domingo, 4 de agosto de 2013

Carcaça

Os meus dias estavam cada vez mais longos e cansativos. Eu ia para o trabalho de manhã e voltava ao anoitecer. Às vezes nem jantava e ia direto para a cama.
Eu não lia mais, não fazia sexo com ninguém, não assistia ao jornal. As pessoas me cumprimentavam e eu retribuía o aceno, mas era apenas por formalidade e não mais por educação. Meu cabelo era ensebado, os óculos que usava estavam quebrados e suas respectivas lentes riscadas. Eu não me importava.
Eu tinha perdido tudo. Não tinha moral, não tinha caráter, desejos ou amizades. Estava estagnado psicologicamente no tempo. Dias e noites já não faziam a menor diferença e tirar férias era o meu maior medo. E elas estavam vencidas há dois anos atrás.
E foi num longo dia de inverno que aconteceu. Eu estava sentado em uma cadeira que antes julgava ser a minha favorita, mas que agora se encontrava desprovida de qualquer significado. Minha casa estava toda empoeirada, meus peixes há muito haviam morrido de fome, contudo a morte deles era inevitável, pois o aquário também necessitava de limpeza geral, a qual não dispunha de vontade para fazê-la. Eu assistia a um filme de terror, mas não prestava qualquer atenção, tanto que não sabia nem quem era o protagonista da história. Foi nesse dia que pensei mais uma vez em você.
Eu a via sorrir ao correr pelo imenso parque de diversões. Você e sua mãe estavam magníficas naquele dia. Teddy, seu ursinho de pelúcia predileto, estava sendo prensado contra seu corpo devido à força excessiva de seu abraço. Ele não parava de exclamar “eu te amo!” toda vez que você o apertava daquele jeito. Sua mãe dava um leve sorriso ao admirá-la, para logo depois olhar em meus olhos. O brilho que havia neles também dizia “eu te amo”. Então, como mágica, essa memória borrou-se e desapareceu em seguida. Outra surgiu no lugar.
Um choro de criança. Era você nascendo. Parto normal.
Vomitei todo o meu almoço naquele dia. Porém pude presenciar cada momento do seu nascimento, desde quando saiu a sua minúscula cabecinha até o seu corpo sair por completo. O pé direito foi o último a retirar-se do corpo de sua mãe. Eu ria, eu chorava... Gostaria de quebrar o vidro de tanta ansiedade ao vê-la chorando no berçário. Mas agora tudo se foi. Para sempre.
Outra lembrança. Era um dia quente de verão e fazia cerca de quarenta graus no interior do carro. Todos estavam felizes, mesmo na presença do forte calor. Meu chefe tinha antecipado minhas férias e pude fazer uma viagem com vocês para o interior de São Paulo. A viagem foi tranquila e você dormiu a maior parte do tempo. Teddy cuidou de você enquanto dormia.
Ao chegar ao destino planejado, você e sua mãe desceram do automóvel e me aguardaram na sombra enquanto eu manobrava o carro para estacioná-lo na minúscula vaga em frente a uma casa amarela. Então, após alguns retoques nos cabelos bagunçados pelo vento da estrada, apertamos a campainha da casa dos seus avós. Fomos-nos muito bem recebidos por eles. Você ganhou vários presentes, tanto que foi difícil guardá-los dentro do porta-malas. Depois de três dias, nos despedimos deles e voltamos para casa. O acidente ocorreu logo após de deixarmos para trás a cidadela onde seus avós moravam. Foi neste acidente que você e sua mãe morreram.
Eu gostaria de poder tê-las salvo, mesmo que tivesse que dar minha vida em troca, contudo eu fiquei inconsciente com a batida. Fraturei três costelas, perdi um rim e tive que amputar minha perna direita, a qual foi espremida no impacto. Mas a maior dor foi a que senti no enterro. Eu perdi tudo naquele momento.
Toda minha vida se esvaiu, transformando-se na carcaça que sou hoje.
Depois do choque que sempre levo ao lembrar tudo de novo pela milésima vez eu levanto e caminho a passos lentos em direção ao banheiro. Começo a tossir.
A dor que sinto dilacera meu pulmão, mas não abranda a desolação que só cresce no meu coração. Meus cabelos caem por cima de meu rosto ao arquear-me em frente a pia do banheiro. Levanto e reparo na silhueta pálida e enrugada que aparece no espelho. Tusso novamente e uma gosma acinzentada escorre pela pia. Viscosa, demora para ser engolida pelo ralo. Pela terceira vez olho no espelho. Com espanto, vejo a mesma gosma sair pelo meu nariz, pelos ouvidos e pelos lábios enquanto através da pálpebra inferior de ambos os olhos, o mesmo líquido desponta. Então tusso novamente, mas não é uma tosse qualquer. O líquido da minha boca esguicha sobre o espelho na forma de vômito sujando-o, corrompendo-o.
Sem que eu notasse toda a gosma se junta formando um grumo que alcança a borda da pia.  De súbito, o grumo começa a levitar até atingir a altura de meus olhos, no formato de uma bola maciça. Já não dá para ver o espelho.
A bola cinza me engole. Não dá para ver mais nada. O desespero se apodera de meu ser.
Então, repentinamente, não sinto mais nada.

Lucas de Figueiredo