domingo, 30 de junho de 2013

Eu sou quase um anjo

Você pode ser difícil de conquistar
Mas eu posso te ganhar
Da forma que eu quiser
Porque você pode comandar
Mas eu sou a fórmula perfeita
Pra quebrar o seu teatro
Porque quando somos nós dois
Eu falo sério
Você me leva
E eu te faço acontecer
Você resite e diz não
Mas não é fácil me controlar
Eu sei onde ir pra te comandar
E quando pensa que me faz d palhaço
Está fazendo tudo que eu mando
Quando pensa que está brincando
Eu sou quase um anjo
Mas sou o que sempre vai vencer
Sempre independente
De tudo que você pode esperar
Eu tenho uma grande imaginação
Eu sei como te deixar quente
Você fica derretendo
E eu apaixonado por você
Perfumes, luzes e sensações
Eu sei como ter tudo
Aquilo que eu quero.

Leonardo Ragacini


sábado, 29 de junho de 2013

Entre ruas e navios

Djavan lança álbum Rua dos Amores

Aos 64 anos de vida e 39 de carreira, o cantor e compositor lança seu 20º álbum de estúdio, Rua dos Amores, numa parceria entre a sua gravadora, Luanda Records, e a Universal Music. Ele volta a gravar músicas de sua própria autoria depois do álbum Ária, de 2010. Com treze faixas, Rua dos Amores lembra, à primeira vista, as canções de Matizes (2006) com sua toada etérea e o uso constante de guitarras. Mas só à primeira vista.
As letras estão mais fortes dessa vez. No caso de Djavan, quer dizer ainda melhores que as dos discos anteriores. Ares Sutis, por exemplo, começa com indagações filosóficas: “Quanto mais eu sou, menos sou o que sei/ E pro que nasci, será que cumprirei?”. Mas de uma forma magistral, a música consegue ganhar ares românticos quando chega no “desvão do amar”. É bem verdade que parte das faixas exige um dicionário à mão para consulta. Djavan é assim mesmo. Escreve para quem gosta de escrever.
Mas seu lirismo alcança a coloquialidade nas canções com traços de samba, como Acerto de Contas. Recomendada para todo o mundo que for fã de Fato Consumado. É um samba leve, simples, embora refinado com o jeito singular de seu compositor, que adora refrões longos, de mais de cinco acordes. Em Acerto de Contas ainda há espaço para as famosas cores das composições do alagoano, no caso, o verde. A preferida é o azul, que dessa vez ficou de fora.
É curioso notar: a canção que dá nome ao álbum dispensa a bateria e permanece instrumental até 1 minuto e meio de música! Rua dos Amores tem uma forte interpretação, com longos agudos e um acordeom. Mas se fosse um poema, lembraria mais um soneto do que uma Ode, não é muito longa, não tem jeito para ser a “música-chefe” do disco. Essa tarefa ficou com Já Não Somos Dois, que explora mais a percussão e o piano. Nela, é possível lembrar porque Djavan já teve seu estilo comparado com o de Stevie Wonder, com o qual gravou duas vezes.
Já Não Somos Dois, como não poderia deixar de ser, fala de amor. Às vezes lembra a métrica precisa dos parnasianos, noutras, elementos dispersos à maneira dos simbolistas. E de repente, pouco antes do refrão, Djavan nos manda um “te quero night and day”.  A introdução é quase tão forte quanto o refrão, o que deve ter justificado a escolha de colocá-la nas rádios. A interpretação é firme, a voz de Djavan fica em tom semelhante à de Acelerou, que fez sucesso nos anos 2000.
Em Pecado, os instrumentos de sopro ganham mais espaço, mas com uma roupagem mais moderna, bem distantes dos saxofones dos anos 80. Lembra um pouco Boa Noite pela organização dos acordes. A temática é complexa: fala de pássaros, do amor, de uma paixão em conflito até chegar ao refrão mais simples do álbum que é, no geral, bastante animado, mas Quinze anos tem leves toques de melancolia e nostalgia ao relembrar antigas memórias de amor. É uma canção para ser ouvida muitas vezes, visto que a letra é grande e cheia de mudanças de tom.
Ainda assim, não é simbolista como Anjo de Vitrô: “Céu singular/Bruma a pender/ Da margem escura luz a devenir/”. De início, a ênfase está na voz, depois surge a bateria e os violões. Anjo de Vitrô fica menos complexa quando diz “pra acabar com essa graça toda”. Possui dois solos, um de saxofone e outro de piano, de tempo considerável. O refrão se preocupa em descrever a contemplação do eu-lírico frente a uma grande beleza: “Dada como um anjo de vitrô/ Pura flor sem pecado/ Você tímida e assustada/ E eu aqui, encantado”. Sem dúvida, tem boas chances de ir para o rádio, provavelmente será editada, porque tem mais de 5 minutos.
Djavan é um dos maiores nomes da MPB. Suas influências se estendem de Paulinho da Viola a Roberto Carlos e vem de Maria Bethânia a Stevie Wonder, sempre caetaneando o que há de bom na música. Rua dos Amores é um álbum para salientar a pluralidade e versatilidade do cantor cujo nome a mãe escolheu por um sonho. "Minha mãe disse que quando estava grávida sonhou com um navio que tinha o nome Djavan. Ela achou que era um sinal e me batizou assim”. O “Navio Djavan” saiu de Alagoas e conquistou o Brasil. Passou o bojador e foi além da dor em suas canções.
As viagens que fez influenciam seu trabalho de tal forma que ele avisa, em Triste é o Cara:  “Triste é o cara que só sabe o que é bom/ Que não sai do Leblon”. Djavan rodou o mundo e trouxe melodias para a Rua dos Amores.

Rafael Cardoso




sexta-feira, 28 de junho de 2013

Uma viagem inesquecível - A Grande Aventura - Capítulo 10 – A descoberta de um novo povo

Cabral, Pero e João andavam apressadamente, já estava anoitecendo e eles nada descobriram até aquele momento, ouviam berros vindo de todas as direções e precisavam saber o que estava acontecendo.
-Vamos nos separar, João você vem comigo, Pero você segue a trilha sempre em frente, preciso saber que inferno está acontecendo com estes homens que não podem ficar à sós um só segundo. Se encontrar algo ou quando escurecer volte à praia, entendido?
Cabral olhava para Pero que sorria animadamente, balançando a cabeça diversas vezes em concordância. Aquela seria a sua chance afinal de poder desfrutar daquele paraíso sozinho e descrever cada planta e cada animal que existia naquele pequeno pedaço de mundo.
-Pois bem, vamos!
O negro seguiu aliviado o capitão-mor enquanto Pero continuava sua viagem.
-Agora sim, vamos lá Pero!-O homem falava consigo mesmo, pegando seu pequenino caderno de anotações e começando a relatar tudo o que seus olhos podiam avistar, até ouvir um som vindo ao longe, alguém estava cantando. Começou a pisar mais devagar, os pés leves como pluma.
Chegou a um pequeno riacho, os olhos se atentaram em uma moça bela que se lavava delicadamente. De pele morena e longos cabelos negros e lisos, de olhos levemente puxados e sem roupa alguma.
Pero sentiu um frio na barriga, tentou se aproximar para olhar melhor, mas o pé se enroscara em um cipó no chão, fazendo-o tropeçar e cair, o caderninho voou de suas mãos, caindo na água.
-NÃO!
Ele berrou inconformado, assustando a pobre moça que saiu correndo mata adentro.
-Não, espere!
Ele gritou, correndo na direção da mulher, esquecendo o caderno no riacho que boiava, sendo levado pela correnteza.
Enfiou o pé na água, estava fazendo muito isso ultimamente, logo poderia ser mestre nesta arte. Sentia o peso da água em suas botas, impedindo-o de ser mais ágil. A mulher dava saltos imensos, se afastando rapidamente dele.
-Eu não vou machucá-la, por favor, não corra, espere!
Ele estava começando a ficar sem fôlego, quando finalmente a viu adentrar em uma grande cabana feita de palha. Parou colocando as mãos nos joelhos e respirando com certa dificuldade, o suor pingava de sua testa e suas roupas colavam em seu corpo.
Ergueu a cabeça e olhou à sua volta. Homens completamente nus, muito semelhantes à moça, de cara e corpo pintado o encaravam com arcos e flechas erguidos mirando-os em sua direção.
-Por favor... -O pulmão estava queimando, ele ergueu a palma da mão no ar, balançando de leve- eu venho em paz...
Ele disse resfolegando, a moça que correra dele colocava a cabeça para fora da cabana em que se escondera, observando-o com olhos curiosos.
Ele teria muito que relatar, encontrara afinal os índios. Passou a mão no bolso da calça à procura de seu caderno, onde estava?
Droga! Perdeu tudo o que tinha escrito ao abandoná-lo no rio! Não acreditava nisso, agora teria de relatar os acontecimentos novamente, seu trabalho seria dobrado e muita coisa com certeza estaria perdida, uma vez que a inspiração já fora embora.
Viu os homens se aproximarem curiosos, tinha que avisar o capitão, mas antes iria ele mesmo descobrir do que se tratava aquela gente, a história seria longa em todo caso e o rei e todos aqueles que lessem a adorariam com certeza.
Mal podia esperar para escrever toda aquela imensa e inesquecível aventura, e quem sabe, dali há alguns milhares de anos as pessoas não considerassem seu trabalho árduo como algo precioso, afinal, ele era o grande contador daquela maravilhosa e inesquecível história do descobrimento do Brasil.

Fim

Jéssica Curto


quinta-feira, 27 de junho de 2013

Uma viagem inesquecível - A Grande Aventura - Capítulo 9 - Terror na floresta

Afonso, Sancho e Nicolau andavam mata adentro tranquilamente, achavam absurdo os homens terem medo de enfrentarem qualquer problema que fosse, afinal de contas, eles não eram homens do Rei? Não deveriam nem poderiam temer nada nem ninguém. Iriam matar se preciso fosse para tomar aquelas terras em nome de Vossa Majestade.
Aquele lugar não aparentava ser nem um pouco assustador. Era repleto de árvores de diversas espécies que eles nunca sequer viram, os animais pareciam dóceis, e embora estivesse fazendo mais calor do que eles estavam acostumados, a terra parecia ser um pedaço dos céus esquecido por Deus.
Já estava para escurecer e eles nada haviam encontrado naquela região. Iriam voltar para a praia, no dia seguinte poderiam vasculhar mais o local.
Estavam andando lentamente em direção à praia, quando uma imensa coruja estranha de grandes olhos amarelos e penas negras pousou em um galho alto e grosso perto dos homens e começou assobiar estridentemente, fazendo-os se arrepiarem por completo, era aterrorizante.
Fez-se ouvir um resmungar, todos olhavam em volta buscando da onde vinha o som, quando voltaram seus olhos para a frente deram de cara com uma senhora de pele morena e enrugada, com olhos levemente puxados, brilhantes e negros. A boca se encrespava, observando-os em silêncio. Usava um manto que lhe cobria o corpo todo.
Aproximou-se de Nicolau, atenta em seus detalhes, vendo-os em completa mudez, eles seguravam suas armas com firmeza, porém mantinham-nas abaixadas.
Sua mão trêmula se ergueu lentamente e agarrou o braço de Nicolau que arregalou os olhos vendo a senhora se contorcer e o soltar abaixando a cabeça, começava a falar em um tom sombrio.
-Quem quer? Quem quer? Quem quer?
Os homens se olhavam confusos. Sancho, um homem encorpado coçou o topo da cabeça, transtornado.
-Quem quer? Quem quer? Quem quer?
Ela repetia em um tom agourento. O pio da coruja estava mais baixo e assustador, seguindo o ritmo da voz da velha.
Afonso achava ridícula aquela situação toda. A mulher aparecera do nada e estava assustando-os pelo simples fato de ter um modo de falar estranho, resolveu então tomar à frente.
-Quem quer o que? Quem é você? O que você quer?
Ele falava irritado. O rosto da mulher se ergueu encarando-o por uns instantes e então abriu um sorriso de dentes podres.
A coruja decolou da árvore para o ombro da senhora que começava a rir em um tom cruel. A ave se mantinha em completo silêncio.
Tossindo de leve, a velha  se apoiou em sua parca bengala de madeira e pôs-se a falar com uma voz gutural.
-Matinta Pereira é meu nome e venho trazer agouro para os invasores.
Esta terra não lhes pertence, o castigo virá. Vocês trouxeram o mal e o mal irá levá-los de volta donde vieram, preparem-se, o horror está à caminho e vai tomar conta deste solo.
Os homens estavam espantados com aquela mulher, sequer ouviram-na chegar e ela vinha com bobas histórias ameaçando-os, quem ela pensava que era?
Matinta Pereira voltou a tossir, a ave alçou voo piando alto novamente, distraindo-os e, quando se voltaram para a mulher ela já não se encontrava mais ali. Ao escutar pela última vez sua risada diabólica, os pelos do corpo se eriçaram completamente. O que quer que fosse aquilo, era melhor dar o fora dali.
Começaram a correr na direção de onde vieram, ouvindo berros vindos da praia que por certo deveria estar condenada.
-Esperem, esperem, vejam! Pegadas indo rumo ao mar, não podemos ir para lá homens.
Afonso falava, apontando para as pegadas no chão.
-Vamos seguir por aqui.
Sancho dizia já correndo para a direita. Risadas altas e estridentes eram ouvidas mata adentro.
-Vamos, rápido!
Nicolau corria completamente apavorado com aquela situação.
Foi então que algo muito laranja passou correndo por eles, soltando assovios por todos os lados, eram agudos e assustadores.
-Curupira não gosta de invasores na terra dele. Curupira vai enlouquecer um por um!
A voz saia de todos os cantos possíveis, fazendo com que os homens olhassem para cima, completamente confusos.
De repente Afonso caiu no chão, berrando de dor.
-Afonso, o que foi homem?
Sancho berrava, vendo o amigo tombado com uma flecha enfiada no peito, outra foi lançada em seguida e passou de raspão pelo braço de Nicolau.
-Vamos sair daqui!
Nicolau berrava abandonando os amigos e adentrando a floresta. Afonso respirava com dificuldade, o sangue vazando pelo buraco aberto.
-O que vamos fazer?
Sancho perguntava mais para si do que para Afonso. A risada ficava cada vez mais próxima, estridente e enlouquecida.
O amigo caído revirava os olhos, respirando com dificuldade.
-Vamos homem, levante, temos de sair daqui!
O gorducho camarada suava em bicas, vendo Afonso padecer. Os olhos lacrimejaram e piscaram uma última vez, sua cabeça tombou para o lado, estava morto.
Sancho engoliu em seco, ergueu-se empunhando sua espada, iria morrer enfrentando aquele monstro.
-O que você quer?
Ele berrava para o tal Curupira que o estava atacando.
-Saia das minhas terras, invasor!
Mais flechas voavam na direção do homem que começava a atirar em todos os sentidos.
Uma movimentação alaranjada passava por ele confundindo-o, a risada gritante o assustou quando viu seu amigo Nicolau cair do topo de uma árvore com uma flecha na cabeça.
-Deus me proteja!
Ele ouviu a risada atrás de si e se virou apressadamente, vendo o ser ali presente.
Era um garoto de no máximo um metro e meio, tinha pelos pelo corpo inteiro, de cor alaranjada. O cabelo era arrepiado e as pernas a partir do joelho eram viradas para trás.
Carregava em uma das mãos um cajado de madeira em outra um escudo pintado de amarelo, lembrando o sol. Um saiote cobria suas partes íntimas, seu corpo era forte e musculoso, de guerreiro.
Um sorriso arteiro estava presente em seus lábios, encarando Sancho.
-Saia da minha casa, você não é bem vindo!
Ele falava em alto e bom tom, diferente do que seria a voz de um garotinho.
Os olhos eram muito vermelhos e estavam fixos no gorducho português.
-Me dê a chance de sair daqui então!
Sancho encarava o pequeno homenzinho, era muita afronta da parte dele querer controlar toda a situação, ainda mais com o tamanho que tinha.
-Corra!
Curupira falou e voltou a desaparecer, gargalhando e deixando Sancho confuso novamente, que começou a correr alucinadamente pela floresta, tentando escapar das flechadas que o atrevido ser demoníaco lançava em sua direção.
Sentia as plantas baterem em seu rosto e espinhos lhe machucarem a pele. Estava sangrando e seu uniforme estava estraçalhado.
-SOCORRO!
Começara a berrar, atirando para cima, tentando chamar a atenção de alguém, qualquer pessoa que fosse, ao menos uma ajuda e uma chance de sair de lá com vida.
A floresta estava começando a pegar fogo, ele não sabia para onde ir.
Parou resfolegando, não conseguia conter o pavor e o medo que percorriam por seu sangue.
Fez o sinal da cruz, sabia que aquele era seu fim. Suas mãos agarraram a corrente presa no pescoço, beijando o pequeno crucifixo de ouro ali presente e em seguida foi atingido nas costas, caindo morto na mata.
A risada diabólica se espalhava pelos sete cantos, os invasores iriam pagar por terem adentrado em uma terra desconhecida.

***

Do outro lado da mata Pero Escolar se ajeitava ao lado de Antônio e Joaquim, tinham acabado de se alimentar com o cozido que Antônio trouxera, iriam relaxar um pouco, afinal que mal poderia fazer? Estavam vasculhando aquela floresta o dia inteiro, nada como um bom descanso para renovar as energias. Os olhos começavam a pesar e em poucos minutos eles estavam em sono profundo, longe de se quer imaginarem o que estava acontecendo naquela floresta.
Um ser com um grande cabelo desgrenhado e vermelho, de corpo esbelto, pele pintada igual onça, amarela com pintinhas pretas, olhos escondidos por um sombra, feita  boa parte da grande franja, deixando apenas dois pontinhos amarelos há vista que olhava fixamente para o grupo, se aproximando lentamente, andava de quatro como um animal selvagem, o nariz farejando o ar, tentando identificá-los.
Os seios delineados demonstravam ser uma mulher, pois caso contrário não seria possível tal identificação, visto que uma tanga cobria suas vergonhas.
A língua lambeu de leve os lábios de Pero Escolar, que se remexeu, ainda em sono profundo, fazendo o ser se afastar assustado.
A mão se encostou de leve na orelha de Joaquim, que incomodado deu um tapa na mesma, abrindo os olhos e se assustando com o ser que estava à sua frente, quase colado ao seu rosto, encarando-o.
Um berro desesperado foi dado por Joaquim, que se ergueu rapidamente, pegando em sua arma e atirando na direção do bicho que saiu saltando e berrando pela floresta.
-Homens levantem!
Joaquim gritava empurrando os colegas que assustados erguiam-se as pressas, se perguntando o que acontecera.
Começavam a correr na direção de onde o bicho tinha ido, a floresta estava em chamas, os troncos começavam a cair, dificultando a passagem deles.
-O que vamos fazer?
Antônio berrava, começando a sentir falta de ar, a visão estava ficando cada vez mais precária.
-Caipora só queria conhecer vocês, mas foram maus com Caipora, agora terão suas pagas.
Uma voz doce e em tom magoado saia em meio à árvores.
-Ali!
Joaquim apontou para a árvore onde o bicho estava empoleirado e atirou, mas o ser já tinha desaparecido, surgindo na árvore oposta.
-Aqui homens!
Pero atirou tentando acertar, novamente falhando, vendo a estranha mulher brotar na frente deles.
-Ai, ai, ai, eu só queria brincar, vocês são malvados, não merecem brincar com Caipora!
E ao falar isso ela saiu saltando, várias dela apareciam e desapareciam em diferentes lugares em questão de instantes, confundindo-os.
-Caipora pode ajudá-los a sair daqui se vocês forem bons com Caipora.
A voz ria maldosamente, atingindo-os pelas costas, fazendo com que se virassem, a encarando. Ela era completamente maravilhosa e atraente.
Por um segundo ela os observou calada, e então voltou a desaparecer gargalhando, os homens estavam  ficando loucos. Começaram a correr para longe do fogo, a voz de Caipora ria histericamente, eles não conseguiriam sair dali vivos.
Animais de diversas espécies começaram a aparecer e desaparecer na frente deles, emitindo ruídos apavorantes. Eles corriam alucinados, longe do fogo, e então viram uma imensa onça pintada parar na frente deles, arreganhou uma boca gigante de dentes muito afiados e rugiu alto, fazendo-os ficar petrificados de medo, e então ela saltou para cima de suas vítimas. Derrubando-as no chão e dilacerando seus corpos em questão de segundos. Aqueles não viveriam para contar história.

Jéssica Curto


quarta-feira, 26 de junho de 2013

Uma viagem inesquecível - A Grande Aventura - Capítulo 8 - Não mexa com quem está quieto

Os homens que permaneceram na praia agiam com tranquilidade, afinal não tiveram que enfrentar aquela misteriosa floresta. Alguns se sentavam na areia, saboreando o cheiro vindo do oceano que era magnífico. Aquele lugar encantador possuía algo capaz de hipnotizar a todos.
Bartolomeu olhava para o horizonte, as caravelas estavam calmas no mar e tudo parecia pacato, tão diferente de onde ele viera, uma terra tão distante e movimentada. Ele bocejou se espreguiçando gostosamente. Suspirou exausto, já que aquilo não teria muita novidade, poderia até tirar um cochilo se não fosse pelos outros homens ali tão próximos. Deu mais uma olhadela para o mar e viu uma cobra de escamas onduladas e vermelhas próximo à água. Perfeito! Aquilo seria o suficiente para lhe tirar do tédio.
Meteu a mão na espada e desceu-a com tudo na direção do rabo do bicho, que por muito pouco não foi acertado, fugindo às pressas.
Bartolomeu gargalhava vendo o desespero do animal.
—Ei! O que você está fazendo seu endiabrado?
Vicente vinha na direção do colega, com o olhar fixo no animal que rastejava em sua direção rapidamente.
—Veja só Vicente.
E falando isso baixou novamente a lâmina da espada, desta vez perto da cabeça, fazendo o animal desviar na direção da água, iria se afogar. O homem ria descontroladamente, conseguira tirar aquele tédio do momento.
—Hahaha, pobre ser insignificante Bartolomeu!
Vicente ria junto do companheiro, vendo a cobra se rastejar até sumir nas ondas, certamente estava morta.
—Pena que durou pouco, essa viagem está uma grande chatice e, se você quer saber a minha opinião, devíamos pegar essas naus e fugir, ganharíamos mais como piratas do que como servos do rei.
Barto falava em alto e bom som, chamando a atenção dos outros para si. Muitos concordavam com sua afirmação.
—Não blasfeme homem, se vossa majestade descobrir...
Vicente estava incrédulo com o que ouvia, adorava o rei e seu serviço, achava uma afronta àquela espécie de pensamento.
—E quem vai contar?
Bartolomeu ergueu sua espada na direção de Vicente, alguns homens começavam a incentivar a briga, sem notar em momento algum as ondas gigantescas que se formavam no mar.
Vicente era um homem leal à coroa, jamais apoiaria tais ideias.
—Ande, diga homem!
Bartolomeu insistia, provocando o defensor do rei e da monarquia.
Antes que Vicente pudesse dizer alguma coisa, uma boca gigante desceu na direção da cabeça de Bartolomeu, engolindo metade do corpo e puxando-o para o alto, mastigando e fazendo o restante escorregar para dentro.
Vicente estava boquiaberto, uma imensa cobra que tinha dois chifres na cabeça, de olhos gigantes cor de esmeralda e pele da cor do fogo acabara de mastigar seu amigo revoltado e se direcionava para os demais na praia.
—Bo... Bo... Boitatá!
Vicente gaguejava começando a correr, as pernas estavam completamente bambas e molhadas de urina, sem conseguir fazê-lo se locomover direito.
A enorme cobra abaixou a cabeça, se rastejando para mais próximo dos homens, abriu a boca e soltou labaredas de mais de dois metros de altura, atingindo à maioria ali presente.
Vicente pegou em sua arma, mirou no bicho e atirou, no segundo seguinte a calda da mesma bateu em sua mão, fazendo o revolver voar longe, indo parar no meio do oceano. Rapidamente Vicente se viu preso no ser que se enrolara nele, esmagando seus ossos lentamente. Balançando a cabeça, o Boitatá mirou nos sobreviventes que restavam. Os berros eram terríveis, os homens estavam sendo queimados vivos, a praia estava em chamas, a areia antes branca tornara-se preta como carvão. Se o inferno existia, estava presente ali naquele exato instante.

Jéssica Curto


terça-feira, 25 de junho de 2013

Uma viagem inesquecível - A Grande Aventura - Capítulo 7 - Terra misteriosa

Depois do último horrível acontecimento com as sereias tudo se aquietou, os homens voltaram às suas rotinas e Pero, mesmo tendo sede de aventura, não sabia se seria bom para todos que seu desejo se realizasse, já que não queria prejudicar ninguém por causa de seus caprichos, muito menos colocá-los em risco, sob qualquer circunstância. Por isso, tentou evitar ao máximo incomodar o capitão exigindo tarefas, o seu dever era escrever para o Rei e assim o faria. Precisava deixar de ser egoísta.
Isso o fazia ficar trancado no quarto a maior parte do tempo, completamente sozinho.
Estava olhando pela janela para aquele infinito oceano azul que se misturava com os céus e fazia tudo ser uma coisa só, já estavam há mais de um mês no mar e nada de surgir terra alguma, ele estava triste e desapontando e foi com esse pensamento que ouviu iniciar uma grande correria no corredor, pessoas berravam animadas, será que era algo de novo afinal? Teria ele dado tal sorte novamente para ter fantasias a relatar?
Ele não tinha culpa, a curiosidade aflorava em seu sangue, era de sua natureza querer descobrir sempre mais. Saiu do quarto, vendo os homens correndo em direção ao convés. Muitos se apoiavam para observar o mar, onde algas flutuavam de um lado a outro misturadas com rabo de asno, de folhas verdes, pontudas e compridas.
Mais a frente algumas aves sobrevoavam o céu, eram fura-buxos de cara cinza, um pássaro de cor marrom escura uniforme, com a face cinza, bico e pés pretos que se alimentava de peixes, lulas e crustáceos. Esses eram os maiores indícios de que havia terra próxima e todos estavam muito impacientes com essa novidade, finalmente estavam próximos da Índia!
Pero voltou depressa para seu quarto, tinha que escrever sobre aquilo e, principalmente, arrumar suas coisas para a grande excursão que faria naquele novo mundo. Imensa tal qual era sua felicidade e nervosismo, que teve de parar e respirar com calma por diversas vezes para não borrar o papel de tinta.
Horas mais tarde os homens já se preparavam caso de fato estivessem chegando para desembarcarem. Cabral estava há horas agarrado em sua lupa, os olhos fixos no horizonte, Pero andava de um lado para o outro esfregando as mãos vez em nunca, sentindo o corpo vibrar de felicidade. — Ahá! — o capitão-mor soltou um berro involuntário, fazendo todos ao redor pararem o que faziam e o encarar.
—O que estão olhando? Voltem aos seus trabalhos!
Ele abaixava a luneta, baforando de raiva de sua própria reação.
Todos voltaram aos seus afazeres imediatamente, completamente sem graça por terem sido pegos no flagra. Pero já estava colado na lateral do comandante, queria ele mesmo ter uma luneta para poder ver sozinho.
—Capitão... O que é? O que o senhor está vendo?
O garoto olhava ávido por novidades em direção ao homem, que saltou se dando conta do rapaz ali presente o tempo todo. Encrespou os lábios, completamente irritadiço.
—Veja você mesmo... Vai se chamar Monte Pascoal e esta terra que vês em frente, será a Terra da Vera Cruz, anote isto para Vossa Majestade exatamente como estou lhe dizendo. Tome!
E enfiando de muito mau gosto o objeto nas mãos de seu escrevente, saiu do recinto, uma vez que tinha de dar ordens para as outras naus seguirem naquela direção até o mais próximo possível e depois lançarem as canoas na água com seus homens. Desta forma, Pero ficou sozinho apreciando e decorando cada minúsculo pedaço daquela vista paradisíaca a fim de relatar tudo em sua carta posteriormente. Era uma grande e maravilhosa montanha, muito alta e redonda, repleta de frondosas árvores volumosas.
Não sabia se existiriam palavras suficientes para explicar aquela magnitude toda, talvez nem o mais bonito quadro pudesse retratar com maestria aquela paisagem dos deuses.
Naquela mesma noite, todos já se encontravam prontos para transpassar o mar pela manhã e estavam com os nervos a flor da pele. Era um misto de medo e curiosidade, afinal, ninguém sabia dizer o que os esperava naquela imensidão verde.
Pero mal pregara os olhos e logo nos primeiros raios de sol já estava de pé, pronto para zarpar. Por ele, ia nadando até a areia se preciso fosse para não ter de esperar nem mais um segundo aqueles homens lerdos se arrumarem. Não fosse pelo capitão mandá-lo se acalmar e o ameaçar de tirar suas funções, ele não sossegaria.
Depois de muitas expectativas eles finalmente adentraram as canoas e Pero insistiu em ajudar a remar com os demais homens. Quando se aproximaram o suficiente da areia branca viram que a vista era ainda mais linda de perto.
Pero saltou da canoa, encharcando as calças e o sapato, correu em direção a praia como um menino bobo, gargalhando alto, não acreditava no que via.
Cabral e os demais homens olhavam para ele completamente inconformados.
—Cale-se homem, está chamando atenção, não sabemos o que esta floresta nos esconde!
Cabral vociferava o reprimindo, vendo-o se calar frustradamente.
—Prestem atenção rapazes, vamos nos dividir, fiquem atentos e a qualquer sinal de movimento suspeito, atirem e corram!
Os homens balançavam a cabeça em concordância, apanhando suas armas e engatilhando-as.
—Prontos? Afonso, Sancho e Nicolau vão pela esquerda, Antônio, Joaquim e Pero Escolar pela direita, João e o nosso empolgado escrivão Pero vão comigo pelo meio da mata e o resto fica aqui na praia de guarda. Ao sinal de qualquer problema, deem dois tiros pro alto que viremos correndo, e homens... — Ele via os rostos amedrontados de todos — Tomem cuidado.
Ao falar isso todos saíram para as suas devidas direções.
Pero estava feliz, aquela era finalmente sua chance de escrever uma aventura de verdade. Conforme eles adentravam a mata o mistério e a tensão aumentavam em torno deles, visto que movimentações suspeitas e sombras de seres estranhos e diferentes estavam começando a deixá-los assustados, principalmente a João, que era um negro escravo e forte, contudo era medroso e não parava de olhar para os lados completamente apavorado com qualquer barulho diferente.
Embora estivesse achando aquelas matas maravilhosas, cheias de plantas diversificadas e com uma coloração tão bela, Pero se mantinha hesitante, os olhos bem abertos e atentos, sua mão apertava firme o cabo da arma, seus passos eram leves, em busca de não emitir qualquer ruído no chão folhoso. Já o capitão se mostrava confiante e, com a mão em sua espada, passava cortando a mata alta, sem aparentar medo de nada.
Assim, eles adentravam em um novo mundo repleto de mistérios inimagináveis.

Jéssica Curto


segunda-feira, 24 de junho de 2013

Uma viagem inesquecível - A Grande Aventura - Capítulo 6 - Divindade perigosa

Pero acordara animado no dia seguinte, esperando que mais novidades viessem a aparecer para que ele pudesse relatar, mas sua alegria durou pouco. Os dias seguintes que se passaram foram monótonos e sem novidades, o mar estava calmo e não dava sinal de haver terras por perto. Ele já estava completamente desapontado, esperava que aquela viagem fosse uma verdadeira aventura, ele ouvia tantas histórias fenomenais dos marinheiros e, no entanto, parecia ser tudo falácia.
Estava sentado na proa de frente para o mar, na ponta mais alta do barco. Reservara-lhe o direito de possuir aquele lugar como seu para admirar aquela imensidão azul e pacata.
Já era noite, o céu estava repleto de estrelas e a lua estava amarela e imensa, linda de se admirar, ele se detinha a imaginar o que seu velho pai estaria fazendo, como as pessoas do vilarejo estariam naquele exato momento, se sua doce Isabel ainda o amava, se ainda estava esperando-o, se não se apaixonara por nenhum jovem rico e bonito, quando se deparou com uma leve movimentação na água.
Devia ser o sono, ele bocejou, balançando a cabeça e afugentando as ideias, iria para a cama, ganhava mais indo dormir do que ficar ali mirabolando besteiras.
Se levantou decidido a não pensar em mais nada, quando viu novamente a água se agitar, criando pequenas ondinhas que terminavam batendo na lateral da caravela.
Ele se debruçou, tentando enxergar alguma coisa, nada. Estava ficando realmente louco. De repente viu a calda de um peixe brilhante e colorido se debater e sumir nas profundezas escuras do mar.
Ele olhou para os lados, precisava de uma segunda opinião. Viu um homem magricela de rosto encardido e roupas sujas a andar com um balde em mãos.
—Hey, você! Venha cá!
Ele berrou para o mancebo, que voltou os olhos na direção dele.
—Eu?
Falou baixo e confuso para Pero, olhando para os cantos à procura de mais alguém.
—É, você mesmo, veja isso!
O jovem se aproximou, colocando o balde no chão e se apoiando na borda junto a Pero, não sabendo ao certo o que deveria olhar.
—Ali, veja, o que é aquilo?
Ele disse, apontando para a água que estava com pequenas ondas e levemente brilhante. Quando um peixe imenso saltou da água, fazendo uma curva no céu e caindo no mar, voltando a nadar, se afastando do navio.
Os olhos de ambos seguiram o grande deslocamento. Uma voz doce, carinhosa e gentil começou a embrenhar-se em seus ouvidos.

Venha, meu amor,
quero você aqui ao meu lado.
Busco apenas a felicidade,
o marujo encantar.

Pero não acreditava no que estava vendo. Era Isabel, e estava linda! De cabelos molhados e soltos, olhava para ele com um sorriso encantador e chamativo.
Queria ir até ela a qualquer custo, mas como ela fora parar ali? Não importava, iria agarrá-la, queria possuí-la naquele instante.
Ela se aproximou lentamente, prendendo seus olhos aos dele, deu um salto e se apoiou na borda da caravela, uma das mãos acariciou o rosto de Pero, fazendo-o ir de encontro ao dela, ele não estava acreditando.
O corpo já estava prestes a cair no mar, sua voz era tão suave e atraente.

É lua cheia, se aproxime,
se alegre marinheiro,
venho aqui para buscar-lhe
quero ver o seu sorriso,
se deixe hipnotizar.

Foi quando ele percebeu que havia algo de errado, os olhos de Isabel ficaram completamente negros e a boca se escancarou num sorriso demoníaco e de lá saiu um berro profundo, as garras dela tentavam a todo custo segurá-lo e arranhar sua pele. Ele se assustou e empurrou o ser diabólico, jogando o corpo para trás, se afastando daquele horror, o coração batia forte no peito, estava apavorado.
Olhou em volta, muitos homens se debruçavam no parapeito, ficando hipnotizados, envolvidos por seres monstruosos.
Eram bichos horríveis de rosto fino, pele pálida e escamosa, os cabelos pareciam algas compridas e amarelas, nariz largo e curto, de bocas com dentes semelhantes à espinhas de peixe e língua áspera, as orelhas lembravam guelras, possuíam grandes e atraentes seios, da cintura para baixo via-se uma grande barbatana colorida, como a cauda dos peixes.
O que eram aquelas coisas afinal?
—Sereias!
Ouviu uma voz berrar respondendo seus pensamentos e logo em seguida um tiro alto ruborizou o local seguido por um grito aterrorizante, acertando um daqueles monstros que caiam no mar, soltando um dos homens que voltava em si.
Era Cabral quem segurava uma pistola em mãos, mirando já em outro ser monstruoso.
O alvoroço foi imenso, homens caiam ao mar desesperados, sendo devorados e estraçalhados, outros tentavam combater e matar com o que tivessem em mãos.
—Levantar âncora, icem as velas! Rápido, o que estão esperando homens?
Cabral berrava, vendo as outras caravelas também alucinadas, tentando combater e matar os demônios.
—Vamos sair daqui! Pero, atire! Ajude-me, ande!
E ao falar isso Cabral se dirigiu para o Timão do navio, para dirigir o mais rápido possível para longe dali. Pero pegou a pistola que carregava na cintura, mirou em um dos monstrengos e atirou, fazendo o bicho cair na água.
—Malditas sereias!
Ouvia alguns homens se juntarem a ele naquela árdua tarefa, berrando blasfêmias incansavelmente.
As traiçoeiras possuíam tridentes que agarravam na carne dos homens e os içavam para o mar, afogando-os sem chance de sobrevivência.
Algumas naus já se afastavam, deixando para trás aquele horror e os pobres que sofreriam as consequências do abandono. Cabral berrava ordens enquanto tentava tirá-los também daquele tenebroso local.
Depois de uma quantia significativa de mortes, finalmente eles se viram distantes o bastante para não serem mais perseguidos por aquelas assombrações. Todos estavam exaustos e respiravam com certa dificuldade, o suor pingava de suas testas e o chão estava empoçado de sangue.
—Capitão, a nau Vasco de Ataíde ainda está lá, senhor!
Pero olhava para a caravela que pegava fogo, os tiroteios eram incansáveis e os berros maiores ainda, os corpos estavam sendo dilacerados e estraçalhados.
—Não podemos fazer nada, se voltarmos seremos devorados.
Cabral respondeu exausto. Ninguém conseguia desviar os olhos daquele terror, os homens estavam sendo comidos vivos por aqueles monstros que fingiam ser tão belos e chamativos e ninguém iria ajudá-los a se salvar. O capitão-mor manteve a rota para longe dali, seguido por todos os outros navios sobreviventes.
Horas depois os homens já estavam mais calmos, limpando a grande bagunça que se tornou aquele barco e Pero foi tirar satisfação com Cabral, afinal, precisaria saber como relatar aquilo para a carta do Rei. Bateu de leve na porta da sala dele, vendo-o sentado silencioso na cadeira, estava pensativo olhando para os mapas espalhados pela mesa.
—Com licença senhor... Mas preciso saber como...
—Eu sei o que você veio fazer aqui, e já vou lhe dizer. Você dirá que a nau se perdeu, não dará mais detalhe algum, dirá que ela simplesmente desapareceu, fomos procurar e não encontramos qualquer vestígio se quer, você entendeu?
Cabral falava em um tom firme, as sobrancelhas vincadas e sérias, o rosto carrancudo e fechado ainda mirando o mapa à sua frente.
—Mas senhor...
Pero não entendia porque aquilo haveria de ser escondido de vossa majestade.
—Nada de mas, faça o que estou mandando ou jogo-lhe para fora deste navio!
Ele berrou esmurrando a mesa à frente, erguendo o rosto para o jovem que assustado se calava, apenas o encarando.
O papagaio que estava dormindo no poleiro acordara apavorado, com os olhos arregalados e logo começou a piar incansavelmente.
—Abandonar navio, abandonar navio! Ah! Ah!
Cabral olhou para o pássaro completamente indignado, suspirou profundamente, passando a mão pelo rosto, voltando a se tranquilizar.
—Olha Pero, eu sei que as suas intenções são as melhores, mas preciso que confie em mim... Por favor, faça o que estou lhe dizendo.
Pero apenas balançou a cabeça em concordância.
—Senhor... Posso lhe perguntar uma coisa, se não for ousadia de minha parte?
O menino falava cabisbaixo, o rosto apreensivo.
—Claro o que é?
Cabral se ajeitava na cadeira, cruzando as mãos em frente à barriga.
—Essas sereias... Senhor, eu não entendo... Eu vi a minha... Hum... Uma pessoa muito querida na minha vida.
O rosto de Pero estava começando a esquentar, ele sentia seu coração acelerando incontrolavelmente.
—Sim... Sereias Pero, se mostram como aquilo que mais desejamos e mais amamos na vida, porém tudo não passa de uma emboscada, na verdade elas são seres monstruosos e horríveis que afogam os corpos dos marinheiros e devoram a carne humana, são demônios amaldiçoados por Deus, nem peixe nem homem. Sua sina é sempre se mostrar bela e formosa, mas na realidade ser abominável e medonha. O que você viu foi apenas uma miragem, seja lá o que tenha sido, esqueça isso, filho.
O menino balançou a cabeça em afirmação lentamente, se voltando para a porta, quando parou e se virou novamente por um instante, os olhos concentrados em Cabral.
—Senhor... Por que o senhor não se encantou? Por que não caiu na armadilha?
Cabral abriu um leve sorriso que Pero não soube distinguir se era de felicidade ou de tristeza, ou um misto de ambos.
—Porque o que eu mais amo, meu jovem, há muito deixou de existir.
Pero engoliu em seco, não sabia se preferia ter ficado calado a receber aquele tipo de resposta. Pigarreou.
—Boa noite senhor.
—Boa noite Pero, durma bem rapaz.
Cabral viu o jovem sair pela porta e se ateve aos mapas novamente.
Pero estava louco para relatar todos aqueles acontecimentos, seria afinal um desperdício não fazê-lo e por mais que tivesse recebido ordens claras para não registrar aquela verdadeira aventura, ele o faria, nem que fosse para guardar para si. Depois, se preciso fosse, passaria a limpo a carta para Vossa Alteza, mas não se desculparia se não descrevesse cada detalhe daquele dia tão único e tão assombroso.

Jéssica Curto


domingo, 23 de junho de 2013

Uma viagem inesquecível - A Grande Aventura - Capítulo 5 - A viagem

Já haviam se passado alguns poucos dias desde a partida de Lisboa e embora os homens estivessem trabalhando muito para sequer pensarem sobre este fato, não era a situação de nosso Pero, que não tinha motivos para escrever coisa alguma e que estava começando a se entediar, visto que não lhe deixavam fazer nada por não fazer parte de sua função.
Iria pedir outra tarefa ao capitão, momentânea que fosse, pois já estava se desesperando por não fazer nada, quando observou que estavam passando em frente à Gran Canária, na Espanha. Pero pôs a relatar a beleza que era à vista daquele local, que possuía um imenso e magnífico vulcão, uma paisagem para se admirar por horas a fio sem se cansar.
Ele sentiu um desejo avassalador de ser um pintor experiente, o dia estava lindo e perfeito o suficiente para fazer de um quadro um prêmio inestimável, mas infelizmente nem ele nem ninguém a bordo tinha essa proeza.
Aquilo foi suficiente para animá-lo um pouco, pois embora o relato fosse simples, apenas constatando a existência da passagem na viagem, já era algo e lhe dava esperança suficiente para acreditar que logo teria mais o que escrever.
E de fato não se enganou, estava distraído quando de repente viu uma pequena quantidade de montanhas com uma coloração marrom fortemente presente que não soube reconhecer, poucas eram as árvores existentes ali.
Olhou para os lados e viu um homem de barba e cabelos loiros e lisos, que usava roupas inteiramente brancas, era o piloto Pero Escolar que passava. Provavelmente se chamava Pedro também e tivera a mesma conversa que ele veio a ter com o capitão, que pelo jeito gostava de ser o único dono do nome.
—Com licença, o senhor poderia me dizer que montanhas são aquela lá ao longe?
Nosso Pero perguntou ao tal Escolar, que pegando uma luneta dourada e brilhante pôs-se a analisar minuciosamente a serra.
—E então?
Pero não conseguia sustentar sua curiosidade dentro de si, queria escrever e o homem apenas balançava a luneta de um canto à outro, observando.
—É a ilha de São Nicolau meu jovem, estamos passando por Cabo Verde.
E ao falar isso, guardou sua luneta e saiu de lá, deixando o rapaz que olhava completamente encantado para o local como se nunca tivesse visto coisa mais bonita. Eram apenas montanhas, mas para olhos que nunca viram nada além do pequeno vilarejo em que morava, era o paraíso.
E assim ficou por um longo tempo.
—É lindo, não é?
Pero sentiu uma voz grossa e imponente invadir-lhe a mente e lhe tirar daquela veneração pelo local, era Cabral que se prostrava ao seu lado, admirando também a vista. Pensou em se recompor, pois estava curvado preguiçosamente na borda da amurada, as mãos jogadas para fora, relaxadas, o cabelo bagunçado com o vento, mas viu o capitão fazer um leve movimento com a cabeça, mostrando a falta de necessidade de se arrumar, ficando ele mesmo desleixado, largando o corpo e suspirando.
—Sim senhor, é uma vista muito bela.
Respondeu Pero, voltando os olhos para a paisagem à frente, e ficaram assim, pensando na vida em silêncio.
Na mente de Pero apenas passava a vontade de ter sua querida Isabel junto dele naquele instante tão mágico, na de Cabral, quem poderia dizer? E passando isso pela cabeça, o jovem não conseguiu evitar olhar para o capitão, que mantinha seu olhar distante, longe de tudo aquilo, como no quadro em que vira dentro de sua cabine no primeiro dia de viagem.
—O que...?
Depois de alguns instantes, Cabral enfim se tocara que estava sendo observado, os olhos sérios e irritados se voltaram para o rapaz que apenas sorriu e balançou a cabeça negativamente, saindo de lá e se direcionando para seu quarto, precisava registrar aquele momento antes que ele se esvaísse, deixando o capitão com sua viagem além mar.

Jéssica Curto



sábado, 22 de junho de 2013

Uma viagem inesquecível - A Grande Aventura - Capítulo 4 - O diário

Pero sentou-se na grande cadeira de madeira maciça que se encontrava em frente à escrivaninha, abriu seu pequeno caderno de anotações, — nunca pensara que ele lhe seria tão útil — molhou a pena que estava ao lado do tinteiro na mesa e pôs-se a escrever, iria relatar os mínimos detalhes daquela viagem.

09 de março de 1500 – Primeiro dia

Posto-me diante deste papel para contar-lhe o que se passa dentro dessa frota à caminho da Índia em busca de especiarias preciosas. Não sei como as pessoas de lá vão reagir à nossa chegada, mas torço para que sejam receptivos e estejam dispostos a contribuir com o desejo de vossa majestade.
Nosso capitão-mor, o senhor Pedro Álvares Cabral encaminhou-me para tal função e pretendo desempenhá-lo o melhor possível, além do que, assim podemos ter um controle de dias passados sem nos perdermos na loucura desta imensidão azul e, embora tenhamos deixado o porto há pouco mais de uma hora, já sinto saudades de casa e de minha doce Isabel.  Fico me perguntando o que dissera para sua mãe para conseguir ir se despedir de mim, ela parecia tão chorosa, espero que esteja bem. Quero voltar logo para poder dar-lhe a vida que merece longe daquela bruxa a qual ela chama de mãe.
Sinto-me tão feliz pelos últimos acontecimentos que chego a ter medo de que seja tudo um grande sonho.
Nesta segunda-feira maravilhosa, o sol está forte e não aparenta chover, são poucas às nuvens presentes no céu e estão todas claras, o que provavelmente vai facilitar nossa jornada se continuar assim. Temos um total de mil e quinhentos homens à bordo divididos em treze navios e tudo indica que nosso objetivo tem uma probabilidade imensa de dar certo e, sinceramente, estou confiante que dará.
Os homens lá fora já começam seus afazeres, cada qual em suas respectivas funções conforme lhes foi imposto pelo imediato e, embora não tenha muito que dizer, achei coerente relatar que já partimos de Lisboa. Não sei quando voltaremos, bem como o que nos espera pela frente e o que encontraremos, a ansiedade aflora em meu sangue e acredito que muitos estão com medo do desconhecido, contudo estamos dispostos a enfrentar todos os mistérios que o mar guarda para seus navegantes em nome do Rei.
Deixo aqui meu pequeno relato, que Deus nos proteja.

Jéssica Curto


sexta-feira, 21 de junho de 2013

Uma viagem inesquecível - A Grande Aventura - Capítulo 3 - A mudança

—Bem vindos à bordo tripulantes, vocês estão prestes a adquirir experiências totalmente únicas, mas antes, nosso capitão-mor, o senhor Pedro Álvares Cabral gostaria de dizer-lhes algumas palavras.
O homem que estivera na praça na noite anterior falava em cima da proa, estava bem vestido como antes, mas agora seu uniforme era vermelho como os demais oficiais do Rei. Todos os homens em baixo olhavam para a proa atentamente, ansiosos para finalmente conhecerem o tão famoso capitão.
Um homem de pele alva com uma mediana barba negra, usando um grande casaco vinho de panos grossos apareceu no alto da proa, o rosto sério observando sua tripulação. Foram longos minutos de silêncio e análise tanto dos tripulantes para com o capitão-mor quanto dele para com os outros, até que finalmente se pôs a falar, com uma voz forte, que demonstrava autoridade e poder.
—Bem vindos tripulantes, à maior viagem de suas vidas! Não pensem vocês que será fácil, enfrentaremos muitos desafios e precisaremos de muita garra e força de vontade, por tanto, vamos nos dedicar para que esta jornada traga os melhores resultados possíveis e que seja uma experiência inesquecível!
Pedro observava o capitão-mor dando seu discurso que continha as instruções de como eles deveriam se comportar e era como se tudo fosse um grande sonho, ele não conseguia acreditar que estava no meio do mar cercado por homens estranhos, seguindo rumo a um mundo novo por mares desconhecidos, tortuosos e desafiadores.
—Quem aqui tem uma boa experiência com escrita?
Cabral encarou os tripulantes que ficaram calados, a maioria mal sabia ler, quem dirá escrever bem. Pedro ergueu a mão, o sorriso o sorriso imenso nos lábios. O serviço de seu pai e as horas ajudando-o em seus empreendimentos ultramarinhos serviriam para alguma coisa, afinal!
—Você meu jovem, venha cá!
Cabral apontava para Pedro, fazendo todos os rostos ali presentes voltaram-se para o menino de cabelos lisos e negros, usando um pequeno chapéu marrom na cabeça, de finos bigodes e um corpo forte, de ombros largos. Um pouco corado, ele se direcionou para a proa.
—O nosso primeiro imediato Antônio determinará a função de cada um de vocês, qualquer problema consulte-o.
O anunciante da noite passada voltava a falar, descendo as escadas e organizando as pessoas em suas devidas funções, enquanto Cabral saia com Pedro para dentro de sua cabine, um local com diversas janelas nas laterais, o que tornava o ambiente muito bem arejado e iluminado. O cômodo era genuinamente decorado com uma mesa de madeira marrom escura com duas gavetas em cada lateral e uma mais comprida ao centro estando encostada no fim da sala, tendo em cima diversos objetos curiosos, entre eles uma caravela em miniatura idêntica a que eles se encontravam neste instante e uma grande fileira de bonequinhos militares de chumbo, pintados com o uniforme oficial de Portugal. Ao lado, um pouco mais a frente, havia uma grande mesa com um globo branco no meio, e uma parede lateral coberta por diversos mapas diferentes.
Na parede oposta alguns quadros com paisagens bonitas, entre eles, o maior, no centro de todos, com uma moldura trabalhada estava a de Cabral, usando um chapéu de veludo azul com detalhes dourados. A barba cacheada e castanha estava muito bem feita, a expressão séria, com os olhos direcionados para além do quadro, não o encarando, e sim em uma posição lateral. No retrato, a roupa era feita igualmente de veludo azul com detalhes em dourado e vermelho. Uma espada repousava em sua bainha, presa na cintura de Cabral e ao fundo um mar resplandecente com uma pequena torre posicionada em sua direita e montanhas ao fundo. O céu de um tom azul, dando a impressão de que já anoitecia.
Em um poleiro ao lado do quadro se encontrava um papagaio silencioso de olhos atentos, de lindas penas cinza com detalhes em vermelho nas pontas da calda.
—Este é o Loro, meu grande companheiro, uma beleza, não?
Cabral olhava para o bicho por uns instantes.
—Sim senhor, é muito lindo!
Pedro se voltava para o capitão, ignorando o animal que o encarava avidamente. Cabral aproximou-se de uma mesa onde se encontravam algumas bebidas e pegando duas pequenas taças encheu-as com um líquido de uma coloração vermelha, entregando uma para Pedro e bebericando a outra.
—Então, você é bom em escrever?
Cabral agora se atentava nos mínimos detalhes das expressões do jovem, observando-o minuciosamente. Pedro se sentia desconfortável com a situação, pegou o pequeno cálice, mas não o levou a boca.
—Sim senhor, meu pai é escrivão, tenho o costume de ajudá-lo com suas execuções ultramarinhas.
Cabral ergueu as sobrancelhas revelando sua admiração. Era difícil encontrar pessoas dedicadas à escrita que não fossem da corte real. Deu mais um gole, saboreando o líquido.
—Pois bem, então o senhor irá escrever nossa viagem passo a passo para Vossa Majestade. Por sinal, a bebida está uma delicia, é vinho, o melhor que dispomos aqui, beba, vai gostar.
Pedro arregalou os olhos, não imaginava que teria tal missão, por muito menos sonhou em ser apenas mais um tripulante, quem sabe um dia um oficial, mas nunca o mensageiro que teria de relatar ao Rei o que se passava. Sentiu a garganta seca e bebericou o vinho, era realmente delicioso. Terminou-o em um gole sentindo sua garganta pegar fogo e as bochechas queimarem.
—Está bem para você, meu jovem?
Cabral via o rapaz embasbacado e esperava uma reação mais altiva de sua parte além de terminar o vinho sem saboreá-lo como Cabral considerava ser o correto.
—Si-sim claro, senhor.
A sorte realmente deveria estar sorrindo para ele, não podia ser mais perfeito.
—Pode ir agora.
Cabral retirou a taça das mãos de Pedro, vendo o menino fazer uma leve reverência e andar em direção a porta lentamente.
—Ah por sinal...
Cabral falou rapidamente, fazendo o rapaz se voltar para ele.
—Sim?
Disse Pedro, não conseguindo conter o sorriso e a felicidade.
—Qual o seu nome, meu jovem?
Cabral sorria de volta, simpaticamente.
—Pedro, senhor, Pedro Vaz de Caminha.
Pedro falou em um tom calmo, mas por um instante sentiu um frio no estômago, o homem fechara a cara, completamente sério, toda a simpatia dantes sumira no segundo seguinte.
—EU sou Pedro... Capitão-mor Pedro Álvares Cabral, você... Pero, ou se preferir, qualquer outro nome, estamos entendidos?
Ele erguia uma sobrancelha, falando com ar imponente, esperando a reação do garoto que apenas fez um leve sim com a cabeça. O papagaio soltou um pequeno berro.
—Está bem, agora vá!
Pedro olhou de soslaio para o bicho que agora ficava de ponta cabeça no poleiro e então se voltou para a porta, saindo da sala, completamente embasbacado, tinha a melhor função que poderia imaginar, mas teria que abandonar seu tão precioso nome. Bom, mas seria por um curto período de tempo, não tinha importância, um d a mais ou a menos não faria muita diferença.
Assim, a partir de hoje ele passa a ser Pero, para não haver confusão entre ele e o capitão-mor Pedro, e para não enaltecer também a fúria do mesmo de querer ser o exclusivo dono do nome.
O imediato Antônio o direcionou até seus aposentos e, diferente dos outros que dormiam juntos e amontoados, Pedro, ou melhor, nosso mais novo Pero Vaz de Caminha tinha seu quarto separado, particular, com uma confortável e grande cama e uma boa escrivaninha para relatar os acontecimentos existentes ali.

Jéssica Curto


quinta-feira, 20 de junho de 2013

Uma viagem inesquecível - A Grande Aventura - Capítulo 2 - A embarcação

A noite fora longa, depois que todos registraram suas assinaturas a festa finalmente começou, com muita dança e cantoria, mas como a maioria ali presente tinha que arrumar seus objetos para a viagem do dia seguinte e se despedirem de seus entes queridos, tudo foi finalizado mais cedo do que o pretendido.
Pedro estava ansioso, levantara aquela manhã com uma animação raramente vista, vestira sua melhor roupa, se despediu de seu querido pai e partiu em direção à praça com uma pequena maleta contendo tudo o que acreditava ser essencial, inclusive seu pequeno caderninho de anotações.
O sol despontava no horizonte e a praça estava abarrotada de homens quando a Armada do Rei chegou. As caravelas já estavam prontas para a grande viagem. Eram completamente maravilhosas, de madeira escura com detalhes claros e imensos mastros, de velas triangulares que possuíam uma grande cruz vermelha desenhada em cada uma.
A bandeira real de Portugal estava estendida no topo da popa e no topo do mastro, a parte mais alta da nau, colocada estrategicamente para a visualização de todos.
Muitos tripulantes, assim como vários familiares, se encontravam chorosos já sentindo saudades daqueles que estavam prestes a partir, mas Pedro não, ele estava cada vez mais animado, os olhos vidrados com a presença tão próxima da realização de seu sonho. Sua euforia era crescente.
—O senhor está muito formoso esta manhã, seu Pedro.
A voz suave e doce adentrou seu ouvido, fazendo seu coração disparar. Virou rapidamente seu rosto e lá estava Ela. Isabel fora se despedir afinal. O rosto não estava sorridente como na noite passada, os olhos estavam levemente inchados e o nariz despontava uma coloração avermelhada, no entanto ela continuava linda, sempre seria maravilhosa para Pedro.
—Dona Isabel, que prazer em vê-la! Já lhe disse, me chame apenas de Pedro! O que a trás aqui?
Ele estava feliz em vê-la e ao mesmo tempo extremamente triste, não esperava ter de se despedir dela, era muito duro pensar no fato de deixá-la para trás, não podendo ter a plena certeza de que estaria bem, de que sua mãe bruxa e cruel não iria influenciá-la para que escolhesse um partido endinheirado, mas faria aquela viagem por ela, no intuito de conquistar um bom lugar na sociedade e poder então casar sem fazê-la passar vergonha ou qualquer necessidade.
Ela revirava os olhos com a insistência dele de fazê-la chamá-lo apenas pelo nome.
—Vim me despedir de você Pedro, é claro! E por favor, me chame de Isabel.
Ela abria um sorriso tímido no canto dos lábios, um tanto quanto sem graça.
Um apito foi ouvido e um homem berrou para que as pessoas embarcassem logo.
—Bom... É muita consideração sua, espero que a senhora sua mãe não se aborreça.
Ele olhou de esgoela para o homem que sinalizava com um sino estridente para os outros adentrarem rapidamente nas caravelas, o que significava que seu tempo estava se encurtando cada vez mais e ele não sabia o que fazer, não queria deixá-la sem ao menos ter a certeza de que o estaria esperando voltar.
—Não, não se preocupe, ela não tem nada haver com isso.
Ele engoliu em seco, a moça parecia decidida em não ligar para o que a mãe pensaria daquele ato, o que o preocupava, não queria prejudicá-la e não se perdoaria se ela fosse castigada por sua causa.
—Dona Isabel...
A voz de Pedro falhara, os olhos dela estavam fixos no rosto dele, esperando-o falar.
—Sim?
Ela parecia ansiosa para ouvi-lo, como se esperasse por algo.
Pedro pigarreou, estava nervoso, sentia a ponta das orelhas queimarem.
—Hum... A senhorita... Hum...
Ele não sabia como dizer isso, um nó se formava em seu estômago.
—ÚLTIMA CHAMADA!  PARTIREMOS EM CINCO MINUTOS!
O homem gritava anunciando a aproximação da viagem e a falta de tempo que Pedro estava tendo para tentar explicar para Isabel tudo o que se passava em seu coração, ainda mais porque não estava em seus planos fazer nada daquilo, achou que iria chegar na praça naquela manhã, embarcar e que seria fácil esquecer daquela vida por hora, mas com ela ali, na sua frente, tudo mudava de perspectiva. Finalmente a ficha tinha caído e ele não sabia se conseguiria concluir seu desejo.
Vendo a dificuldade que ele estava tendo, ela ergueu a mão direita, encostando levemente a ponta dos dedos em seus lábios. O odor e o calor daqueles dedos confortaram Pedro, aliviando-o um pouco da dor e da preocupação que sentia naquele momento de despedida.
—Não se preocupe... Estarei lhe esperando...
Ele abriu um sorriso maior do que todo o continente americano que iria encontrar dali algum tempo, pegou a deu um longo beijo nas costas da pequenina mão de Isabel. A moça também sorria feliz.
Logo em seguida ele saiu correndo em direção à caravela, olhando para trás e tropeçando nas pessoas, vendo sua querida Isabel enquanto se afastava.
—Eu voltarei, espere por mim meu amor! Eu te amo!
Ele falava alto e animado em meio à bagunça que se fazia no lugar, vendo-a estender e balançar um lencinho branco em meio a sorrisos chorosos. Teve quase certeza de que seus lábios disseram “Boa viagem meu amor!”. Não conseguia conter a felicidade que estava sentindo, as emoções estavam a mil. Subiu a bordo e viu pela última vez sua querida amada, agora adentraria em uma aventura sem volta, cheia de mistérios nunca antes vistos.

Jéssica Curto



terça-feira, 18 de junho de 2013

A respeito do que está acontecendo em São Paulo, a minha opinião.

O direito de manifestar-se é legítimo. O subsídio das passagens dá dinheiro demais para cooperativas fajutas, que põem poucos ônibus na rua. Mas a desvalorização do transporte público por parte da sociedade em geral não pode ser esquecida. Vejam, não há espaço para tantos carros! Chegamos a uma situação que exige diálogo e cessão de interesses. Está cada vez mais difícil viver num mundo particular e ficar indiferente aos problemas da cidade. O sistema viário elitizado existe e está dando mostras de saturação.

As manifestações reúnem milhares. E as massas formam um conjunto muito curioso: os indivíduos se transformam dentro dela. Os medrosos ganham voz, e se sentem imortais. Esse fator, aliada à falta de organização do movimento (visto que é de interesse de todos, então não dá pra ser muito "fechadinho" mesmo) resulta em algumas barbáries pelo centro da cidade. Pois bem: a barbárie é tola, mas estão esquecendo o mérito da reivindicação. A grande imprensa sabe que isso vai muito além da passagem, muito além da insatisfação com o transporte público. É uma insatisfação com um sistema que nos educa para consumir, mas é incompetente para criar as condições de fazê-lo. Os vinte centavos farão falta àqueles que moram longe, ganham pouco e na maior parte dos casos não podem comparecer aos protestos.

Indo um pouco mais longe, o que está acontecendo é o reflexo de uma sociedade cada vez mais caótica, em que intransigentes não querem ver seus privilégios em risco. A pancadaria em si está além das passagens, tem a ver com exclusão e falta de voz. Torço sinceramente para que esses grupos, se é que podemos chamá-los assim - afinal é o povo todo que está envolvido com a questão - espero que eles reajam de maneira semelhante quando tivermos o julgamento do mensalão e outros casos que exijam postura da sociedade.

Da mesma forma, seria justo um protesto contra essa copa do mundo aqui, onde multinacionais ganham horrores e vão embora depois, deixando estádios vazios e estradas cheias e esburacadas. Estádio não é investimento em infraestrutura para o trabalhador! Os empregos que gera são temporários! Os investidores, quando forem embora, vão deixar a gente que nem a Espanha. Vamos ver.

Por isso, acho que a manifestação da passagem é justa e tem causas mais profundas, que a mídia em geral não pode dizer. O vandalismo de alguns infelizmente está ofuscando uma causa de todos.

Rafael Cardoso

Uma viagem inesquecível - A Grande Aventura - Capítulo 1- A festa

Era fim de tarde e as pessoas andavam animadamente pelas ruas, pois tinha acabado de ser anunciado pelo Rei Dom Manuel I que ocorreria uma expedição à Índia em busca de especiarias valiosas e, por este motivo, precisariam de tripulantes capazes e dispostos a se arriscarem nessa aventura. Todos estavam ansiosos.
As preparações estavam corriqueiras, pois haveria uma imensa festa de despedida ao anoitecer para aqueles que decidiram apostar suas vidas nessa expedição. O medo era crescente, pois muitos iam e não voltavam, sendo engolidos pelo mar profundo.
As crianças corriam pela rua com seus novos brinquedos, marinheiros e navios de madeira, a sociedade estava vivendo uma sensação de felicidade e ao mesmo tempo de medo.
Pedro estava feliz com essa notícia, conseguiria afinal a grande oportunidade que tanto desejava, viver no mar era seu sonho desde pequeno e finalmente sua hora tinha chego. Seria uma vida nova e desconhecida, cheia de surpresas pela frente.
Ele se encaminhava em direção a grande praça central, onde pessoas acomodavam vários pratos típicos em cima de uma comprida mesa de madeira para a comemoração.
Tinha de tudo de mais gostoso que se pudesse imaginar: desde arroz doce, caldo verde, fios de ovos, até pasteis de bacalhau, cozido à portuguesa, entre outros quitutes maravilhosos. Ele sentia a boca salivar e se encher d'água, estava tudo muito bonito e ele não via a hora de começar a devorar até não aguentar mais. Não que fosse um esfomeado, mas tinha que admitir que não era todos os dias que surgia a oportunidade de fazer refeições glamorosa, sendo ele filho de um simples escrivão, e aquela seria a oportunidade para tirar a barriga da miséria, por assim dizer.
Aproximou-se de uma senhora rechonchuda de vestido florido com o cabelo preto e brilhoso preso em um coque apertado, que admirava os pratos silenciosamente.
—Boa tarde Dona Maria!
Ele sussurrou baixinho, próximo de seu ouvido, fazendo-a saltar de susto, se virando às pressas, completamente estabanada, encarava-o com ar de irritação, com as sobrancelhas franzidas e os lábios crispados.
—Boa tarde!
Falou rispidamente e voltou sua atenção para a mesa, ignorando-o por completo.
—Está tudo muito bonito, principalmente este prato — Disse apontando para uma travessa azul trabalhada em fios de ouro nas bordas, possuindo um conteúdo curioso de coloração esverdeada, prato no qual o olhar da mulher se encontrava fixo — Foi a senhora quem fez?
A mulher arregalou um sorriso de dentes amarelos e entrelaçando os dedos em frente a grande barriga, olhou para ele alegremente.
—Ora, pois foi sim, está uma beleza não está?
Ele gargalhou vendo a alegria espontânea da mulher. Dona Maria era assim, carrancudona, mas bastava dar-lhe um elogio e pronto! Já ficava toda feliz da vida.
Ela apertou as bochechas dele fortemente, entusiasmada com o que acabara de ouvir, alguém reconhecera seu trabalho afinal.
—Está sim senhora, meus parabéns!
Ele massageava as bochechas que agora estavam doloridas e vermelhas.
—Maria, onde você está mulher?
Roupas vermelhas e justas, que agora abaixava uma corneta.
—Cidadãos, eu trago um anúncio do Rei!
O homem em cima do cavalo negro falava em um tom alto e imponente.
—Vossa majestade convoca homens corajosos para representarem-no em uma expedição às índias, e os que desejarem ter esta grande HONRA... — O homem parou de falar por um breve instante, dando ênfase à palavra. — Devem se apresentar imediatamente! O oficial Joaquim estará recebendo as assinaturas, então poderão fazer suas... — Os olhos dele passaram brevemente por todo o local, observando as mesas fartas de alimentos. — comemorações — Voltou a falar, se focando nas pessoas —Lembrando que é primordial que todos os alistados estejam presentes amanhã aqui para embarcarem às seis da manhã em ponto!
O homem deu meia volta com o cavalo e saiu galopando para longe, seguido pelos homens que estavam montados em cima dos cavalos brancos, deixando para trás o dono da corneta que já descia de seu cavalo e desenrolava um pergaminho se direcionando para uma mesa.
—Atenção! Façam uma fila para assinarem este pergaminho.
Disse o oficial Joaquim, criando um pequeno aglomerado de homens em torno de si, fazendo-o desaparecer em meio aquela multidão. Pedro olhou para Isabel que se mantinha calada e séria, assim como para a baronesa que escancarava um sorriso de escárnio.
—Senhoras, se me derem licença!
E fazendo uma leve reverência com a cabeça, foi na direção de onde se encontrava a imensa fila de homens.

Jéssica Curto



segunda-feira, 17 de junho de 2013

Morrendo para estar vivo - Capítulo 9 Rumo

Joana pediu demissão no mesmo dia mais tarde, estava farta de pessoas cruéis em sua vida, mudaria tudo!
Começou indo conhecer a tal vinte e cinco de Março e para a sua sorte, encontrou um cômodo e cozinha para alugar por um valor que ela podia bancar, é claro que o lugar era terrível e as condições eram precárias, mas ela já passara por tanta coisa que agora queria ter seu canto sozinha e batalhar por uma vida melhor.
Arrumou um trabalho de balconista em uma loja de vestimentas masculinas e ganharia devido a sua comissão, e a danada vendia, fosse pela sua simpatia ou porque seu corpo escultural chamava a atenção dos homens, o que importava é que a cada mês conseguia um pouco mais de dinheiro, assim, em um ano ela já tinha juntado o suficiente pra poder se mudar para um lugar mais apropriado, uma pequena casinha de quarto, sala e cozinha, ainda simples, porém em um lugar mais descente.
Era uma menina batalhadora e esforçada, voltou a estudar e concluiu o ensino médio, mas não pense que ela esqueceu uma vez se quer de sua querida amiga Maria Antonieta, ela ainda voltaria para buscá-la, tarde demais infelizmente, a garota já não pertencia mais a este mundo, mas para a sua felicidade descobriu que a velha que tanto desgraçou a sua vida, fora presa em exílio depois de uma denúncia dos vizinhos que escutavam diversas vezes as crianças berrando, uma investigação aprofundada foi feita e se confirmou o quanto ela era cruel. O que ocorreu depois, ninguém sabe.
A vida seguiu seu rumo e uma garota pobre, que foi deixada em uma lata de lixo em uma noite qualquer sem saber o motivo do abandono, sofrendo nas garras de uma bruxa que abusava das crianças para conseguir prestígios para si, lutou para chegar a algum lugar, e isso era o mais importante, a vontade de viver não permitia abandonar seus sonhos jamais.
Com vinte e oito anos ela conheceu Celso, um belo jovem de sorriso largo e cabelos bagunçados cor de caju, que também sofrera muito na família que vivia, tendo um pai alcoólatra e uma mãe drogada.
Começaram a se gostar e dessa pureza nasceram duas crianças lindas ao qual Joana sabia, custasse o quanto custasse, ela jamais os abandonaria, seus filhos teriam tudo o que ela e seu marido não puderam ter, a vida amarga ensinava, mas ela guardaria seus relatos para contar dali alguns anos, através de uma breve história que serviria de aviso e modelo para muitos, e quem sabe, fosse acolhedor para dar luz aqueles que estivessem na escuridão e mostrar que nada é impossível quando se tem vontade.
Assim, Joana seguiu seu rumo, com muitos altos e baixos, mas conseguiu enfim ser feliz!

Fim

Jéssica Curto


domingo, 16 de junho de 2013

Morrendo para estar vivo - Capítulo 8 Difícil mudança

Já fazia um mês que Joana estava na terra da garoa, aquela cidade imensa há espantava um pouco, havia gente em todos os lugares possíveis e imagináveis e a movimentação não parava nunca!
Ela conseguira um minúsculo quarto na casa onde estava trabalhando como doméstica, para o momento seria o ideal, tinha o que comer e onde dormir, era mais do que estava esperando, conseguira uma família muito simpática que a contratara, um casal de meia idade com um casal de gêmeos na adolescência, seu patrão era muito educado e parecia gostar muito dela, se sentia segura naquele lar e estava conseguindo guardar um dinheiro considerável, vendo-se que tinha apenas que comprar algumas roupas, o que não seria problema, pois ouvira falar de uma tal de vinte e cinco de Março onde vendia de tudo há preços bem em conta, estava ansiosa para ver onde era esse lugar tão generoso afinal.
A vida andava maravilhosamente bem, principalmente se comparada com o resto de sua existência.
Ela limpava a sala de estar e apesar do calor infernal que estava fazendo nos últimos dias, não se importava, pois lhe dava prazer ser útil para pessoas tão maravilhosas e em geral ela ficava sozinha o dia inteiro, o que a alegrava ainda mais, pois todos ficavam fora com suas vidas atribuladas, saindo pela manhã e voltando só no começo da noite, como ela não gostava de incomodar, fazia seu serviço com agilidade para poder se recolher antes deles chegarem.
O shorts curto e a blusa regata lhe aliviam todo aquele bafo, o som estava relativamente alto no bom e velho samba que ela tanto amava, a pele morena brilhava de suor, ela balançava o corpo ao som da música enquanto passava o pano nos móveis, tudo estava tão perfeito... Perfeito até demais.
Talvez a sua pureza a cegou demasiadamente, talvez o som alto, talvez... Fosse como fosse, ele a agarrou por trás, se esfregando enquanto tapava sua boca, sentindo a garota se retesar assustada.
 -Você não tem ideia do quanto eu amei esse seu corpo, mulata gostosa.
Os lábios dele sussurravam baixinhos, recostados na orelha dela que se debatia tentando se soltar.
-Pensou mesmo que iria se safar? Mas não se preocupe, não vou te machucar...
Joana estava chocada, seu patrão era um homem tão carinhoso com a esposa, como poderia estar fazendo aquilo com ela? Ele pressionava seu corpo contra o dela enquanto passava sua mão pelos seus generosos seios, ela tentava berrar, mas as mãos  do homem pressionavam sua boca com força.
-Cala a boca!
Ele jogou-a no sofá com brutalidade, o rosto alucinado já abria o zíper da calça apressadamente, indo para cima dela, parecia que já tinha planejado tudo há tempos e estava apenas esperando o momento certo.
Ela o chutava e se debatia, mas ele já lhe arrancava as roupas, as pernas impedindo-a de se movimentar.
-Se você for boazinha eu prometo que vou fazer bem gostoso...
A língua dele lambia-lhe a orelha, o pescoço e descia. Aproveitando-se do momento de excitação dele, Joana pressionou os dentes na mão que se afrouxara.
-SOCOR...
Ela tentou berrar sem chances de sucesso, ele já a agarrava novamente, agora mais bruto do que antes, parecia ter ficado zangado com a sua tentativa de escapatória, sentiu a mão entre suas pernas, abrindo-as forçosamente, não, não, seu João era uma pessoa gentil, porque estava fazendo aquilo?
Ele veio para cima com tudo e uma dor alucinante tomou conta do seu corpo, de repente se sentiu fraca, ele a possuía com gosto ali no meio da sala, bufando de prazer, ela virou o rosto para a direção oposta, esperando que acabasse logo.

Jéssica Curto


sábado, 15 de junho de 2013

Morrendo para estar vivo - Capítulo 7 Vida

A vida não é fácil e muitas escolhas chegam a ser cruéis, porém necessárias para que se consiga seguir adiante neste mundo tão deformado e venenoso.
A vida de Joana não seria mais fácil só porque ela conseguiu fugir daquele orfanato infernal, mas isso não significava que ela iria desistir.
Sentada em um vazio de trem, ela imaginava o que podia ter ocorrido com a sua amiga tão preciosa, torcia para que estivesse bem, voltaria para buscá-la no futuro, mas precisava se focar no que fazer, certamente a bruxa aquela altura já tinha acionado à polícia que deveria estar a sua procura, não teria outra opção além de fugir para o mais longe possível do Rio de Janeiro, pelo menos tinha um bom dinheiro guardado que daria pra alguma coisa por um pequeno período de tempo, aproveitava o fato de entender bem as matérias em geral para fazer trabalhos para os outros e até passar cola em troca de alguma grana.
Agora usaria uma parte para uma boa passagem pra São Paulo, a terra das oportunidades.
Recostou a cabeça no banco, fechando os olhos, as lágrimas desceram pela face terminando em seus carnudos lábios, iria se permitir um momento de dor, pois depois iria apenas batalhar, não haveria momentos de dor e sofrimento, tudo aquilo ficaria para trás, mas por hora, queria apenas sofrer, o vento batia levemente em seu rosto enquanto todo o seu ser se distanciava daquele horror.
Uma loira de sardas longe dali levava cintadas, mas em vez de sofrer se sentia feliz, um sorriso tímido se fazia presente em seus lábios, não se importava com o que lhe aconteceria, ela cumprira a sua missão, sua amiga estaria sã e salva!

Jéssica Curto


sexta-feira, 14 de junho de 2013

Morrendo para estar vivo - Capítulo 6 Fuga

Joana ficou semanas sem conseguir encostar as costas em lugar algum, Maria Antonieta tinha agora uma cicatriz feia do lado direito do rosto, mas não fazia caso disso, dizia pra quem perguntasse que tinha tropeçado e caído em uma ladeira e metera o rosto em uma pedra, Jô se sentia mal pelo sofrimento que a amiga estava passando, as duas estavam sem jantar à dias e embora Antonieta não reclamasse não era certo prejudicá-la, principalmente porque a revoltada ali era a “nega safada”, como era chamada sempre que a freira ficava irritada com algo que ela fazia, e somente ela deveria pagar o preço das suas afrontas.
A noite já tinha caído há muito tempo, a morena estava deitada na cama, silenciosa, o toque de recolher já tinha sido dado há mais de duas horas, o silêncio no recinto era perene, a amiga loira estava deitada na cama ao lado, resfolegava baixinho, estava em sono profundo.
Joana se levantou silenciosa, as mãos recolhendo o tênis e a mochila que estavam debaixo da cama, vestiu a jaqueta que estava dependurada no cabide, não tinha sequer se trocado, mas não deixou ninguém perceber, fora deitar antes de todos, se cobrindo com o cobertor até o pescoço, ninguém atrapalharia seus planos, e então, depois, voltaria para buscar a amiga.
Os passos foram ágeis até a porta, abriu-a com delicadeza e deu uma última olhadela para a amiga que não demonstrava sinal de acordar.
Ela sabia que a maldita bruxa não as deixava ir embora porque assim recebia dinheiro do governo, mas não aceitaria mais ser serviçal daquela vadia.
O corredor estava escuro, porém as tentativas de fugas de Joana já foram tantas que ela conhecia cada pedaço daquele lugar até de ponta cabeça. Todos dormiam, ela só teria que passar pelo dobermann preto que ficava cuidando da porta e estaria livre... Mas esse era um problema, o animal além de feroz era muito bem treinado para morder qualquer um que passasse por ali, exceto a nojenta da sua dona.
Ela enfiou a mão dentro da mochila, retirou um pedaço de carne que pegou no intervalo daquela manhã, quem sabe ele não fosse trouxa o bastante? Torcia para que sim.
Desceu as escadas pé ante pé, o bicho estava deitado em frente à porta.
Era agora ou nada, ela não tinha medo dele e sim do barulho que ele poderia vir a fazer. Apertou a carne entre os dedos e pisou no último degrau, um rangido barulhento em meio aquele silêncio se fez ouvir e o bicho se ergueu ouriçado, mostrando os dentes para ela que rapidamente jogou a carne longe, vendo que não surtira o menor efeito.
Logo ele estaria latindo e acordando todo mundo, e além de receber mais um belo castigo ela perderia uma oportunidade divina, pois sabia que quando essas coisas ocorriam o sinal de alerta ficava acionado por pelo menos um mês, a velha trancava as portas dos quartos e com a grade nas janelas se tornava impossível sair dali.
Retirou um estilete do bolso da calça, apontando para o cachorro que não se sentia nem um pouco ameaçado.
-Chispa, sai!
Ela sussurrava baixinho, com o estilete apontado para o animal. De repente o bicho veio correndo em sua direção e ela não pensou duas vezes, atirou o estilete nele e saiu correndo para a cozinha, o jeito iria sair pelos fundos.
Entrou tropicando na cadeira que soltou a bomba alerta com seu barulho estridente em meio aquela calmaria, se xingou por aquela burrice mas não parou pra pensar nos prejuízos, a luz do corredor já se acendia, ela correu para a porta que dava para o quintal.
-Quem está fazendo essa zona?
A velha berrava do segundo andar, o cachorro começava a latir alto.
Joana forçava a maçaneta, mas estava trancada, se recostou na mesa e meteu o pé no vidro, estourando-o e pulando para fora.
-Joana é você sua vagabunda? Acha que pode fugir de mim? Você vai ver só o que vou fazer com você quando te catar!
A voz se aproximava, a garota se encontrava do lado de fora, cercada por muros altos e considerados de classe.
-Você me estourou a porta, me aguarde! Mas o que...?
A mulher era ágil quando queria. Joana começava a escalar o muro, a mão esquerda sangrando com o caco que lhe acertou, mas ela não tinha tempo pra isso, algo estava atrasando a madre e ela agradecia por isso, seja lá o que quer que fosse, ela seria eternamente grata.
-Saia daqui sua vadia, saia de cima de mim!
Ela berrava dentro da casa, Joana pulou o muro sentindo algo estralar em sua perna e uma dor horrível se possuir de seu corpo, mas ela só pensava em correr.
-Maria Antonieta, eu te mato!
Foi a última coisa que Joana ouviu antes de desaparecer na noite.

Jéssica Curto


quinta-feira, 13 de junho de 2013

Morrendo para estar vivo - Capítulo 5 O Castigo

-Jô, o que você fez com o Bruno? O garoto está na enfermaria até agora!
Maria Antonieta era a sua única amiga, uma loirinha de cabelos lambidos e sardas nas bochechas que vivia enfiada nos livros. Joana gostava dela, era discreta e sincera, qualidades que ela apreciava em um ser humano.
-Não fiz nada demais, ele é um frangote.
Maria Antonieta a encarou por breves segundos com seus grandes olhos azuis, mas não demorou muito para voltar a se distrair com o caça palavras que tinha presente em mãos.
Adorava isso na amiga, não persistia muito tempo em um assunto.
Assim como ela, vivia no orfanato Doce Lar, se conheciam há anos, diferente de Jô que crescera ali, Maria Antonieta ou Ma para os íntimos como Jô, chegou ao orfanato com sete anos, quando seus pais sofreram um acidente de carro e faleceram, não tendo com quem ficar a garota foi encaminhada para lá, ficando deslocada por muito tempo até Joana resolver ir conversar com ela e desde então não se largavam.
Elas andavam lentamente pela calçada em direção ao orfanato que ficava há poucas quadras do colégio Santa Rita, o único que aceitava as garotas por fazer parte da igreja que também cuidava do Doce Lar, Joana estava séria, mas Maria Antonieta sequer notou alguma coisa, andava aos tropeços, completamente focada na revistinha em mãos.
-Boa tarde meninas, como foi a escola hoje?
Dona Albina, uma freira já idosa as esperava na porta do orfanato com um sorriso nos lábios, o rosto simpático e bondoso conquistava qualquer pessoa.
Joana passou pela simpática senhora sem nada responder, o rosto carrancudo.
Ouviu a porta atrás de si fechar e cerrou os olhos, sentiu o deslocamento do ar e logo em seguida a dor.
Os punhos cerrados, os dentes pressionavam os lábios fortemente, os olhos cheios de lágrimas.
-E eu espero que você não me de mais trabalho, sua imbecil!
Sentiu a dor na lombar novamente, o cabo da vassoura descia com violência em suas costas.
-Você acha que tenho tempo pra ir à escola resolver seus problemas? Se o diretor ligar novamente aqui você vai ver o que é bom!
A velha vociferava enquanto castigava a garota que já estava caída de joelhos no chão.
-Deixe ela madre, por favor, ela já recebeu seu castigo!
A pobre Antonieta chorava, tentando tirar das mãos da decrépita o cabo de vassoura, sendo acertada fortemente na cabeça.
-Ah! Por favor, pare, eu imploro!
A garota estava aos prantos, suplicando de joelhos para a cruel mulher.
-Já pro quarto, não quero ouvir um piu de nenhuma das duas, sem janta hoje!
A baba escorria dos lábios da idosa, como quem saboreia o momento.
Maria Antonieta apoiava a amiga nos ombros,  bochecha cortada pela tentativa de arrancar a vassoura da mão da mulher, mas ela não ligava, só queria tirar a companheira dali o mais rápido possível.

Jéssica Curto


quarta-feira, 12 de junho de 2013

Chama Eterna

Você pode me queimar como sol numa folha verde
Essa noite eu quero ser a vela acessa
Derretendo pelo calor da sua chama
Quando tudo for escuro e P&B
Você vai acender as cores
Através dos seus olhos
Me fazer queimar
Ardes em chamas
Chamas eternas
Estendendo os raios nos seus dedos
O calor das suas palavras doces
Vamos mergulhas nessa escuridão
E você vai me fazer incendiar
Minha mente vai subir nas telhas
E as estrelas vão sumir na noite
Através dos seus olhos
Me fazendo queimar
Arder em chamas
Chamas eternas
Continue me fazendo derreter
Entre suas chamas
Você me abraça
Me beija e ama
E depois embala meus sonhos
E entra dentro dos meus desejos
Isso é loucura amor
Mas nós continuamos
Seguimos em frente
Me de a sua mão.

Leonardo Ragacini

terça-feira, 11 de junho de 2013

Morrendo para estar vivo - Capítulo 4 Poderosa

Joana estava apoiada no grande muro da escola, usava uma calça jeans apertada, uma blusa regata mostrando a barriga tênue, os cabelos cor de ébano  soltos caindo-lhe em cachos por sobre os ombros, os lábios vermelhos e carnudos de darem água na boca em qualquer garoto, os olhos esverdeados observavam as pessoas ao redor, estava sozinha, como normalmente ficava em todo intervalo e todo o tempo possível, o rosto sério assustava os que tentavam se aproximar e ela achava ótimo, queria assim, odiava companhias irritantes.
-O morena, quando que tu vai me dar uma chance hein, gostosa?
Irritantes como o asqueroso Bruno.
-Cai fora, não to pra brincadeira hoje.
Ela encarava o garoto que estava com dois amigos, um em cada lado, como guarda-costas.
-O minha nega, não precisa ficar bavinha, papai te da carinho...
Ele vinha em sua direção com os braços abertos e um sorriso safado presente nos lábios.
-Eu disse pra você cair fora!
E falando isso ela mesma começou a andar para a direção oposta do pátio, o cara era um verdadeiro imbecil que só sabia falar besteiras e encher todo mundo. Já tinha repetido três vezes o segundo médio, era um mulato carrancudo que mal sabia formar frases, vivia dando em cima de todas as garotas e alguns garotos também.
-Qual é? Vem aqui pro papai, não fica assim...
Ele estava seguindo-a, e para seu azar resolveu enche-la em um dia em que estava de mal humor.
-Eu to falando com você!
A áspera mão dele pegou no delicado braço dela, que parou instantaneamente.
-Sabia que você gostava de um machão, vem cá...
Ela se virou e tudo foi rápido demais, os amigos que estavam do seu lado não conseguiram entender nada, só perceberam o que tinha ocorrido quando viram Bruno debruçado com as mãos entre as pernas, gemendo.
-E não sou sua nega, imbecil!
O tumulto de pessoas aumentou rapidamente ao redor do rapaz, mas Joana já estava bem longe dali.

Jéssica Curto

segunda-feira, 10 de junho de 2013

Morrendo para estar vivo - Capítulo 3 Consequência cruel

Já estava escuro quando ela finalmente chegou no local, a rua se encontrava completamente deserta, as luzes das casas já estavam apagadas, demonstrando o quanto era tarde da noite.
O pequeno embrulho nos braços resfolegava sem nem imaginar o que estava por vir.
Ela não poderia sofrer mais consequências de um ato impensado, já era judiada por natureza, não podia deixar que as coisas piorassem e por mais que isso lhe doesse o coração, sabia que era o certo a ser feito.
Os olhos apreensivos observavam os dois lados da rua, não havia nenhum sinal humano, todos já deveriam estar dormindo, tinha de agir rápido antes que se arrependesse.
Os passos se aceleraram silenciosos na melancolia da noite,  parando apenas quando alcançou a frente do gracioso casarão que existia na esquina de frente para uma reconfortante pracinha, onde existiam agora apenas balanços que se movimentavam fantasmagoricamente e escorregadores vazios.
Os negros olhos se abaixaram para o minúsculo ser por alguns instantes, mas antes que pudesse apreciar daquele momento, ouviu uma moto se aproximar, era a polícia noturna, iriam pegá-la, ela não teria como se justificar, ninguém ficava em um lugar chique como aquele aquela hora a não ser que fosse um sequestrador, estuprador ou ladrão. Com as vestimentas em que se encontrava na certa seria presa sem chances de explicação.
Não sabia o que fazer, entrou em completo desespero, apertando a criança mais forte em seus braços, o apito se aproximava cada vez mais, iria estar ao seu lado em questão de segundos. Droga! Não tinha planejado ser assim, que desculpa arranjaria? Iriam pensar que ela era uma raptora de crianças ou coisa que o valha.
Já via o forte farol despontando no início da rua, olhou para os dois lados apreensiva, não teria outra opção, a sorte teria de se fazer valer.
Colocou o pequenino pacote dentro do latão de lixo mais próximo dali e saiu correndo o mais rápido possível.
Sentiu uma pontada forte no peito e teve a impressão de ouvir um pequeno resmungar, mas não poderia parar, não agora.
O apito se aproximava cada vez mais, o pulmão estava em chamas, ela não iria aguentar.
Ouviu uma sirene e então dois disparos explodiram no ar, ela se sentiu leve como uma pena e tudo se escureceu.

Jéssica Curto


domingo, 9 de junho de 2013

Morrendo para estar vivo - Capítulo 2 Difícil decisão

Um quarto escuro, do lado de fora chovia fortemente, uma cama pequena e simples estava posicionada de frente para a janela, a pequenina estava deitada, as perninhas e os bracinhos esticados para cima, como quem busca pegar algo invisível.
Uma garota de cabelos curtos e encaracolados, de pele morena se encontrava sentada no chão perto da porta, os braços abraçando os joelhos que estavam encolhidos, a cabeça enfiada entre as pernas, o que ela faria agora?
Um leve resmungo e o rosto da jovem se erguera rapidamente, encarando o pequeno ser que se encontrava agora de bruços sobre o colchão.
Ela sabia que teria muitas dificuldades se não tomasse uma atitude logo, ela não tinha planejado nada daquilo.
Se levantou e foi até a minúscula criatura, tomando-a em seus braços, os olhos cheios de lágrimas, passou o dedo indicador pelo miúdo narizinho levemente, vendo a pequenina bocejar e agarrar seu dedo fortemente com a minúscula mãozinha antes de cair em sono profundo.
Não estava certo, não era justo, mas ela não tinha outra alternativa. Apertou o bebê em seus braços, tinha que fazer o correto e sabia disso, e dessa vez o faria!

Jéssica Curto