quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

MODERNIDADE LÍQUIDA


A vida banalizada.
O amor como coisa fútil.
O exagero como regra e a 
felicidade como exceção.
A falta de vínculos.
A falta de planos.
O desemprego feroz.
Você planta uma árvore
e ela dá poucos frutos.
Plantou. Regou. Semeou. Amou.
Investir a longo prazo só te fez
sofrer. Que pena. Se soubesse 
que nada dura hoje,
nem teria se dado ao trabalho:
Parece inútil a arte do jardineiro.

Ainda assim, a escolhi.
Descobri as ciências, as artes,
penetrei no profundo mistério
da cada um de nós; olhei os 
mares do norte e os olhos da noite,
e então achei que andava.

Quando vi, estava sentado
contemplando a desordem das coisas,
olhando as pessoas e falando com elas
Sem a mínima noção de como proceder.

Aí notei todas as linhas de chegada
- os potes de ouro no fim do arco-íris que a
TV nos mostra. Infelizmente, continua distante, e no escuro,
a trilha pela qual poderei alcançá-los.

Haverá espaço a pelo menos uma certeza
que seja?
Um bocado de segurança para um
pingo de conforto?
Poderei, um dia, descansar?
Ou ao menos sentir a bendita
ilusão sem temer a verdade
da incerteza como lei?
Não sei, não sei.
É cedo para responder.

O poeta luta, desesperadamente,
contra a bestialidade de tudo
na era da Modernidade Líquida.

Entrei na vida no meio 
da revolução cibernética,
no auge do neoliberalismo,
na profissão mais líquida
do mundo mais líquido:
sou tomado pelo medo.

Estou como quem viu a Verdade
e voltou pra casa amargo.
Estou como quem colheu dores
E incontáveis dissabores.
Estou como quem acordou,
olhou pro Sol e disse:
Meu Deus! Que horas são no Sentimento do Mundo?
Essas casas que vejo
- Perecerão?
Esses homens correndo
- são confiáveis?
Que dia é hoje nos anseios mais profundos 
De nossos corações?

Olho pro lado: não parece haver alternativa.
Resta-nos apenas esquecer.
Esquecer os erros, os nossos e os dos outros;
Os problemas, sempre tão complexos;
As pessoas, sempre tão inalcançáveis
E o amor, sempre tão esquecido.

Esqueça. A vida do mundo
é uma festa sem fim,
onde o agora manipula o DJ,
onde o hoje é resumo absoluto
de todas as coisas,
onde os homens se barbeiam
e as mulheres se maquiam
na esperança do prazer
que nunca chega.

"Os corpos se entendem, mas almas não":
Maldito sentimento de incompreensão.

Mas o poeta luta, apesar
da grande fúria das corporações,
desesperadamente.
Luta contra a bestialidade de tudo
na era da Modernidade Líquida.

Rafael Cardoso

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