São Paulo, 01 de Janeiro de 2002
01:35 AM
Começarei me desculpando desta vez, pois estou na iminência de revelar-lhe coisas que você talvez não queira ouvir. Ler esta carta pode ser uma perda de tempo para você, mas eu sinto a necessidade de escrever e revelar esses sonhos que passam pela minha cabeça.
Todos planejam uma vida ideal, isto está tão óbvio quanto dizer que dois mais dois são quatro e eu, sendo um ser humano como qualquer outro, não sou diferente. Eu queria de alguma forma, compartilhar esses desejos de vida ideal com você, que me aturou durante dezoito longos anos.
Eu queria viver a vida de dois modos diferentes, sendo que esses dois modos de vida seriam o intenso, pois tenho a necessidade de pensar sempre no máximo e não no mínimo. Enfim... Um desses modos é o de ser o objeto de uma relação intensa, na qual perceberia a intensidade das pessoas próximas a mim. Já o outro é totalmente ao contrário e, neste caso, eu seria a pessoa que faria a relação ficar intensa. É algo como ser dominado ou dominante, entende? Bom... melhor parar de enrolar e ir direto ao ponto, pois não quero fazer você dormir, mas sim colocar um assunto em jogo e ao mesmo tempo, mostrar o quanto estou viva e o quanto me interesso por ti.
Meu primeiro sonho é ser, literalmente, uma “donzela”. Viver protegida por alguém, ao contrário do que pareça, é bem intenso em minha opinião. A intensidade não reside na vida em si, mas no relacionamento dos amantes, afinal você não protegeria uma pessoa se não tivesse um grande vínculo com a mesma. Você não daria sua vida para salvar a de outra caso você não sentisse algo pela pessoa, não é mesmo?
Pode parecer bobo, mas este sempre foi um de meus maiores desejos que você, de certa forma, acabou realizando. Eu lhe agradeço muito por isso...
O outro revela minha luxúria. Sei que é pecado, mas como não sou religiosa, está tudo certo! (Risos) Neste sonho, gostaria de ser vista como um objeto sexual. Pode parecer estranho, mas você já reparou o quão intenso é a relação corporal? Ela representa um loop na vida de qualquer pessoa, tanto que quase ninguém consegue viver sem sexo hoje em dia. Você sempre foi ótimo na cama, porém eu sempre contive um incêndio dentro de mim. Entretanto, isso também não significa que eu o trai, viu? Eu sempre fui fiel e me orgulho disso!
Bom... acho que agora você já conhece mais um de meus “três mil trezentos e oitenta e sete lados” e você não sabe o quão aliviada cada vez que te digo algo assim. Parece que sinto a necessidade de lhe contar tudo e de ser completamente transparente, mesmo sabendo que não somos mais tão íntimos assim. Pena que essa vontade não era tão forte na época que éramos casados.
Mas agora estou curiosa sobre sua opinião sobre o assunto. Você tem algum sonho parecido? Você deseja algo pelo qual daria qualquer coisa para possuir? Gostaria que você não ficasse tímido desta vez e me conte tudo em suas próximas cartas. Estarei ansiosa para recebê-las!
Espero também que você entenda esse coração que, além de feminino, perdeu os freios. Não acharia estranho um homem me dizer que sou a mulher mais doida e confusa que existe!
Um beijo de sua amiga íntima.
Gabrielle Oslo.
Lucas de Figueiredo
segunda-feira, 31 de janeiro de 2011
domingo, 30 de janeiro de 2011
Relações Recicladas
São Paulo, 26 de novembro de 2001
E hoje faz vinte e um anos desde aquele velho baile dos anos 80. Lembro-me como se fosse ontem o quanto você estava bonito naquele bendito dia. Estava tímido também, mas isso sempre fez parte de seu jeito de ser.
O terno preto contrastava com a camisa branquíssima que ganhou dos avós e os sapatos, bem engraxados, que foram retirados depois de três anos do armário, com aquela grossa camada de poeira. Você ficou um bom tempo lá, esfregando a flanela com tanto empenho. Dênis sentia uma profunda inveja de ti, mas afinal quem não sentia? Você era o homem mais belo da sala e todas as mulheres queriam conquistá-lo, mas raramente você conversava ou saía com alguma delas.
E os vestidos das moças avançavam pelo salão, acompanhando o ritmo das pernas de seus pares. As mãos dos homens enlaçavam a delicada cintura das mulheres dançantes na ampla sala. Eu estava largada na mesa, mas de repente você me chamou. Não sabe a felicidade que senti naquela noite.
E depois daquele baile a gente começou a se conhecer. Cartas e mais cartas eram mandadas pelo correio, contento os mais bonitos – e íntimos – versículos de amor. Depois de um tempo a vizinhança inteira comentava de nosso namoro. Mamãe e papai eram severos em relação a horários e também quando se tratava de gestos. “Beijos e abraços são expressamente proibidos nesta casa! Vocês estão se conhecendo agora, quando tiverem um compromisso mais sério, podemos ser menos rigorosos, mas agora não!”. Sinto falta desse tempo, principalmente quando os enganávamos e fazíamos as mais doces travessuras...
Mas o tempo passou e não devemos pensar tanto no passado, não é mesmo? Agora estamos separados, temos uma linda filha para cuidar e ainda mantemos nossos corações vivos para amar novamente. Não me arrependo de nenhum momento em que passei contigo e foi uma pena que o sentimento que nos unia acabou.
Sinto falta de você. Espero que continue mantendo contato, afinal ainda somos bons amigos. Quando você tiver um tempinho, me ligue. Meu número de telefone continua o mesmo.
Nossa amizade será eterna enquanto houver comunicação por ambas as partes. Não esperarei – e nem acharei conveniente – que as próximas cartas tenham o mesmo conteúdo das provenientes de nossa doce época, mas gostaria de obter uma resposta sua, com aquela letra “de menina” que só você sabe fazer.
De sua sempre amiga,
Gabrielle Oslo.
Lucas de Figueiredo
E hoje faz vinte e um anos desde aquele velho baile dos anos 80. Lembro-me como se fosse ontem o quanto você estava bonito naquele bendito dia. Estava tímido também, mas isso sempre fez parte de seu jeito de ser.
O terno preto contrastava com a camisa branquíssima que ganhou dos avós e os sapatos, bem engraxados, que foram retirados depois de três anos do armário, com aquela grossa camada de poeira. Você ficou um bom tempo lá, esfregando a flanela com tanto empenho. Dênis sentia uma profunda inveja de ti, mas afinal quem não sentia? Você era o homem mais belo da sala e todas as mulheres queriam conquistá-lo, mas raramente você conversava ou saía com alguma delas.
E os vestidos das moças avançavam pelo salão, acompanhando o ritmo das pernas de seus pares. As mãos dos homens enlaçavam a delicada cintura das mulheres dançantes na ampla sala. Eu estava largada na mesa, mas de repente você me chamou. Não sabe a felicidade que senti naquela noite.
E depois daquele baile a gente começou a se conhecer. Cartas e mais cartas eram mandadas pelo correio, contento os mais bonitos – e íntimos – versículos de amor. Depois de um tempo a vizinhança inteira comentava de nosso namoro. Mamãe e papai eram severos em relação a horários e também quando se tratava de gestos. “Beijos e abraços são expressamente proibidos nesta casa! Vocês estão se conhecendo agora, quando tiverem um compromisso mais sério, podemos ser menos rigorosos, mas agora não!”. Sinto falta desse tempo, principalmente quando os enganávamos e fazíamos as mais doces travessuras...
Mas o tempo passou e não devemos pensar tanto no passado, não é mesmo? Agora estamos separados, temos uma linda filha para cuidar e ainda mantemos nossos corações vivos para amar novamente. Não me arrependo de nenhum momento em que passei contigo e foi uma pena que o sentimento que nos unia acabou.
Sinto falta de você. Espero que continue mantendo contato, afinal ainda somos bons amigos. Quando você tiver um tempinho, me ligue. Meu número de telefone continua o mesmo.
Nossa amizade será eterna enquanto houver comunicação por ambas as partes. Não esperarei – e nem acharei conveniente – que as próximas cartas tenham o mesmo conteúdo das provenientes de nossa doce época, mas gostaria de obter uma resposta sua, com aquela letra “de menina” que só você sabe fazer.
De sua sempre amiga,
Gabrielle Oslo.
Lucas de Figueiredo
sábado, 29 de janeiro de 2011
Carta Final
São Paulo, 22 de outubro de 2000
E o relógio andou, assim como minha vida que te assistia. Hoje ainda sinto sua falta, mas não penso fervorosamente na mesma. As lágrimas que tinham que vir já chegaram e circularam meu coração que ficou salgado, mas limpo. O que eu tinha para dizer, eu disse.
E assim a vida continuou. A flor roxa do amor não foi colhida, logo, a mesma murchou, caiu no chão, apodreceu e virou a base para outros botões que um dia tornar-se-ão flores tão bonitas e cheias de vida quanto aquela. Talvez lindas lótus, minhas preferidas.
Seu nome está gravado em minhas lembranças, pois o tempo não foi capaz de apagar, porém minha vida, meus sentimentos independem das folhas secas de outono, símbolo da doce e amarga saudade que sinto desde que percebi que te perdi. Mas minha consciência se tranquilizou logo, afinal não o perdi por algo que a mesma julgue errado.
E hoje minha vida continua, minha experiência e meus pensamentos ajudaram-me a colher todos os instantes de felicidade e aproveitá-los como se fossem pequenas pedrinhas de carvão. Essas pedrinhas deixaram um pequeno forno aceso pelo tempo certo e se esvaíram com o tempo, porém saberei encontrar mais e manter esse forno gerando calor. Aceso sim, para novas aventuras, novos amores, novos prazeres, mas não para novas desilusões, pois estas viram cinza antes que eu sequer perceba.
Espero que você esteja desfrutando sua vida, assim como a minha está sendo aproveitada e testada a todo instante, durante as vinte e quatro horas de nossa pequena grande vida. Espero que você não continue lamentando o passado ou seguindo o ideal feito por outra mente, mas que siga seus ideais, produzidos por este brilhante cérebro pelo qual me apaixonei um dia.
Talvez você encontre felicidade.
Fique bem.
Gabrielle Oslo.
Lucas de Figueiredo

E o relógio andou, assim como minha vida que te assistia. Hoje ainda sinto sua falta, mas não penso fervorosamente na mesma. As lágrimas que tinham que vir já chegaram e circularam meu coração que ficou salgado, mas limpo. O que eu tinha para dizer, eu disse.
E assim a vida continuou. A flor roxa do amor não foi colhida, logo, a mesma murchou, caiu no chão, apodreceu e virou a base para outros botões que um dia tornar-se-ão flores tão bonitas e cheias de vida quanto aquela. Talvez lindas lótus, minhas preferidas.
Seu nome está gravado em minhas lembranças, pois o tempo não foi capaz de apagar, porém minha vida, meus sentimentos independem das folhas secas de outono, símbolo da doce e amarga saudade que sinto desde que percebi que te perdi. Mas minha consciência se tranquilizou logo, afinal não o perdi por algo que a mesma julgue errado.
E hoje minha vida continua, minha experiência e meus pensamentos ajudaram-me a colher todos os instantes de felicidade e aproveitá-los como se fossem pequenas pedrinhas de carvão. Essas pedrinhas deixaram um pequeno forno aceso pelo tempo certo e se esvaíram com o tempo, porém saberei encontrar mais e manter esse forno gerando calor. Aceso sim, para novas aventuras, novos amores, novos prazeres, mas não para novas desilusões, pois estas viram cinza antes que eu sequer perceba.
Espero que você esteja desfrutando sua vida, assim como a minha está sendo aproveitada e testada a todo instante, durante as vinte e quatro horas de nossa pequena grande vida. Espero que você não continue lamentando o passado ou seguindo o ideal feito por outra mente, mas que siga seus ideais, produzidos por este brilhante cérebro pelo qual me apaixonei um dia.
Talvez você encontre felicidade.
Fique bem.
Gabrielle Oslo.
Lucas de Figueiredo

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011
Resposta Ao Convite
São Paulo, 18 de dezembro de 1981
Olá meu querido, tudo bem?
Estou escrevendo porque necessito lhe informar que não irei ao baile este ano. O motivo é... Bem... Acho que é tempo de lhe confessar algumas coisas.
Eu sempre fui apaixonada por você, desde o princípio.
No momento em que ouvi um “Olá” por tua boca – e que boca – no início das aulas, comecei a sentir algo especial por sua pessoa. Eu me aproximei em ordem de fazer você corresponder o sentimento, mas isso revelou-se impossível logo na primeira semana.
Com o passar do tempo, meu sonho afastava-se da realidade e, ao mesmo tempo, sua amizade fortalecia. Eu podia sentir isso ao ver sua confiança em mim e isso era estranho, pois me deixava feliz e triste ao mesmo tempo. Eu sempre quis ao menos sua amizade, mas isso se tornou insuficiente para silenciar meu coração que batia desesperadamente por ti.
Então, meu coração não resistiu ao golpe que recebera. Em meados de setembro deste ano, sua confissão de amor por Giselda me botou num profundo desespero e, nesse desespero prometi que não lhe dirigiria a palavra, mas essa promessa já estava quebrada na semana seguinte. Meu amor por você atraia meus ouvidos de encontro a sua doce voz e de minha boca saíram as mais instintivas desculpas, que chegaram em suas orelhas e envolveram sua mente que, mesmo com o choque da possibilidade de perder nossa amizade – que não era qualquer amizade – foi compreensiva e aceitou minhas desculpas sem muitas perguntas. E isto só ajudou a aumentar a fascinação que tinha por toda e qualquer parte de seu ser.
Atualmente o sentimento ainda perdura em meu coração e hoje faz companhia à amarga saudade e à ferrenha esperança não-morta, apagando qualquer resquício de coragem para vê-lo novamente. Contudo, não pedirei desculpas pelas minhas atitudes nesta carta, pois acredito que o que sinto justifica – e perdoa – todas as minhas ações. Afinal, sou uma simples garota, presa num simples mundo de sonhos e que simplesmente encontra-se dolorosamente apaixonada por alguém que nutre um sentimento de amizade, sendo que este, embora valioso, é insuficiente perante a grandeza do amor guardado em meu singelo coração.
Gostaria que você se divertisse no baile, mesmo com minha ausência.
Sayonara,
Gabrielle Oslo.
Lucas de Figueiredo
Olá meu querido, tudo bem?
Estou escrevendo porque necessito lhe informar que não irei ao baile este ano. O motivo é... Bem... Acho que é tempo de lhe confessar algumas coisas.
Eu sempre fui apaixonada por você, desde o princípio.
No momento em que ouvi um “Olá” por tua boca – e que boca – no início das aulas, comecei a sentir algo especial por sua pessoa. Eu me aproximei em ordem de fazer você corresponder o sentimento, mas isso revelou-se impossível logo na primeira semana.
Com o passar do tempo, meu sonho afastava-se da realidade e, ao mesmo tempo, sua amizade fortalecia. Eu podia sentir isso ao ver sua confiança em mim e isso era estranho, pois me deixava feliz e triste ao mesmo tempo. Eu sempre quis ao menos sua amizade, mas isso se tornou insuficiente para silenciar meu coração que batia desesperadamente por ti.
Então, meu coração não resistiu ao golpe que recebera. Em meados de setembro deste ano, sua confissão de amor por Giselda me botou num profundo desespero e, nesse desespero prometi que não lhe dirigiria a palavra, mas essa promessa já estava quebrada na semana seguinte. Meu amor por você atraia meus ouvidos de encontro a sua doce voz e de minha boca saíram as mais instintivas desculpas, que chegaram em suas orelhas e envolveram sua mente que, mesmo com o choque da possibilidade de perder nossa amizade – que não era qualquer amizade – foi compreensiva e aceitou minhas desculpas sem muitas perguntas. E isto só ajudou a aumentar a fascinação que tinha por toda e qualquer parte de seu ser.
Atualmente o sentimento ainda perdura em meu coração e hoje faz companhia à amarga saudade e à ferrenha esperança não-morta, apagando qualquer resquício de coragem para vê-lo novamente. Contudo, não pedirei desculpas pelas minhas atitudes nesta carta, pois acredito que o que sinto justifica – e perdoa – todas as minhas ações. Afinal, sou uma simples garota, presa num simples mundo de sonhos e que simplesmente encontra-se dolorosamente apaixonada por alguém que nutre um sentimento de amizade, sendo que este, embora valioso, é insuficiente perante a grandeza do amor guardado em meu singelo coração.
Gostaria que você se divertisse no baile, mesmo com minha ausência.
Sayonara,
Gabrielle Oslo.
Lucas de Figueiredo
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