domingo, 8 de junho de 2014

A VIDA NA PONTA DOS PÉS


Por Simone Brito 

    Na manhã em que nos vimos em sua casa, passei em uma padaria artesanal francesa, comprei pães à moda europeia e um bolo que, segundo o rapaz do balcão, era preparado com pão de chocolate, um creme com um leve toque de whisky e coberto com geleia de mamão, estranha combinação, mas quis saber o sabor de algo aparentemente exótico, palavra que não seria estranha em meu dia com Cristina Vieira, e sim inspiradora. 

    Fui recebida com um sorriso e um “hey dear” bem característico dos tempos de ateliê. Ao revê-la, percebi que não havia mudado tanto aos 34: com exceção do cabelo sem os dreadlocks que já havia passado por um curtinho até chegar a uma cabeleira envolvida em um coque, continuava com seu corpo esguio e musculoso. Uma beleza, com o poder da palavra “exótica”, não aquela beleza toda arrumada e irritante de uma bailarina comum. 

    Apresentou-me a casa em que vive há três anos, com o marido e o filho Benjamim, de dois anos, um bebê lindo e esperto de cabelos emaranhados. Um lugar acolhedor, espaçoso e com direito a uma rampa de skate no quintal; casa que tem festa, como diria o poeta Carlos Drummond de Andrade. 

    Trocamos o bolo por cerveja e partimos para o papo. Em meio ao seu mais novo papel, o de mãe, começamos a conversar. Pedi que contasse sobre o balé. A primeira memória foi um retrato com dois anos de idade, já na escolinha de dança, momento em que pediu a sua mãe que a levasse a uma escola de “balé de verdade”. Contudo, quem a levou foi a madrinha Mariana, de quem lembra com muito carinho. 

    Com sete anos, ingressou no Estúdio de Ballet Cisne Negro de balé clássico e dança contemporânea. “Foi nesta escola que ganhei uma profissão, ser professora, o que faço até hoje”. Lugar em que esteve até os 22 anos e que saiu por uma frustração: queria dançar profissionalmente, e não dar aula para crianças. 

    Longe da companhia, começou a estudar educação física por exigência da sua profissão e também por vontade de ter uma formação acadêmica. “Apesar de ser faculdade de educação física e todo mundo pensar que a gente vai lá para jogar bola, não é, tem a parte das matérias humanas. Na faculdade se aprende muita coisa, é mágico. Passar o conhecimento é muito legal, dar aula é um dom”. A faculdade lhe abriu um caminho intelectual o que fez com que pensasse mais como professora do que bailarina. 

    Em 2002, perdeu o pai e viveu um momento de ausência de si. “Deixei de fazer tudo que pertencia ao meu ser”. Parou de dançar, de estudar e saía muito à noite, queria fugir à ordem e seguir o fluxo sem se preocupar com a vida. 

    A proposta do ateliê surgiu neste momento, através de uma amiga bailarina. Para um apaixonado pela dança, a relação com o movimento é muito intensa. “O trabalho de modelo vivo, apesar de ser parado, o que tem de movimento é incrível. A gente tá parado, mas o corpo tá ali pulsando, a respiração, o silêncio, o movimento do artista desenhando a modelo”.

    Foi só em 2004 que retomou a faculdade de educação física e começou a se reencontrar na dança e na profissão de professora: estudar o indivíduo e passar conhecimento. Foi ao lecionar que descobriu que há 
diferenças do bailarino profissional que tem aulas com o “mestre”, o professor especialista em ensinar o balé nível avançado e o professor que dá aula para criança. “O aprendizado do balé é militar, todo mundo uniformizado, a cultura do clássico tem tradição rígida”. 

    Ao final da faculdade reencontrou seu professor do Cisne Negro, que havia inaugurado uma companhia. Na primeira audição, para apresentar o espetáculo “Carmen”, da ópera de Georges Bizét, um drama em que a cigana, personagem principal, seduz através da dança e do canto, decidiu participar. “A maioria das pessoas acha o balé chato porque só conhece o chamado balé branco, Lago dos Cisnes e Gisele, mas Carmen tem mais energia, e é visceral, principalmente com a opéra de Bizet. Quem não conhece precisa ouvir”. 

    Embora a audição tenha sido terrível, pois estava já há algum tempo sem treinar, foi chamada para fazer um estágio, o que foi um reconhecimento que não esperava, contava apenas que conseguiria fazer aulas. No final, as meninas que passaram na audição não ficaram, porque queriam glamour, sucesso e dinheiro, coisas que a escola não poderia oferecer naquele momento.

    Acabaram ficando os apaixonados pelo balé. “Carmen foi um reencontro de pessoas que estavam ali para resgatar algo, um espetáculo feito com amor à dança. A vida havia me levado para outros caminhos e me tornei professora. Eu preferi namorar, ir para balada, mas bailarino tem que pensar no corpo. Eu voltei aos trinta anos para resolver minha psique; alma, ego e mente”.

    Resolvida na companhia, ficou grávida do Benjamim, mas dançou até os seis meses, como disse com orgulho, “na ponta”. Depois, ficou algum tempo como assistente de ensaio, embora, acredite ser uma função muita delicada por estar entre o bailarino e o professor. “Sinto que ainda quero palco, faz parte da minha alma dançar”. 

    Cris acredita que se formou em qualidade de vida, maturidade que o imediatismo dos 20 anos não enxerga. Como bailarina, sabe que precisa trabalhar o corpo e acorda todos os dias bem cedinho para se alongar.

    Para ela, este momento é de compreender o fluxo natural da vida, a base familiar e a religião. “Com vinte anos precisava de autoafirmação, queria ser bailarina top, dar aula para profissional e não para criança e viajar, mas não é assim. Todo mundo quer a cereja do bolo. Aos 34 anos percebo que tudo é construção do indivíduo”. 

    Também não é apenas a paixão pelo movimento que a estimula. Acredita que a dança é nata ao ser humano e se manifesta mesmo que não haja complexidade alguma. “Até o dedinho no carnaval e o bate cabeça do rock n’ rol é dança. É a minha vida, eu respiro movimento”. 

***

    Há três semanas, antes de entrevistar Cristina Vieira, antes mesmo de contatá-la, comecei a rememorar quando nos conhecemos, ou melhor, como nos conhecemos. Na época, em 2007, trabalhava de modelo vivo na Oficina de Escultura Israel Kislansky. 

    Bem, para contextualizar, o trabalho de modelo vivo é, a grosso modo, posar para artistas e, no caso, aprendizes da arte de esculpir e desenhar. Devo dizer que a primeira vez que a vi ela estava nua, e a segunda eu também, quando conversamos. 

    Antes do encontro, refleti algum tempo sobre o ato de se despir. Neste trabalho é preciso muita disciplina e desprendimento e não um padrão de perfeição ou beleza, na verdade. Quanto mais complexo e diferente for a atitude corporal, melhor. Tudo depende do que o artista quer. 

    Aprender a ficar nu é uma experiência diária, e não por estar na frente de pessoas com uma finalidade tão nobre que é a arte, mas por aceitar a si próprio e se reconhecer na obra construída. Um aprendizado que só quem trabalhou como modelo vivo entende. O tempo passa diferente quando se está parado em uma pose. A mente fica livre para desejar, fazer planos para o futuro e contar, isso mesmo, contar. 

    Qualquer coisa no ambiente serve. Se a dinâmica proposta na aula é de cinco minutos em uma pose, um modelo vivo pode criar diversas unidades de medida, como contar até trezentos pulando todas as dezenas ou pensar em quantas linhas verticais possui a sala.

    Isso porque os olhos ficam apurados, seríamos capazes de descrever todo o ambiente com riqueza de detalhes. Foi nessa toada que reencontrei a Cris, ou Kika, ou mesmo, a bailarina desgarrada, na época, de dreadlocks e turbante da oficina. 


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