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terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Por Mim

Por mim
Escutaria sinfonias florais ao anoitecer
Declamando os mais belos poemas e...
Ops!
A sobrevivência não está (nem nunca esteve?) garantida!
É preciso comer antes de tudo.
Estar vivo é fazer-se presente ao mundo
sem restringir-se a quem se gosta
Habitar um corpo que urge necessidades
De modo que (veja só!) perdemos tempo
Pois a vida garantida e segura é fechada
Sem sal na sua ausência de variedades
Agora não há mais tempo pra mais nada
Inclusive o poema.

Mas por mim veria sempre
Os amigos de longa data
No calendário do coração
Daria meu melhor em cada gesto:
Mil faces a obter um mísero sorriso
Que dá total sentido à existência
e assim a doce recompensa
de ser alguém de valor

Amizade eterno amor
Que dizer da vida sem este ardor!

Rafael Cardoso

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Soneto da paranóia

Chega à noite, é preciso dormir
De pé não fico. O que está por vir
Não se sonha, não se sabe o que é
Senhores, pensam que estou lelé?

Antes estivesse. O que acontece
É profunda e radical mudança
Portanto a vida de todos dança
Na teia invisível que nos tece

E tenso com a situação
Não penso em mais nada toda hora
Então, que mais podemos fazer?

Inútil afagar o coração
Corpo e mente inertes, o olho chora
-Tudo passará. E vai doer!

Rafael Cardoso

domingo, 2 de janeiro de 2011

Constatação

Vi o ponteiro girando cada segundo
Na contagem regressiva à morte
Invisível aos amigos

Chegada a hora
Uma mão também invisível nos cala
Paradoxalmente agora
Pois falo sim (sons mudos): não ecoam
Nem pela parede da minha casa.
Falam eles também?
Não sei não escuto
Apenas fico de luto
Assim estamos
Pois andamos
Caminhos difusos
em sonhos confusos
Espero um dia voltar a pensar
Como triângulos obtusos
Mente aberta, multiangular

Alguns dias sucedem
Tristezas me antecedem
Ponteiros rodam em 360 graus
Voltam ao mesmo lugar
Parto para não mais voltar

E de repente a constatação:
Hora de estar só no mundo
Com uma viola na mão
Lutando segundo a segundo
Ante imponderável solidão
Novamente agonizo profundo
Meu relógio é atirado ao chão
Estarei livre do grande mal?
Os ponteiros marcam o ponto final.

Rafael Cardoso

sábado, 1 de janeiro de 2011

Receita De Ano Novo

Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)

Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.

Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

Carlos Drummond de Andrade