domingo, 28 de agosto de 2011

Memória Escrita VII

Planeta Terra, América, Sala de Controle do Sistema Central, 24 de setembro de 3184

“Sistema Inoperante. Autodestruição iminente.”
— Hunf. Não há saída.
Nem mesmo os mais potentes métodos tecnocientíficos podem deter o que está por vir. Raios, Terremotos, Tempestades, Erupções... Destruição por toda parte. Não há grama, não há céu azul. O planeta Apha-5310 não é mais alcançável e os recursos esgotaram-se. Há tempos nosso planeta mãe encontra-se em total desgraça e não podemos mais mantê-lo funcionando. Núcleo reformado de ferro, Sistema de controle de Magma, de Água e Continental... Nada está mais funcionando. Tentamos de tudo para salvá-la, minha querida Terra.
Felizmente, milhares de terráqueos já estão espalhados entre Delta-4562, Tal-8754, Zeta-6438 e Alpha-5310. Nossa raça continuará a existir mesmo tendo que massacrar as populações nativas destes planetas.
Tudo começou no ano de 2986, com a descoberta de um conjunto de partículas feitas de nêutrons provenientes de átomos de fósforo que são comprimidos num tanque de altíssima pressão após os elétrons e prótons serem removidos. O resultado é um forte metal, imune a qualquer coisa, pois é neutro e por isto não atrai e nem repele nada. É maciço, modelável durante os dois primeiros meses de fabricação e indivisível após este tempo, portanto chamamos de Átomos de Segunda Ordem, ou ASO para encurtar. Com eles fizemos naves, alocamos uma incrível quantidade de combustível juntamente com comburentes em seus grandes propulsores e com isto conseguimos um incrível foguete no qual viajamos para galáxias antes inalcançáveis. Isso animou a raça humana e fez com que a maioria dos seres humanos deixasse de se preocupar com a Terra. Os Sistemas de Controle fabricados desde então não foram feitos com o planejamento necessário e agora o planeta está sucumbindo. Os países e continentes estão sumindo a um nível de quarenta mil quilômetros quadrados por segundo por fortes erupções, raios elétricos e terremotos. A terra está sendo engolida por si própria. Vários países não existem mais e o primeiro a sumir foi a China. Falta pouco para o restante do planeta ser engolido e os humanos ainda vivos que estão nele não têm mais condições de escapar nem para Alpha-5310, o planeta habitável mais próximo. Eu decidi ficar por aqui e morrer junto com minha mãe. Estou vendo um rio de magma a minha frente e terra sucumbida atrás. Não há saída.
“Tempo para autodestruição: 1 segundo. Desligando sistemas. Abrindo as câmaras de combustível gasoso. Liberando gás oxigênio. Soltando faíscas necessárias”.
— Adeus. Minha querida Terra.

Michael Figueiredo Aurion Centauros Veiga

Lucas de Figueiredo


segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Pedra

*''No meio do caminho tinha uma pedra''
E era uma pedra muito grande, basicamente do tamanho de uma rocha.
Era tão grande que não cabia no sapato, para apenas ficar no incômodo entre o dedão e o consentimento do cérebro.
Estava um tanto quanto difícil de aguentar sua dor.
Não daria para fazer uma sopa com ela, apesar do seu tamanho monumental, ficaria amarga e ingulível.
Não dava para chutar sem quebrar o pé e muito menos segurá-la entre os braços sem estourar os tendões.
Dê pedra para cicatrizes, não sei o que é pior, pois a pedra estava deixando muito mais cicatrizes do que lhe era de direito, e sem dúvida muito mais que qualquer tendão estourado deixaria.
''No meio do caminho tinha uma pedra''
Mas não era nem de longe um simples objeto atrapalhando apenas meu caminho.
Raspava na garganta e ardia nos olhos toda aquela passagem.
Acredito que ela veio de Marte e resolveu cair justamente na minha frente de propósito.
Seria um teste, o maior que já fiz na vida, apenas para ver se o que desejava era de fato aquilo.
Pelo menos, seria uma experiência única, trazendo muita dor sim, mas sem dúvida muita sabedoria.
A pior pedra que já tive no caminho, no entanto seria a que me traria mais frutos.
Talvez não vindos dela, propriamente dito, mas sem dúvida, depois de seu desvio, nunca mais viria a se repetir.
''No meio do caminho tinha uma pedra''

*No meio do caminho tinha uma pedra é um trecho do poema ‘’No Meio do Caminho’’ de Carlos Drummond de Andrade

J.H.C


sábado, 13 de agosto de 2011

Extrato ao vento

Ao abrir os olhos hoje de manhã, olhei para o teto de meu quarto. Todo branco, o forro contrastava com as paredes escuras e dava um estilo enigmático para o cômodo. O alarme soou em seguida e eu, que relutava em levantar, coloquei meus pés descalços no chão gélido. Fui à cozinha, servi-me de uma boa caneca de chá gelado que preparei ontem e logo após fui ao banheiro com a intenção de tomar um bom banho e me arrumar para ir ao trabalho. A água caia sobre meu corpo me trazendo uma sensação que fez com que saísse um pouco do mundo e voltasse ao meu passado, porém logo acordei ao encostar-me na parede fria com minha pele quente devido à água estar bem aquecida.
Após o banho, fui à padaria onde comprei pães, biscoitos, duas rosquinhas e duzentos gramas de mortadela e depois retornei a minha casa para tomar o café. Depois de ter feito tudo isso, fui para o trabalho.
O serviço não terminava mais. Eram centenas de documentos para organizar e enviar para os mais diversos destinatários. Parecia-me que tinha tarefas acumuladas de uma semana e meia e tinha que entregá-las antes do anoitecer, contudo, para a minha felicidade, os afazeres foram diminuindo e uma pequena parcela faltava para ser concluída. Terminei logo e fui para casa, morto de cansaço.
Quando cheguei, dei uma ajeitada na casa, limpei o chão da sala e da cozinha, assisti à novela e ao futebol e depois fui para cama, mas o sono demorou a chegar. Então me sentei e fiquei absorto em meus pensamentos. Naquele momento somente a palavra felicidade me vinha à cabeça, juntamente com vagas lembranças de momentos em que me senti plenamente feliz. Felicidade plena na qual nunca acreditei que existisse, pois plenitude para mim é algo mais do que duradouro. Diria até quase eterno.
Essas lembranças fazem parte de minha infância e adolescência, partes estas pelas quais sinto muita saudade. São momentos nos quais percebo que se ausentam particularidades existentes na vida adulta, que percebo somente agora. Lembro-me quando sonhava em ser adulto para ter minha independência, construir grandes projetos, obter grandes conquistas e ser digno de grande admiração. Como era fantástica a minha imaginação! Pena que nunca se aproximou da realidade. Dinheiro para sobrevivência, classe social para prestígio, responsabilidades para a vida, eficiência para o trabalho, falsidade para a imagem. Nunca imaginei que iria possuir essas artimanhas que odeio tanto e hoje penso “Se foi para isto que cresci, então gostaria de permanecer como uma criança! Afinal só elas possuem a inocência, a doçura, a sinceridade, a alegria e a esperança que nos dias atuais eu valorizo tanto!”. Então percebo meu extrato bancário na escrivaninha e, com raiva, rasgo o papel e jogo-o no chão. “Não era essa a independência que eu queria! Não eram esses os projetos que gostaria de construir! Não eram essas as conquistas que sonhava e não me vejo digno de nenhuma admiração!”. Logo depois desabei na cama e lágrimas transparentes brotaram de meus olhos. Transparentes como uma criança, porém com o sofrimento de um adulto. Adormeci.
Abri os olhos. O travesseiro estava encharcado e sentia gosto de sal na boca. Olhei para o teto branco, porém levei um susto ao perceber as paredes claras que meu quarto adquiriu. A mobília estava totalmente diferente e as dimensões do aposento também diminuíram. Então gritei ao pensar que fui sequestrado e meus pais apareceram na porta, correndo para me abraçar. O carinho do abraço aconchegante me tranquilizou e, confuso e tentando me lembrar de como fui parar na casa de meus pais, me levantei rumo à porta, porém, antes de chegar ao meu destino, me surpreendi ao olhar-me no grande espelho que jazia do lado de minha cama. As rugas sumiram e o sofrimento dos anos também. De pijama pulei de alegria ao perceber que tudo aquilo pelo que passei não fazia mais parte de minha vida, mas sim de um sonho que, com êxito, me alertou sobre um de meus mais temíveis e terríveis (e possíveis) futuros. Volto para cama, abraço meus pais novamente e vou tomar meu café da manhã com um novo brilho no olhar.
E como prova diminuta e imperceptível daquilo que julgava ser sonho e na verdade escondia uma chance dada a poucos pelo destino, os restos de meu extrato bancário, com data marcada 26 anos após aquele dia, levantaram-se do chão com as forças do vento e desapareceram pelo mundo sem que ninguém os visse. E agora, depois que vivi toda a minha vida como planejei nos tempos de menino, parto para um destino ao qual não tenho nenhuma ideia de como será. Talvez uma nova vida, talvez a escuridão profunda, talvez o céu ou ainda o inferno. Repito que “não sei onde estou ou aonde vou agora”, mas digo, com toda franqueza do mundo, que parto satisfeito comigo mesmo.

Lucas de Figueiredo

Querer

Na determinação, aquilo antes oculto é desvendado
E o novo revela-se doce simplesmente por ser novo
Rimos do acaso
Como criança que aprende a sorrir
Tudo é passo, nada é tropeço
O querer faz do querer sua fonte de motivos
Que saciam a sede de esperança
A escada é esteira, a esteira, escorregador
Para fluir rápido e intenso
O sangue que corre a vida que acontece
Bombeados pelo coração repleto
Da sensação única de bem-estar
Se quero mas não posso devo
Se não posso mas devo quero
Pra ser sincero escrevo
Coisa que não tenho (mas venero)...
Eu queria ter o desejo de querer as coisas.

Rafael Cardoso

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Olhos como os de mais ninguém

Para uma pessoa de olhos especiais

Seus olhos, seus olhos.
Amo seus olhos, sempre os amei, é bem verdade que não gosto de coisas comuns e os seus olhos de fato não tem nada de comum.
Não só pela sua cor, não só pelo seu formato, mas principalmente como você me olha, como ninguém nunca olhou.
Você é uma mistura do que sempre quis e do que sempre admirei.
Você se acha tão comum, mas é tão diferente!
Seus olhos.
É verdade que tenho queda por olhos, mas os seus são exclusivos.
Meu Deus, como eu os amo!
Seria preciso descrevê-los com perfeição para que pudesse tentar expressar o que se passa, e mesmo assim não o conseguiria.
Acho que a perfeição não tem descrição exata, teria que ficar por tanto subentendido o que desejo dizer.
Mas acredito que não tem grande importância, o que vale é que eles me encantam.
Amo quando você me observa com curiosidade, mas amo mais ainda quando você me olha com empolgação.
Devo dizer que a curiosidade que surge quando você está com seu olhar perdido, longe, faz com que surja um misto de irritação por não saber o que se passa e curiosidade imensa, mas você rapidamente me recompensa olhando-me e juntamente seus olhos sorriem para mim, as vezes mais do que seus lábios, sempre tão sérios e muitas vezes pensativos.
Seria loucura demais dizer que olhos sorriem e lábios pensam?
Não sei, só sei que para mim, eles são maravilhosos!

J.H.C


sábado, 6 de agosto de 2011

Feitos um para o outro

Os olhos de um castanho azulado mostravam o quanto ele estava confuso com a situação que nunca vira antes ocorrer. Não imaginava que seria daquela forma, e muito menos com ela, uma versão totalmente oposta do desejado.
Sua total grandeza agora parecia se resumir em pequenos pedaços de seu ser, sempre desejou que aquilo ocorresse, mas nunca conseguiu imaginar como o seria, e finalmente, quando menos esperou seu desejo se tornou realidade.
Estava apaixonado, completamente apaixonado, sentia seu coração palpitar forte no peito, as mãos suarem e o ar lhe faltar enquanto tentava, através de muito esforço e engasgos, falar.
Queria apenas falar, antes parecia tão fácil, horas a fio, mas agora parecia ser a coisa mais complicada do mundo, estava se atrapalhando todo e pagando o maior mico do universo, não conseguia controlar seu nervosismo.
Ela era única, não tinha nada de especial e no entanto, tinha tudo.
Sempre idealizou a mulher perfeita, mas nunca se completou com tais mulheres, e ela, ali, na sua pequena humildade lhe satisfazia e completava totalmente.
Não conseguia entender porque aquilo ocorrera, e muito menos como ocorrera, em um minuto tudo estava normal, no minuto seguinte os olhos castanhos, o cabelo igualmente cor de chocolate, as bochechas rosadas e macias, o corpo rechonchudo... Tudo parecia mais bonito e muito mais irreal.
Mas por quê? Por quê logo com ela, que parecia ser tão impossível?
A amizade deles era forte, mas será que ela o via com os mesmos olhos? As longas horas de conversas e idéias por um acaso conseguiram mexer com ela como mexeram com ele?
Talvez por não saber estivesse tão nervoso, afinal, tudo o que mais queria esse tempo todo, o sentimento que mais desejara finalmente se concretizou, mas e se ele tivesse se concretizado com a pessoa errada?
E se ele sofrera o azar de muitos de se apaixonar e não ser retribuído? Estaria sofrendo a primeira grande desilusão de sua vida, afinal?
Passava as mãos apressadamente pelos cabelos, deixando-os mais bagunçados que o normal.
Pigarreou nervoso, os olhos atentos nos movimentos dela, totalmente opostos dos dele, delicados e surreais.
Ela gargalhava com as piadas que ouvia ao redor dos amigos, mas não percebera o quanto era observada até uma de suas amigas lhe cochichar no ouvido o quanto estava achando o dito feito estranho naquele dia.
Então seu rosto rechonchudo corou com um vermelho intenso e sugestionável.
Uma sobrancelha se ergueu curiosa, tentando entender tudo o que estava se passando.
Odiava a dúvida, ainda mais em uma situação como aquela, nunca conseguia entender sinais, muitas vezes os enigmas falhavam devido sua pouca falta de entendimento para com eles.
Os boatos seriam verdadeiros ou apenas puras ilusões de sua mente?
Ir para casa com aquela dúvida há deixaria um pouco preocupada, mas sem dúvida ela não fazia idéia da reação que estava causando deixando a dúvida da realidade na mente alheia.

A realidade, é que a falta de coragem e o medo de estragar algo que nos parece tão perfeito, muitas vezes nos faz perdermos oportunidades magníficas e únicas.

Assim, ao se despedir, ele se encheu de coragem, a agarrou ali mesmo, em meio à estação de metrô, as pessoas apressadas passavam e adentravam seus vagões preocupadas com a hora, e ele, sem se preocupar com mais nada ao seu redor, a beijou, um beijo doce, lento, um beijo como nunca deu e nunca sentiu antes, completamente... único.
Sentiu a mão dela se aconchegando em sua nuca e lhe acariciando enquanto retribuía carinhosamente, seu coração pulava como ela nunca sentiu antes, estava feito, tinham a plena certeza de que foram feitos um para o outro.

J.H.C