terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Without u (A suicida)

''Ainda não esquecida sensação''.

A casa ainda possuía o perfume da essência de almíscar.
Do lado de fora o cheiro das rosas no jardim atraia as abelhas e as borboletas. A luz do sol refletia azulada dentro de cada cômodo transmitindo uma sensação gelada e desoladamente deprimida.
Na banheira o corpo de Simone já sem vida boiava dentro da banheira cheia de água gelada. Havia afogado mesmo seu corpo?
Uma sensação de vazio a perseguia. Por fim, ela não sentiu nada. Mais nada. Depois dos segundos do último suspiro.
A alma de Simone estava ao lado da banheira vendo o que ela tinha sido, pelo menos o corpo que era antes de se suicidar. Ela contemplava seus olhos petrificados e sem vida sobre a água. Seus longos cabelos castanhos deslizavam como se flutuando ao redor do seu rosto.
Onde sua alma seria levada agora? Nem ela sabia responder.
Ela esperava que anjos ou mesmo demônios fossem buscá-la quando tudo terminasse e até aquele momento nada havia acontecido. A morte e a visão de si mesma na banheira tinha sido tudo. Mesmo sendo uma alma Simone podia sentir a água fria envolvendo seu corpo moribundo toda vez que olhava para ele. Era como se ainda estivesse lá.
A vida inteira esteve morta por dentro. A opção pela morte nunca a assustara. A asfixia não fora nada surpreendentemente dolorosa para quem sofreu muito mais em vida.
A alma desencarnada de Simone começou a vagar por sua casa olhando cada detalhe. Os poucos porta retratos na sala mostravam cenas de um tempo em que fora feliz, longe da depressão. Esse tempo a muito tinha sido esquecido na nuvem negra que era sua vida.
Seus olhos foram por acaso guiados a sua coleção de CDs românticos que tanto adorava. Cada um mais meloso que o outro. Em vida ela jamais teria admitido esse lado doce e vulnerável. Agora, já que estava morta mesmo, podia sentir orgulho de ser ainda romântica a moda antiga nessa era de bundas e peitos.
Ao tocar um de seus CDs pode perceber com certo susto que podia o segurar em suas mãos e não o transpassava como acontecia nos filmes estilo Ghost. Pegou um dos seus CDs favoritos e o levou ao micro system da sala o colocando na primeira bandeja e apertando o play.
O cd era o seu favorito entre todos os outros. Mariah Carey a rainha dos românticos começava a cantar uma das suas músicas mais emocionantes Without u. Ao começar a ouvir a música Simone sentiu todo o universo de sentimentos que a muito tinha esquecido.
Aliás, desde seu suicídio há uma ou duas horas e meia na banheira tudo a sua volta parecia bem diferente do que era em vida. Tudo era belo e simplesmente radiante. Não existia a pressa desvairada e nem aquele vazio mórbido que a consumia por dentro.
Lentamente ela se sentou em seu sofá onde sentia uma leve brisa refrescante com um cheiro delicioso. Eram as rosas que cultivava no jardim desde que seu pai e sua mãe eram vivos. Eles a ensinaram todos os truques de como deixá-las ainda mais bonitas sem o uso de produtos industrializados. Por que eles não vieram buscá-la para a viagem que deveria ter feito para o outro lado?
Simone estava arrependida de ter feito aquilo. Por que se matar quando podia estar aproveitando tudo o que percebera agora? Depois de morta é que dera valor à vida. Se ao menos tivesse se preocupado menos, e aberto a mão algumas vezes de coisas que podiam ter esperado, talvez nunca tivesse feito aquilo. Veria como era bom ter tudo que tinha.
Enquanto Without u estava quase no fim, ela percebeu como até mesmo esse prazer ela perdera. Quantas vezes deixou de ouvir suas músicas favoritas para não parecer antiquada.
Quanta besteira fizera por causa da opinião alheia.
Poderia ter ouvido aquela música o quanto quisesse em vida até decorar cada parte, porém o que achariam dela bancando a romântica brega no mundo das mulheres cachorras?
Quanta coisa perdera. Pensava ela se torturando por dentro agora. Não aproveitara a mais simples das coisas ao máximo por medo do que as pessoas que nem estariam no seu enterro falariam a seu respeito.
Agora já estava feito e estava morta. Só agora tinha percebido como a vida poderia ser tão mais linda se fosse um pouco mais livre.
As amarras e condenações da sociedade de hoje com seus padrões a tinham deixado depressiva e doente, como muitos outros estariam agora prestes a fazer o mesmo erro que ela se arrependera.

Leonardo Ragacini



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