.

Rafael Cardoso

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