terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Mensagem aos amigos





O ano que está terminando bateu todos os recordes. Do trânsito, do PIB, das mensagens de texto, das horas sem descanso e da correria nossa de cada dia. Foi o ano do colapso das vias urbanas, da saturação de uma São Paulo que sobrevive à base de pontes de safena: um corredor de ônibus aqui, uma nova estação ali... E assim vamos andando. A infraestrutura da cidade fica sobrecarregada e com ela, os nossos corações. Ninguém se esforçou mais do que eles nesses doze meses. Atravessaram a cidade em dias de chuva, trabalhando ou estudando em ambientes claustrofóbicos. Choraram em dias terríveis e sorriram com o retorno do Sol. E hoje estão aqui conosco, dentro de nós, esperando o amanhã e refletindo sobre ontem.
Muitos começaram um emprego nesse ano, outros, um namoro, alguns visitaram lugares inéditos e sentiram o vento das novas ideias. Apesar dos momentos de ar puro, houve também as obrigações do dia-a-dia, que por vezes sufocaram sujeitos cuja única forma de se expressar era por meio de um computador. Que bom que os PCs existem, mas é uma pena estarmos sufocados. Não era pra ser assim em tempos de culto extremo à tecnologia. Os drivers estão aí para nos ajudar, mas ainda precisamos de nós mesmos, e que bom que continua assim! As ferramentas devem ser um meio para um determinado fim, um objetivo específico, não apenas um meio para ter mais meios. Os Whatsapps da vida nos levam mais rápido à mente das pessoas, mas são as nossas ideias e valores que chegam a seus corações. Ainda não inventaram um seguro para a solidão e nem um aplicativo para o amor verdadeiro. É preciso ir além das plataformas digitais e promover a verdadeira interação entre as vidas das pessoas, e isso pode ser feito com os mais simples sentimentos. Mas não é fácil fazer o que é certo.
É complicado viver num mundo eficiente da indústria e caótico na saúde. As pessoas querem viver a utopia do mercado e ficam doentes do corpo e da mente. Depois, culpam somente o Estado, mas deixam as empresas cortarem funcionários e precarizar as profissões. Quem quer pensar o Brasil precisa enxergar a corrupção que vai além da política, aquela que está em quase todo o país. Precisa notar que o modo de vida dos privilegiados faz mal a toda a coletividade. 
Fica difícil, por exemplo, andar numa cidade na qual ricos pegam o carro, vão à academia e passam duas horas numa bicicleta que não anda. Um mundo onde achamos o máximo falar ilimitado por 30 centavos sendo que pessoalmente ainda é de graça. É claro que a ligação encurta a distância e mata a saudade. É claro que outras tecnologias podem ajudar, mas é sempre até certo ponto. Pelo triplo da metade compramos o dobro e achamos que gastamos menos. A nossa salvação não está no próximo lançamento do mercado. Essas coisas deveriam nos servir e não nós a elas. 
Os problemas pós-modernos são complexos, ainda não temos claras respostas. O cotidiano, por exemplo, está sempre melhorando num ponto e piorando no outro. Nós, por exemplo, não somos criaturas perfeitas, nem sequer sabemos como seria a perfeição. Às vezes pisamos na bola sem perceber e queremos ganhar em todas as frentes. Em outras nos fechamos a ideias que poderiam fazer bem a nós mesmos e ao próximo, e nos trancamos em pensamentos sem janelas. Até porque, convenhamos, lá fora não se acha gente compreensiva assim tão fácil. Tudo é complexo, tudo tem lado bom e lado ruim, tem dúvida e diversos pontos de vista. Ainda assim, existe algo que indiscutivelmente precisamos fazer: precisamos buscar mais equilíbrio para os nossos dias. Consumir é natural, consumismo é insustentável. Conhecer pessoas é fundamental; amar, mais ainda, mas conhecer é muito mais do que olhar. Duzentas curtidas animam, mas não mais que um abraço. Viajar é belo, navegar é preciso, visitar é divino... Porém é triste dar a volta ao mundo sem ir ao fundo de si mesmo.
E essa tarefa de melhorar a vida é minha, é sua e de todos nós. Afinal, é juntos que construímos a cidadania. A discussão inteligente tem de ser incentivada. Os problemas estão aí. Fugir deles é simplesmente fugir da vida.
No ano que vem, eu espero que possamos enfrentar os nossos desafios de cabeça erguida e superar, novamente, todo o cansaço e a incompreensão, toda a correria e o medo. Através do amor. Ele não faltou esse ano. Ele apareceu nos mais sublimes (e também delicados) momentos do calendário. Nas horas de dor e de alegria, nos instantes solitários e redentores. E vai estar conosco ainda mais forte, em cada rua agitada que atravessarmos, em cada projeto que avançar pelas madrugadas, em cada porta de Metrô que se recusaea fechar. Que a porta da esperança, essa sim, não aceite ser batida, que esteja sempre aberta aos sonhadores, aos amigos da paz e da união. É na dificuldade que crescemos.
Juntos, poderemos vencer os desafios mais uma vez. Venceremos a noite e chegaremos inteiros na manhã. Que 2014 seja repleto de arte, saúde, respeito e vitória para todos os amigos.

Rafael Cardoso