sábado, 8 de setembro de 2012

A inexplicável sintonia

Por Rafael Cardoso

Num dia frio, num bom lugar pra ler um livro, faço diferente: encontro meus amigos para uma tarde de papo. Em poucos minutos, lá está ela, nossa inseparável parceira, que sai do canto da incompreensão rotineira e surge em nosso encontro semestral. Ela, invisível aos olhos dos leigos em matéria de amizade, é a tecelã de sentimentos entre semelhantes, a força-motriz das relações humanas: a inexplicável sintonia entre amigos.
Que força é essa que vem e muda nossa sensação de tempo espaço, que encoraja os corações a serem francos, a dizerem o que sentem sem temer represálias, que une todos a todos? O vento bate forte e ninguém lhe dá bola, o céu está escuro, mas o medo é ausente. O papo rola atemporal, imune a fatores exógenos que não sejam as palavras (doces palavras) expressadas numa tarde de domingo através da inexplicável sintonia.
Quem, neste mundo enorme, em que num coração cabem galáxias de pensamentos, consegue dizer, verbalizar, sistematizar a inexplicável sintonia que tem com alguém? Como explicar um sorriso se ele vem anterior a qualquer pensamento? De Marx e Freud até o mais humilde dos homens, todos sentem coisas que vão muito além da razão, coisas que elevam a natureza humana à condição de um mistério profundo, tateado absurdamente a esmo pelos cientistas no escuro, que querem achar o porquê de tudo. Mas Fiódor Dostoievski, grande literato russo, já dizia: “Que sabe a razão do homem?”.
Talvez a transparência que algumas pessoas estabelecem com os amigos sobre seus sentimentos seja capaz de despir-lhes a alma e revelar um ser que, embora imperfeito, é completo, pois ri e chora, pensa e sente, acha e não acha simultaneamente: é um amontoado de sensações e ideias antagônicas entre si. De modo que, nesses casos em que a amizade recíproca tem uma intensa conexão, o ser humano sente-se à vontade para mostrar-se tal como é: demasiado humano.
Contudo, convém lembrar que a resposta acima é apenas parte de meras especulações. A inexplicável sintonia, como o nome já diz (e como sou tolo!) é inexplicável, embora seja maravilhosamente simples descrever o que sentimos toda vez que ela aparece.


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