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sábado, 4 de julho de 2026

Tigor - Capítulo 1 - O Início

Fazia muito tempo que eu não vinha aqui contar uma história para vocês... e a história de hoje é de Tigor.


Tigor tem longos cabelos dourados, seus olhos esverdeados são contornados por um lápis de olho negro, que faz com que sua cor fique ainda mais vívida.

Suas roupas são compostas por uma saia longa e esverdeada, presa por um cinto de couro amarronzado, gasto e velho e uma camisa vinho.

Em sua cabeça brilhosa um chapéu preso com uma pena.

Tigor tem um brinco longo e fino pendurado em sua orelha esquerda.

Seu corpo esguio e magricela sai batendo suas botas pretas pela sala repleta de quadros suspensos em uma parede coberta por papel de parede verde com flores branco amareladas ao fundo.

Antes de sair de casa, Tigor dá uma última olhada no espelho suspenso na parede ao lado da porta, puxa seu chapéu um pouco para a frente e abre um pequeno sorriso de canto de boca, hoje será o seu grande dia.

Sua mão segura na maçaneta enquanto dá um longo e profundo suspiro, abre a porta e encara a luminosidade invadindo o espaço, seus olhos se acostumam aos poucos com a claridade da luz.

A rua está calma, nenhuma pessoa à vista, para a alegria de Tigor.

Sai batendo a porta atrás de si, sabia que teria de encarar seus medos à partir dali, mas não tinha muito para onde fugir, Tigor estava só e precissava agir.


Tigor já estava caminhando pelas ruas há pelo menos 15 minutos, algumas pessoas passavam, algumas olhavam mas a maioria não encarava Tigor, que andava de cabeça baixa para evitar contato visual, suas mãos  dentro dos bolsos de sua saia, sua bota batendo a cada passo.

O que as pessoas estão pensando? Pensou Tigor, sem saber a resposta.

Será que vai dar tudo certo? 

Tigor adentra um imenso prédio cheio de janelas brilhosas que ofuscam a visão de quem as encara, se encaminha diretamente para o grande balcão redondo da recepção, Tigor sente alguns olhares curiosos se voltando para si, engole em seco e cerra as mãos tão forte dentro do bolso que sente seus dedos doerem. 

-Bom dia, nome? 

A mulher da recepção fala com uma voz fina e estridente, olhando para Tigor, sua camisa branca impecável, sem nenhum vinco, seu blazer preto por cima continha uma plaquinha de identificação presa ao tecido, Bruna era o nome escrito.

-Bom dia, Tigor.

Responde com a voz trêmula, em tom baixo, quase inaudível. A mulher à sua frente digita alguma coisa e olha para a tela do computador à frente, seus cabelos negros penteados cuidadosamente se encontram presos por um forte coque, ela ajeita os óculos quadrados que usa, enquanto ainda encara a tela do computador à sua frente.

-Tigor Menezes? 

Ela volta o olhar para Tigor, sua feição rígida gera um profundo incômodo em Tigor, que apenas cerra seus lábios e confirma a informação com a cabeça.

A mulher retira um pequeno papel quadrado da impressora e estende para Tigor.

-Quarto andar, sala 28.

Fala em um tom seco, Tigor pela primeira vez retira uma de suas mãos de seu bolso e de forma trêmula pega o papel, acena com a cabeça e segue em direção à catraca logo ao lado do balcão, o salão estava quase silencioso, poucas pessoas conversam aos cochichos, Tigor passa o papel em cima da catraca, que valida o código de barras, liberando a sua passagem, Tigor atravessa e vai em direção ao elevador, poucos metros à frente.

Um casal estava parado na frente da porta aguardando o elevador, atrás deles uma longa escada de degraus feitos de granito tão branco que quase arde os olhos ao serem encarados, Tigor engole em seco, se fosse de escada poderia evitar mais olhares? O que poderia encontrar nos próximos andares? 

Resolve ficar ao lado do casal, mas de forma distante, percebe que ambos olham de canto de olho, mas não comentam nada.

Quando o elevador chega e sua porta se abre, Tigor agradece por estar vazio, aguarda o casal entrar e entra logo em seguida, sua mão ainda trêmula aperta o botão 4, Tigor percebe que a mulher encara sua mão apertando o botão, mas logo seus olhos se voltam para seu rosto, a mulher abre um leve sorriso e acena com a cabeça, Tigor abre um sorriso amarelo de volta, seu coração dispara no peito, tenta controlar a respiração, a porta do elevador se fecha.


O corredor do quarto andar parecia ainda mais silencioso do que o térreo, as paredes claras refletiam a luz branca das lâmpadas, tornando o ambiente frio e impessoal.

Tigor caminha lentamente até encontrar a placa: Sala 28.

Respira fundo, antes que pudesse bater na porta, uma mulher sai da sala ao lado carregando uma pilha de pastas.

Ela caminhava apressada, mas diminui o passo ao avistar Tigor.

Seus olhos percorreram o chapéu, a camisa vinho, o cinto velho e, por fim, a saia.

Ficou alguns segundos em silêncio.

-Você veio... para a entrevista?

Tigor sente o estômago gelar.

-Vim...

Responde com a voz trêmula e nervosa, a mulher franziu levemente a testa.

-Ah...

Olhou rapidamente para a pilha de pastas que carregava.

-Só acho que...

Seu dedo indicador cutucou o canto de uma das pastas, entortando-a levemente, parou a frase no meio, ergue o rosto sorrindo para Tigor de forma educada.

-Nada, desculpe, boa sorte.

Seguiu corredor adentro.

Tigor permanece imóvel, o que acabou de ser aquela interação?

"Só acho que..." aquela pequena frase ficou ressoando e reverberando em sua cabeça, será que deveria ir embora? Será que tinha feito a escolha certa de estar ali? 

Só acho que o quê?

Que estava na sala errada?

Que não parecia alguém procurando emprego?

Ou... que simplesmente não deveria estar ali?

Seu peito apertou.

Sentiu vontade de ir embora.

Ainda dava tempo.

Podia pegar o elevador, voltar para casa e fingir que nunca tinha estado ali, afinal, ninguém tinha falado para ir ali, foi de livre e espontânea vontade, poderia ir embora se quisesse.

Sua mão já havia se enfiado novamente no bolso da saia, cerrando os dedos, estava prestes a se virar e ir embora quando ouviu uma voz grossa vinda de trás da porta.

—Tigor Menezes, pode entrar!

Fechou os olhos por um instante respirando profundamente, retirou a mão do bolso, alisando a saia levemente, ergueu a cabeça e entrou na sala. 


-Você acha que dá conta do recado?

O homem corpulento à sua frente encarava Tigor com grandes olhos, tinha a sensação de que aqueles olhos estavam adentrando a sua alma.

-Acredito que sim, seu Moisés...

Sua voz sai baixa, porém firme, Tigor se sentou com as pernas cruzadas, sua saia subiu um pouco, deixando parte da panturrilha da sua perna direita à mostra.

-Essa é uma empresa séria, temos mais de 60 anos no mercado, nossa reputação é muito valiosa. 

O homem acende um cigarro, tragando a fumaça enquanto fala.

-Se você sujar a nossa reputação, o preço que vou te cobrar vai ser bem alto...

O homem abre um sorriso malicioso, a fumaça antes tragada agora sai por entre os dentes, passa sua mão lentamente pela cabeça oleosa de poucos e finos fios de cabelo, Tigor pela primeira vez não sustenta o olhar, desdobra as pernas e encara suas botas, suas mãos agarram sua saia de forma nervosa.

-Sei... Mas agradeço se me der a oportunidade...

Sua voz sai mais baixa ainda, o homem à sua frente da mais uma profunda tragada em seu cigarro, ainda encarando Tigor, que continua de cabeça abaixada.

-Certo, você começa amanhã, esteja aqui as 8 em ponto!

Tigor ergue a cabeça pela primeira vez, encarando o homem, sua surpresa era tanta que não conseguia acreditar no que ouvira, abriu um largo sorriso, dando um salto da cadeira.

-Gratidão senhor Moisés, gratidão!

Tigor aperta a mão do homem e sai feliz pela porta, finalmente conseguiu um emprego, seu corpo parecia flutuar de tanta felicidade.

Saiu pelos corredores sem nem se importa tanto com os olhares, seu sonho estava apenas começando. 


Jessica Curto

04/07/2026


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