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terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Janeiro

Saudade... O tempo em que via vocês!...
A época em que dois e dois não eram três!

É-me inútil acordar cedo.
Junto do Sol vem o medo
De outro dia indefinido
Que nem os outros têm sido.

Reflito assim, zonzo e sério
Ao mergulhar no mistério
Das férias intermináveis:
Resistir? São inviáveis

As esperanças que tenho.
Resistir por que, se falta
Garra pra por num desenho
A mais nota alta da flauta?

Vês? Na música, um fiasco
Minha voz é madrugada
Na escrita, de novo, nada
(Até este poema dando asco!)

A chuva diária não varre
Filosofia de giz
É aí que me dizes: “Arre,
Que queres pra ser feliz?

Se tens tu pena de mim,
Dá-me algo para fazer
Trabalho, estudo, lazer
Não me venha com din-din

Que o problema é psicológico,
Antes que eu vá pro zoológico
Ver do alto com a girafa,
Dizerem: ''isso é ilógico,
Você está maluco, Rafa!''

Rafael Cardoso

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Cartas ao deserto, entre febres e delírios

Retorno após grande jornada. E não trago souvenires na mala. Quero apenas rever quem gosto, e agora incluo à lista eu mesmo. O momento é nebuloso e confuso, mas preciso estar de pé pra recebê-la em meus braços e dar-lhe os fortes abraços que dava antes que chegasse a noite.
Perdi a noção dos dias, do que faço e vejo. Já não sei exatamente o que é sentir-se bem. Talvez seja ter a cabeça leve... Ou o contrário? Pois a mente ocupada é a que vive mais?
Vão me ver e não me reconhecerão. Pensarão que estou louco... Pode ser que sim. Não me lembro a causa de minha enfermidade. Porém tudo o que importa é revê-la, e dar-te o meu coração é minha obsessão.
Ah, mas como ela vai me entender, como vai me conhecer se as portas do meu velho guarda-roupa, cheias de figurinhas com todas as épocas, estão fechadas para mim? Não o tenho mais, é fato. Lá se foram com ele edredons das horas que não esqueço: ouvia histórias sobre aberrações sem saber que se tornaria uma, deitada e delirante assim como eu ficava naquele instante sadio, em que me ria com os desfechos trágicos. Preciso manter a lucidez enquanto for possível. Em breve rirei de minha própria história e seu fim.
Até porque jamais me compreenderão se eu continuar a escrever pela metade, se deixo o passado por mais que sinta saudade (estou rimando em prosa, já estou gagá de fato!). Como saberá quem sou se minha essência, ao se esvair, não deixa o que restou?
Amor, aquela navalha que eu tinha ficou cega. Ela corta, mas não raspa, entende? Cortou até meus velhos medos superados. Por pior que fossem, ajudavam-me a viver.
Plantarei uma árvore lá no hipotálamo. Mesmo que um eu perdido a arranque, baseando-se no pavor que tenho de tudo e todos - sobretudo do termômetro e seu resultado fervoroso - os outros saberão que a semente dela veio do fruto, ou seja, aquilo que fui um dia. O passado é minha estória, história, recordação e fantasia, quem fui e deveria ser agora. Foi embora. Estou indo embora.
Teremos uma casa com varanda e uma menininha de vermelho, como você sempre sonhou. Até porque o vermelho é a vida escorrendo de meus dedos. Em breve começo o trabalho, depois que me amputarem as pernas. Entregarei cartas em breve e espero (quem sabe?) receber notícias minhas de mim mesmo. Nossa filha vai conhecer o padre que me dá a extrema-unção, vou apresentá-lo pessoal-mente. Sei que é um pouco confuso, mas mamãe telefonou do céu e disse que é só dor de ouvido, não se preocupe. Ela só precisa de doses de informações (eu tenho tantas do velho trabalho!) que não estejam censuradas, assim como o Egito , aquele país bonito ao lado de Pasárgada, também precisa porque está doentinho.
Egito, oh Egito, precisamos desvendar o mistério de nossas pirâmides!
(...)

Convulsão e morte.
Rio, 26 de Janeiro de 2011

Rafael Cardoso

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Malditos Sonhos Malditos

Plena quarta feira e cá estou, indo para o trabalho – novamente – para ganhar o suado pão de cada dia dado pelo chefe mais chato, esquisito e sem graça do mundo. Passo pelo Trianon, atravesso a Augusta e sigo caminhando pela Consolação. A linha verde me espera.
Vejo todos os tipos de pessoas. De pobres a ricas, de bebês a idosos, de relaxados a ansiosos. Tudo como deveria ser. Que dia chato, meu Deus! E assim sigo, falando em divindades que acredito que não existam.
Chegando naquela empresa cafifenta, me deparo com a cara emburrada das pessoas, em especial, o chefe que, não contente com seus funcionários, demite um a cada hora. A empresa está ficando vazia por culpa deste homem incompetente. Espero um dia poder dizer isso na cara dele.
O dia passa lentamente. O relógio não dá trégua. Aleluias e gritos de alívio são ouvidos quando chega o horário do almoço e caras de desanimo são vistas quando o horário – que nesta hora passa correndo – se esvai. E assim continuamos com a cara no computador, esperando que o chefe não nos demita, pois as contas do mês nunca esperam.
Terminado o serviço, faço todo o caminho de volta, praguejando pelo forte calor humano dos transportes públicos do país. Dezenas de pessoas num cubículo e o esfrega-esfrega é comum. Isso me lembra varias baratas avançando numa pequena lata de lixo deixada a céu aberto.
Em casa, as coisas também não estão nada fáceis. Mulher em crise, filhos que choram e você não possui o direito de culpá-los, pois o incômodo da vida avança por todos no ambiente. E foi nessa noite que tudo mudou.
Eu suava em bicas a noite. Mas isso não era devido a mal-estar, febre ou qualquer coisa dessas. No fundo estava desesperado, mas não sabia o porquê. Ainda.
Fecho os olhos, e ao longe a sombra vem e toma conta de mim. E o pesadelo começa.
O tempo desta vez avança depressa, mas as cenas que me são mostradas não são, em nenhum momento, boas. A dor, o ódio, o desespero, a magoa, a raiva, o remorso, a agonia estão todos embutidos em mim, como se eu fosse um boneco inflável movido pela bomba de ar do destino. E assim as cenas passam. Eu fico doido e mais doido a cada instante. Eu acordo. Meu coração está a mil por hora e o Capitopril é o comprimido que escolho na primeira prateleira do armário do banheiro. Minha mulher levanta e pergunta o que aconteceu, mas agora já está tudo bem. Volto a fechar os olhos, mas desta vez a sombra me toca de uma maneira diferente.
Desta vez eu me vejo no topo, mandando em todos. Na cadeira do meu chefe sou rei. Em casa sou rei. Na vida sou rei. O tempo passa depressa também, mas minha majestade é suficientemente grande para que este fator passe despercebido. Então o alarme toca. Tudo começa novamente e o simples empregado refaz aquele mesmo percurso, porém seus miolos agora estão totalmente remexidos.
Ao chegar na empresa, recebo a todos com um belo sorriso e o pessoal, em uma forma instintiva, o retribuem. Até meu chefe está melhor hoje. Tudo estava indo bem, até a hora em que meu chefe me ordena que eu vá a sua sala por um instante. Eu já sabia o que era, minha demissão estava mais do que clara.
- Ernesto... Estamos fazendo cortes na empresa e... Você sabe como é...
- Eu já sei senhor, pego minhas coisas hoje mesmo e seguirei minha carreira... mas antes, queria dizer que você é um mau chefe, não dirige bem a empresa, bebe igual a um cachaceiro, é grosso, ignorante, idiota e fica traindo sua mulher com a secretária Josefina. Mas você é o único que não percebe que sua mulher é bem famosa por aqui. Já saiu com quase todos os homens desse andar... Bom... finalmente disse tudo o que precisava dizer. Até mais, panaca!
- Ernesto, Ernesto... Você ERA um bom funcionário... iria te promover para o meu cargo, pois recebi uma oferta melhor e também pela grana que a empresa ganhou cortando gastos, mas pela sua... digamos... franquesa, não saio daqui sem antes te dar um pé na bunda! Até mais... panaca...
E assim eu saio da sala, cheio de raiva... quem disse que os sonhos não mudam a vida de uma pessoa? Pois é... Agora o jeito é voltar pra casa e aguentar os sermões da patroa... A vida continua afinal.

Lucas de Figueiredo

sábado, 5 de fevereiro de 2011

É Desse Jeito que se Vive!

Geralmente quando a gente acorda, continuamos com sono. Temos preguiça de abrir os olhos e deixar os feixes luminosos chegarem às retinas ainda frágeis, acostumadas com a escuridão profunda. Eu sou uma exeção.
Sala branca, cama branca, pessoas brancas, objetos estranhos e esterilizados. Minha mãe está às minhas costas e agradeço a força que ela me deu, literalmente falando. Eu não queria chorar, eu queria sorrir, queria abraçar minha mãe e olhar para o rosto de papai, mas eles queriam que eu chorasse. Então soltei um choro fingido e quando vi que já era o suficiente para testarem minhas cordas vocais, parei. Eles me levaram para os braços de mamãe, mas ela estava zonza e mal conseguia me apanhar no colo e assim, uma mulher verruguenta me pegou e me colocou numa cama aquecida que, por incrível que pareça, me incomodava. Eu queria minha mãe e por isso chorava. Não é a toa que fiquei com fama de chorão... e logo eu, que tive que fingir o choro naquele quarto extremamente claro! Os que estavam ao meu lado estavam tão mirradinhos, tão nojentinhos... pareciam que não queriam ter saído. Como eles são burros! Prefiro ser chorão do que cagão!
E foi nesse instante que vi um cara com barba mal feita, rosto quadrado e barriga redonda me olhando com aquela cara de bobo que só um pai sabe fazer. Não aguentei e sorri. Queria mostrar a língua para ele no intuito de saber sua reação, mas fiquei com vergonha. E o homem sorria, chorava, falava com as outras pessoas do lado de fora. Era um bobão, mas eu gostava dele...
Depois de um tempo me levaram até mamãe. Ainda bem, estava com fome e dei uma mamada gostosa, mas parei quando vi que estava apertando demais o bico, fazendo com que minha mãe fizesse umas caretas esquisitas que significavam dor. Então, eles me deram um banho a seco – que foi muito estranho, pois pano úmido NÃO é água! – e me colocaram para dormir. E assim passei um bom tempo.
No dia seguinte, foi praticamente a mesma coisa: o corujão me olhava pelo vidro, mamãe me pegava – agora com mais jeito e força, me deixando confortável – e sorria pra mim. Eu adorava aquele leite quente de suas entranhas e a única coisa que eu não gostava muito era daquele maldito banho.
E assim o tempo – que não sei exatamente ao certo, pois os incompetentes não colocaram um relógio no berçário, que seria muito útil – passou e finalmente minha mamãe me levou para casa. Ela estava completamente recuperada, afinal eu saí por um buraco que já existia nela bem antes de eu nascer, alias eu – ou pelo menos metade de mim – passou pelo mesmo buraco para se encontrar comigo mesmo – a outra metade – na hora em que papai e mamãe estavam... digamos... BEM juntinhos.
E agora estou aqui, mamando e machucando um pouco mais o seio de minha mãe, afinal eu sei que não poderei mamar pelo resto da vida. Logo meus dentes nascerão e terei que me virar mais ainda. Contudo, não estou com medo, estou feliz e curioso com o que virá pela frente, mas nunca esquecendo de viver a cada segundo e aprender coisas novas. Não sei se no futuro irei olhar pelo vidro do berçário com cara de bobo como meu pai fez, mas isso não importa por enquanto. O que verdadeiramente importa neste instante é aproveitar o máximo esse leite que já está acabando. É desse jeito que se vive!

Lucas de Figueiredo