domingo, 30 de janeiro de 2011

Relações Recicladas

São Paulo, 26 de novembro de 2001

E hoje faz vinte e um anos desde aquele velho baile dos anos 80. Lembro-me como se fosse ontem o quanto você estava bonito naquele bendito dia. Estava tímido também, mas isso sempre fez parte de seu jeito de ser.
O terno preto contrastava com a camisa branquíssima que ganhou dos avós e os sapatos, bem engraxados, que foram retirados depois de três anos do armário, com aquela grossa camada de poeira. Você ficou um bom tempo lá, esfregando a flanela com tanto empenho. Dênis sentia uma profunda inveja de ti, mas afinal quem não sentia? Você era o homem mais belo da sala e todas as mulheres queriam conquistá-lo, mas raramente você conversava ou saía com alguma delas.
E os vestidos das moças avançavam pelo salão, acompanhando o ritmo das pernas de seus pares. As mãos dos homens enlaçavam a delicada cintura das mulheres dançantes na ampla sala. Eu estava largada na mesa, mas de repente você me chamou. Não sabe a felicidade que senti naquela noite.
E depois daquele baile a gente começou a se conhecer. Cartas e mais cartas eram mandadas pelo correio, contento os mais bonitos – e íntimos – versículos de amor. Depois de um tempo a vizinhança inteira comentava de nosso namoro. Mamãe e papai eram severos em relação a horários e também quando se tratava de gestos. “Beijos e abraços são expressamente proibidos nesta casa! Vocês estão se conhecendo agora, quando tiverem um compromisso mais sério, podemos ser menos rigorosos, mas agora não!”. Sinto falta desse tempo, principalmente quando os enganávamos e fazíamos as mais doces travessuras...
Mas o tempo passou e não devemos pensar tanto no passado, não é mesmo? Agora estamos separados, temos uma linda filha para cuidar e ainda mantemos nossos corações vivos para amar novamente. Não me arrependo de nenhum momento em que passei contigo e foi uma pena que o sentimento que nos unia acabou.
Sinto falta de você. Espero que continue mantendo contato, afinal ainda somos bons amigos. Quando você tiver um tempinho, me ligue. Meu número de telefone continua o mesmo.
Nossa amizade será eterna enquanto houver comunicação por ambas as partes. Não esperarei – e nem acharei conveniente – que as próximas cartas tenham o mesmo conteúdo das provenientes de nossa doce época, mas gostaria de obter uma resposta sua, com aquela letra “de menina” que só você sabe fazer.

De sua sempre amiga,
Gabrielle Oslo.

Lucas de Figueiredo

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