domingo, 5 de janeiro de 2014

Casca Humana

Passei o dia largado na cama. Memórias atravessando minha cabeça como se fosse uma mão penetrando em um filete de água. Imagens dançam na minha cabeça e sons são percebidos, mesmo aqueles que não são emitidos nesse momento. O lugar é confortável, quente e familiar, onde tudo é pacifico, exceto pela televisão ligada, cuja qual eu não tenho a mínima vontade de assistir. Não preciso de televisão, pois tenho minha vida para analisar, tarefa esta que distorce o ambiente, que não é mais totalmente pacífico. De minha mente surge o caos, que borbulha em meio à paz reinante.
Risos de criança acompanhados por choro, determinação e tristeza. Perdas e vitórias, ganhos e derrotas acompanham os anos pelo qual a roda do tempo já passou. Saudades existem sem nenhum arrependimento ou amargura. Brincadeiras, jogos, histórias, revistas e livros rodeiam o quarto. Remodelado mil e uma vezes, com pessoas que entram e saem pela única porta e respiram o ar proveniente de uma única janela. A TV, agora moderna, continua ligada, mas já não é mais a mesma. Todos os tempos foram únicos, mas, na realidade, não houve tempo bom ou ruim. Não cabe à Felicidade ser o parâmetro de classificação desse conceito, uma vez que, se felicidade fosse o fator determinante, tempos bons e ruins existiriam, mas trariam outras dúvidas consigo, as quais eu não possuo interesse algum em perguntar.
Nenhuma pessoa passou por aquela porta ultimamente e, com isso, me sinto sozinho, mas lembro-me que já estive bem acompanhado, embora eu sempre soubesse que minha sociabilidade nunca foi das melhores.
E por anos eu tentei ser mais sociável. Conversar mais, conhecer mais. Falar mais e ouvir de menos, atitude a qual sempre realizei ao contrário nos inúmeros encontros aos quais entrei mudo e sai calado. Denominaram-me tímido.
Contudo, ao observar as pessoas, percebi que mudanças de hábitos e atitudes envolvem uma mudança, mesmo que singela, de caráter ou personalidade. A mudança de personalidade para ser mais sociável é fragmentar-se. Não precisa ser muito, mas necessita ser o suficiente para que estes pequenos fragmentos incorporem nas pessoas e seja capaz de sentir através delas ou imitar o sentimento que as assola. É o que chamamos de "entender as pessoas". Utilizamos essa habilidade ao consolar um amigo, ao preocupar-se com a correspondência do sentimento declarado a uma pessoa, ao ponderar sobre a atitude de um ser ou um conjunto de seres. Não possuo essa capacidade em quantidade satisfatória, pois, diante de todos os acontecimentos, eu me mantenho uno. Indivisível.
Através da indiferença, não consigo sentir as pessoas. Elas vivem, amam, destroem-se, reerguem-se e, desta forma, vivem numa alternância de sentimentos, alternância esta da qual eu também compartilho. Tenho, dentro de mim, todos os sentimentos do mundo; apenas perdi a capacidade de amar. O Amor fragmenta, reorganiza e une. Minha Indiferença absorve, organiza e protege.  Eu sou uma casca humana. Vivo sozinho, mas em minha solidão ainda tenho todo um mundo para sentir. 
Saio da cama, desligo a TV e fecho a porta. Sem Amor, ainda pode-se fazer muitas coisas.

Lucas de Figueiredo


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