sábado, 29 de junho de 2013

Entre ruas e navios

Djavan lança álbum Rua dos Amores

Aos 64 anos de vida e 39 de carreira, o cantor e compositor lança seu 20º álbum de estúdio, Rua dos Amores, numa parceria entre a sua gravadora, Luanda Records, e a Universal Music. Ele volta a gravar músicas de sua própria autoria depois do álbum Ária, de 2010. Com treze faixas, Rua dos Amores lembra, à primeira vista, as canções de Matizes (2006) com sua toada etérea e o uso constante de guitarras. Mas só à primeira vista.
As letras estão mais fortes dessa vez. No caso de Djavan, quer dizer ainda melhores que as dos discos anteriores. Ares Sutis, por exemplo, começa com indagações filosóficas: “Quanto mais eu sou, menos sou o que sei/ E pro que nasci, será que cumprirei?”. Mas de uma forma magistral, a música consegue ganhar ares românticos quando chega no “desvão do amar”. É bem verdade que parte das faixas exige um dicionário à mão para consulta. Djavan é assim mesmo. Escreve para quem gosta de escrever.
Mas seu lirismo alcança a coloquialidade nas canções com traços de samba, como Acerto de Contas. Recomendada para todo o mundo que for fã de Fato Consumado. É um samba leve, simples, embora refinado com o jeito singular de seu compositor, que adora refrões longos, de mais de cinco acordes. Em Acerto de Contas ainda há espaço para as famosas cores das composições do alagoano, no caso, o verde. A preferida é o azul, que dessa vez ficou de fora.
É curioso notar: a canção que dá nome ao álbum dispensa a bateria e permanece instrumental até 1 minuto e meio de música! Rua dos Amores tem uma forte interpretação, com longos agudos e um acordeom. Mas se fosse um poema, lembraria mais um soneto do que uma Ode, não é muito longa, não tem jeito para ser a “música-chefe” do disco. Essa tarefa ficou com Já Não Somos Dois, que explora mais a percussão e o piano. Nela, é possível lembrar porque Djavan já teve seu estilo comparado com o de Stevie Wonder, com o qual gravou duas vezes.
Já Não Somos Dois, como não poderia deixar de ser, fala de amor. Às vezes lembra a métrica precisa dos parnasianos, noutras, elementos dispersos à maneira dos simbolistas. E de repente, pouco antes do refrão, Djavan nos manda um “te quero night and day”.  A introdução é quase tão forte quanto o refrão, o que deve ter justificado a escolha de colocá-la nas rádios. A interpretação é firme, a voz de Djavan fica em tom semelhante à de Acelerou, que fez sucesso nos anos 2000.
Em Pecado, os instrumentos de sopro ganham mais espaço, mas com uma roupagem mais moderna, bem distantes dos saxofones dos anos 80. Lembra um pouco Boa Noite pela organização dos acordes. A temática é complexa: fala de pássaros, do amor, de uma paixão em conflito até chegar ao refrão mais simples do álbum que é, no geral, bastante animado, mas Quinze anos tem leves toques de melancolia e nostalgia ao relembrar antigas memórias de amor. É uma canção para ser ouvida muitas vezes, visto que a letra é grande e cheia de mudanças de tom.
Ainda assim, não é simbolista como Anjo de Vitrô: “Céu singular/Bruma a pender/ Da margem escura luz a devenir/”. De início, a ênfase está na voz, depois surge a bateria e os violões. Anjo de Vitrô fica menos complexa quando diz “pra acabar com essa graça toda”. Possui dois solos, um de saxofone e outro de piano, de tempo considerável. O refrão se preocupa em descrever a contemplação do eu-lírico frente a uma grande beleza: “Dada como um anjo de vitrô/ Pura flor sem pecado/ Você tímida e assustada/ E eu aqui, encantado”. Sem dúvida, tem boas chances de ir para o rádio, provavelmente será editada, porque tem mais de 5 minutos.
Djavan é um dos maiores nomes da MPB. Suas influências se estendem de Paulinho da Viola a Roberto Carlos e vem de Maria Bethânia a Stevie Wonder, sempre caetaneando o que há de bom na música. Rua dos Amores é um álbum para salientar a pluralidade e versatilidade do cantor cujo nome a mãe escolheu por um sonho. "Minha mãe disse que quando estava grávida sonhou com um navio que tinha o nome Djavan. Ela achou que era um sinal e me batizou assim”. O “Navio Djavan” saiu de Alagoas e conquistou o Brasil. Passou o bojador e foi além da dor em suas canções.
As viagens que fez influenciam seu trabalho de tal forma que ele avisa, em Triste é o Cara:  “Triste é o cara que só sabe o que é bom/ Que não sai do Leblon”. Djavan rodou o mundo e trouxe melodias para a Rua dos Amores.

Rafael Cardoso




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