segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

O cartão

Você sabe que sempre quis “o oito ou oitenta”. Eu sempre quis o extremo, o intenso. Nunca o meio termo, o meio do caminho. Se não for até o fim, paremos no começo.
Mas diante da magnitude de meu sentimento, este me obriga a agir de maneira inusitada. Eu não quero provocar incêndios ou tempestades. Eu não quero viver nos pólos de um imã. Pela primeira vez me vejo querendo o zero, o neutro. É nisso minha cabeça gira e para, sempre no meio do caminho. Eu não entendo, mas acho que um dia poderei entender.
Por este motivo estou lhe mandando este cartão, pois não sei se deveria me declarar ou deixar para depois. Eu gostaria de vê-lo e também não gostaria.
E é diante dessas dúvidas que te convido. Encontre-me na praça ao meio dia ou a meia noite. Não planejo lhe dar um beijo na testa ou um beijo ardente, mas sim apenas um selinho. Um meio termo dentre os termos. Nem branco nem preto. Simplesmente cinza.

De: Sem Remetente
Para: Você sabe quem

Lucas de Figueiredo

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Carta Despedida

Hoje a marca de tempos remotos encontra-se nos mais diversos porta-retratos. Eu ganhei minhas rugas e você também.
Os segundo não se tornaram minutos, mas sim horas. A vida passou rapidamente e quase não tive a chance de aproveitá-la em seu nível máximo. Acredito que isto também aconteceu contigo.
Eu tive meus filhos, meus netos e agora me encontro na situação de bisavó. Eu realmente estou feliz com isso, pois este sempre foi meu sonho. Não me recordo de atitude ou sonhos que nunca concretizei, mas posso dizer que já tive muita vontade de desistir. E você estava ali – não totalmente do jeito que eu gostaria que estivesse – para me amparar caso eu caísse. Eu realmente te agradeço por isto.
O fato é que eu sempre te amei, mas a vida mostrou-me que isto era impossível. Foi a única coisa não realizada em toda a minha vida, mas não tenho remorso por não poder ter sido sua mulher, afinal encontrei um excelente homem em meus caminhos e este continua sendo muito especial até hoje.
E agora estou aqui, lhe escrevendo desejando boa sorte neste papel que será minha carta de despedida. Acho que minha doença não me deixará viva por mais duas horas, contudo estou preparada para o que vier – se vier – depois de minha simples morte. Quero que você continue feliz e sendo o portador desse lindo dom de animar as pessoas. Desejo muitas felicidades a seus filhos e a sua mulher. Mande um beijo a todos.
Jogue uma flor de lótus no meu caixão... se puder.

Um último Beijo.
Gênnova Guilhermina dos Santos Pereira.

Lucas de Figueiredo

sábado, 26 de fevereiro de 2011

Correspondência

E ele me acolheu do campo de batalha. Me deu abrigo, alimento e seu coração. Agora me via vestida, com minha barriga doendo de tanto comer e minhas feridas cicatrizavam rapidamente. Eu estaria bem, se ele não fosse um inimigo. Eu me sentia presa numa casa muito confortável e com algemas de algodão. Tudo estava confortavelmente bem... Bem até demais. Eu sentia uma dor prazerosa. Eu queria ficar e sair. Eu queria corresponder e queria ir embora. Eu estava ficando totalmente confusa. Saímos do preto, passamos pelo branco e ficamos no cinza. Eu estava a ponto de enlouquecer.
E naquela noite eu sabia que ele viria, assim como vinha todas as noites. Ele olhava para mim e arriscava caricias, mas nunca me forçou a nada. Seus olhos brilhavam quando ele me olhava. Eu era cobiçada por ele, cobiçada pelo inimigo-amigo. Isso me deixava mais confusa, pois os sentimentos de gratidão e traição se misturavam e formavam uma teia que amarrava minhas mãos, amarrava minha boca, amarrava minha cabeça. E novamente eu queria sair e ficar.
Mas nessa noite minha decisão foi feita. Eu o derrubei na cama e dei-lhe um doce beijo em sua boca carnuda. Depois, ergui meu corpo e deixei cair a lança que estava em minhas mãos rumo a seu peito.
— Desculpe, mas o sentimento não foi recíproco.


Lucas de Figueiredo

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Facebook



Acabei de ver o filme do facebook – A rede social- e eu sei que isso viola totalmente o que eu estaria dizendo sobre postar apenas um post por dia, mas: Em primeiro lugar, eu estou extremamente revoltada com o procedimento que o blog está seguindo, há UM mês atrás nós tivemos mais de mil acessos, sendo que quarenta foram em apenas um dia, e hoje não passamos de dezessete visualizações por dia, era para estar melhorando e o rendimento caiu drasticamente, então, dane-se essa minha proposta.
Segundo, eu achei o filme extremamente incrível e senti uma vontade imensa de falar sobre isso, e já que tenho um blog, porque ter que postar isso aqui só daqui quase um mês porque disse para sabe-se lá quem que iria postar apenas um post por dia?
Qual é, qual a diferença nisso?
A realidade é que postarei quando bem quiser agora, e dane-se!
Não ganho nada com esse blog, acredite, eu não ganho NADA! Isso aqui é puro prazer, e nem comentários existem, por tanto, a partir de agora eu não farei para agradar ninguém, farei para me agradar, os que não desejarem que saiam. Isso ai, fecha ali naquele xizinho e pronto. É fácil, rápido e prático, só sinto muito por você, não tem idéia do que está perdendo.
Outra coisa, esse blog é MEU, exclusivamente MEU, eu dei abertura para alguns amigos postarem algumas coisas alheias deles, e em partes foi muito legal, teve um tempo que se não fosse por eles eu não teria postagens por meses, obrigada! Eu sou realmente muito grata há vocês, e vocês sabem disso, mas CHEGA!
Esse blog é meu, e é isso ai, agora, só postagens minhas, não me levem a mal, mas eu quero, uma vez na vida, ter algo que não tenha que compartilhar com ninguém ou fazer do modo como os outros desejam, então, acabando fevereiro, não rola mais postagens alheias.

Obrigada aos leitores que de vez em quando passam aqui e lêem, mesmo que não informem suas vindas, obrigado, se você de uma forma ou de outra aparece por aqui de vez em quando, mas QUAL É? NENHUM COMENTÁRIO?!?!?! Caramba! Valeu hein, queria ver como estaria a sua auto-estima se fosse com você... Mas ok...

Ignorando meu lado revoltado, o filme é muito bom. Assistam, vale a pena.

Por hoje é só, mas nunca se sabe né... Fica ligado ai, vai saber, talvez as coisas mudem e quando você desejar dar o ar da graça vai ser tarde demais...

J.H.C

Memória Escrita III

Curitiba, 10 de fevereiro de 2011

E agora eu deito em minha confortável cama. As lembranças deste dia passam em minha memória antes da mesma entrar para o lado inconsciente do sono. Os sonhos estão na realidade e eu sei que posso acreditar neles.
Essa tarde foi como uma outra qualquer, mas ao mesmo tempo não deixou de ser aquela tarde especial. Tudo por causa dele. Charles.
Esse nome ecoa agora em minha cabeça e as lembranças continuam a fluir. O piquenique, o sorvete, as piadas, seus olhos olhando nos meus... o beijo ao pôr-do-sol. Tudo foi perfeito, assim como num sonho. Eu estou explodindo de felicidade. Sei que esta não é eterna, por isso aproveito-a a cada segundo que passa. E o nome de Charles continua a ecoar. Meu corpo se lembra do toque macio de sua pele com a minha, de sua boca com a minha, de seu coração com o meu. A sintonia mais bela que já ouvi. E eu quero experimentar cada nota dessa sinfonia que vem pelos meus ouvidos.
Espero que dias semelhantes venham, que os sentimentos que passam por meu coração aflorem mais ainda e meu corpo obedeça ao dele, para que nos tornemos um só.
E assim adormeço, com a mais forte saudade e a absoluta certeza que nos veremos de novo. Eu e Charles. No cinema, no pôr-do-sol, na chuva, na rua... Não importa! As únicas coisas que desejo é o seu corpo e a sua mente. Eu o quero por inteiro e em troca, me oferecerei por completo. Tudo isso na ânsia dos mais duradouros e intensos instantes de felicidade.

Cíntia Cristina de Oliveira.

Lucas de Figueiredo

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Memória Escrita II

Constantinopla, ano 342.

Eu pensava que monstros não existiam, mas estava enganado. O que via a minha frente não era a prova disso. Pessoas jogadas aos trapos, morrendo de fome, sangrando... tudo naquele cubículo. Era triste de ver, mas eu não possuía o poder para fazer algo naquele momento. Melhor eu sair daqui antes que os guardas de papai me encontrem.
O jardim está bem florido nesta primavera. As borboletas passeiam pelas mais lindas flores que eu já vi. Mais ao longe dá para notar uma grande árvore. Perece que lá é um bom lugar para descansar. Ao aproximar-me, começo a enxergar um corpo e quando chego mais próximo ainda, vejo que é uma menina. Uma bela garota que parece ter uns doze anos de idade. Ela olha para mim e sorri, mas logo seu sorriso desaparece. Um homem gigante aparece atrás dela. É Aston, o ferreiro. Eu pensava que ele era um cara legal, mas novamente estava enganado. E assim, outra prova que monstros existem estava na minha frente. Ele agarra a garota e vai para sua casa. Minha curiosidade me faz segui-lo e lá, vi coisas que jamais imaginei.
O homenzarrão tomava a menina com força. Machucava em busca de algum sentimento bom. Ela fechava os olhos e pedia para que acabasse logo, enquanto o homem tocava em suas pernas limpas com suas sujas mãos. Eu assisti a tudo aquilo, não por vontade, mas por pena. E novamente eu não podia fazer nada.
Depois de dez minutos, o homem dormia com um sorriso macabro e a garota se vestia chorando em tom quase inaudível. Eu adentrei a casa e meus olhos fitaram os olhos espantados dela. Ela procurava se afastar lentamente de minha pessoa e eu compreendia suas razões. Neste instante a coragem me tomou. Não sei como eu fiz isso, mas quando dei por mim, a espada ainda inacabada e incandescente adentrava na barriga gelatinosa do ferreiro. A menina me olhava com mais espanto, mas agora se aproximava de mim. Eu dei um sorriso singelo e a trouxe para casa.

§§§

Ao chegar em casa, levei-a para meu quarto sem os outros perceberem. Lá ela me contou sua história. Contou sobre seus pais assassinados e sobre a gentil e maliciosa atitude do ferreiro em adotá-la. Ela não poderia descumprir as ordens de seu novo pai – se é que poderia chamar aquilo de pai - ou seria deixada ao vento, como um simples objeto. Eu entendi a situação e pedi para a empregada um lanche, fingindo ser para mim. A empregada nem notara a menina, já que a mesma estava bem escondida embaixo de minha cama.
Quando me sentei à mesa para o jantar, meu pai comentava da misteriosa morte do ferreiro e do sumiço de sua filha. Eu procurei ficar o mais silencioso possível, mas papai me envolveu na conversa. Resolvi falar que estava com a menina e que gostaria que ela morasse na casa. Meu pai ficou bravo por um instante, mas talvez pelo fato de sua mente ser tão parecida com a do ferreiro, ele aprovou meu pedido. De sua mente ele procurava entender a minha e enxergava intenções que não existiam. Em sua face estava claramente escrito: “Meu filho está virando homem!”.
Eu sorria por dentro, pois havia conseguido o que queria. De agora em diante só tinha de protegê-la de papai, tarefa que não era tão difícil, pois sabia os lugares que ele freqüentava. Bastava não levar a garota a eles.
E eu pensava que os monstros não existiam, mas o mundo revelou-se para mim. Eu era apenas um garoto de dez anos diante de um mundo monstruoso. Cabia a mim escolher ser um deles ou não.

Fernando Ribeiro Hamiskzy

Lucas de Figueiredo

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Memória Escrita I

Algum lugar entre Varsóvia e Rio Vístula, 21 de setembro de 1944

Hora de voltar para casa. O tormento já passou, mas a amargura ainda corrói o peito. Eu não gostaria de voltar para casa. As pessoas que eram para estar lá, as pessoas que me amavam, não se encontram mais naquele casebre longínquo da cidade. Eu sinto fome e sinto frio, contudo a falta de mamãe é a que mais me dói e incomoda. Tenho medo de saber o que ocorrerá mais para frente. Papai dizia que eu era o futuro do país, mas não me sinto tão importante agora. Minha roupa está aos trapos e manchada de sangue. Sangue que não é meu.
A chuva molha meu corpo cansado de cavar as covas. Dezenas de pessoas morreram hoje... e tudo em apenas um instante. Eu tenho sorte e tenho azar. Tenho dor e um fiasco de esperança. Talvez isso seja o suficiente, talvez não.
Eu repito que não queria estar voltando para casa, mas lá é o único abrigo que eu tenho. Talvez a comida de lá não esteja estragada. Talvez os ratos foram bondosos comigo e deixaram minha parte para quando eu voltasse... Mas não acredito nisso, pois custei aceitar que eu era a única que sobrou. Talvez pelo meu tamanho, talvez pela minha agilidade... Mas com certeza foi, na maior parte, o amor da minha familia que me salvou... Eles eram bons para mim, mas agora eles viraram a poeira que assola a cidade, as ruas, as estradas, as fazendas, as florestas e que se dissolve no mar. O vento será o melhor companheiro que eles encontrarão, mas isso não fará diferença para eles.
Sinto meu rosto salgar. De suor e lágrimas, mas sei que não posso parar por aqui. Falta muito pouco, eu vou conseguir...

§§§

Finalmente estou aqui, no casebre feito de madeira. A casa antes quente está gélida e meu corpo começa a tremer. Tenho que me defender do frio, mas às vezes a defesa não é suficiente, sendo necessário enfrentá-lo. Melhor eu ir pegar uma roupa empoeirada e tirar essa que está grudando na minha pele, extremamente molhada pela chuva. Não tenho lenha para me aquecer, mas saberei usar o machado velho de papai quando o sol voltar. Tudo que eu quero é descansar por enquanto... Cada músculo está fatigado e cada nervo reclama de dor. Os olhos pesam e a mente também. Espero que eu tenha uma boa noite de sono, pois o dia foi terrível. Polvoroso.

Presea Blumska.

Lucas de Figueiredo

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

A mais linda peste

Amo-te desesperadamente
Não sei o que faço
Tu não sais de minha mente
E me sinto como um palhaço

Eu vivo no sonho
Da luz da lua apaixonada
E a vontade é imensa
De beijar tua boca molhada

A avidez com que te procuro
Repete-se a cada noite
E quando acordo no escuro
Peço que a solidão me açoite

Amor de uma via
Não transmite alegria
Então quero que a dor me infeste
E transforme meu sentimento
Na mais linda peste.

Lucas de Figueiredo

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Vamos Dançar?

O céu fica límpido, depois de uma longa tempestade. As nebulosas já se foram e a dor também. A luz proveniente do sol pode até ser boa, mas irrita meus olhos, que continuam insistentes em querer admirar a paisagem. Meu irmão, o vento, bate as minhas costas e me acalma acariciando-me os cabelos. Não sei se rio ou se choro. Só sei que a sensação é de todo estranha. Inovadora.
A vista daqui de cima é magnífica. As árvores balançam seus galhos e folhas e o mar esbraveja e bate com força nas pedras da chapada que continua a ser esculpida para que todo dia tenha uma beleza diferente e exclusiva. E assim o dia prossegue. A noite ainda é mais bonita, pois esta possui o tempero estelar. É claro que o Sol também é uma estrela, mas a ignorância e o deleite do astro-rei de apagar todas as outras são tão grandes que sua beleza diminui e o mesmo só fica bonito nos momentos em que está sumindo ou aparecendo. Nascendo ou morrendo, justamente os dois limites da vida.
E é nesse dia que minha doença vira pó. Eu esqueço completamente que não terei jeito, não terei cura. Essa doença ainda vai acabar com meu Romantismo alucinado, mas não vai chegar a abalar meu Futurismo exorbitante, pois o mesmo simpatiza com a morte, minha futura consequência. O Niilismo, sendo este o pai de todas as minhas convicções, também nunca será abalado, pois o mesmo se encontra totalmente enraizado em meu ser. Minhas ideias desaparecerão comigo, mas estou feliz com isso, pois tudo que é meu tem que voltar a mim.
Depois que sair dessa chapada, sei que inalarei o pó doente e este continuará a circular pelo meu corpo, mas eu estou feliz. Eu estou fazendo o que quero, sentindo a satisfação de pertinho. Desejo de me suicidar? De jeito nenhum! Quero viver como manda minha mente e meu corpo. Obedeço aos dois, pois ambos me formam de maneira equalizada. E assim continuo... Próxima parada? Aquela prainha de areias negras que está quase sumindo no horizonte.
Tenho certeza que chegará uma hora em que meu único destino será o caixão, mas acredito que até lá eu já esteja satisfeito comigo mesmo. Espero que não sintam saudade de mim, pois não poderei retribuir o sentimento quando minha hora chegar. Eu quero que aprendam a viver do jeito que estou vivendo agora, pois só assim eles morrerão depois de mim. Só há vida onde há desejo de felicidade e poder, pois sem isto a morte é uma ótima companheira e uma excelente sugestão.
Muitos me acham um maluco doente. Eu olho para estas pessoas com pena e repito as palavras que saíram primeiramente das bocas de um sábio: “E aqueles que foram vistos dançando foram julgados insanos por aqueles que não podiam escutar a música”.
Então, já que estamos aqui, porque não dançamos juntos?

Lucas de Figueiredo

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Porque o tempo já passou

Eu não posso ouvir
Não quero ficar aqui
E ver as suas respostas
Já é um pouco tarde
Para me pedir pra ouvir
E pra jogar seu jogo
Eu fui tão alto
Apenas pra você me jogar no chão
E agora não existe como voltar
Não quero mais jogar errado
Não quero mais ficar perto
O suficiente pra ferir
Porque o tempo já passou
O tempo já passou pra você
E todas as pequenas e grandes coisas
Todas as nossas emoções
E todas as minhas ilusões
Elas não são recicláveis
E não quero mais...
Eu fui tão alto
Apenas pra você me jogar no chão
E agora não existe como voltar
Não quero mais jogar errado
Não quero mais ficar perto
O suficiente pra ferir.

Leonardo Ragacini

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Apenas pra recomeçar

Eu dei o melhor de mim
Em cada sopro de ar
A cada maldito orgasmo intenso
Apenas pra recomeçar
A afundar
Na droga do seu amor
Porque eu não sei mais dizer adeus
Porque estou num poço sem fundo
E eu gosto que seja assim
Não quero do jeito certo
Quero brincar (de esconde – esconde) no escuro
Ver o melhor do seu apetite de...
Quero dar duro pra te satisfazer
Quero que me mostre
Como eu ainda sou por dentro
Eu sou apenas um copo de suco gelado
Que mata sua sede, mas não te alimenta
E meu coração em pedaços
Ele nem sabe o que é ser inteiro
São tantas peças espalhadas
Que nem posso o ouvir bater
A menos que esteja perto
Somente pra destruir cada peça.

Leonardo Ragacini

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Toda sua paciência

Não é fácil me amar,
Eu não sou fácil
Todas as coisas complicadas em mim
As coisas que você tem que demonstrar
Meu humor sempre mudando
Meu ódio te fazendo sangrar
E você não sabe nada mais sobre mim
Toda sua paciência
Impressiona pela verdade
Tudo que eu te faço suportar
Não é nem metade
Das coisas que posso dizer
Mas você sabe como me salvar
Das piores coisas em mim
E é por isso que faz parte
Parte de mim mesmo
“Você nunca me pergunta” por quê?”estou assim
Porque quando eu começo a desmoronar
Você vem me abraçar
E já não é tão ruim
Você é uma parte no tempo
E é melhor dela
Nunca minha e nunca sem ser
Você é como uma parte de mim mesmo.

Leonardo Ragacini

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Pare essas emoções

Ainda não sei como ver
Somente as coisas ruins
E eu te amo...
Eu apaguei seu telefone
Sumi com todas as coisas
Que fizeram parte desse caminho
Mas ainda me abraço
Me seguro com todas as forças
Aos gritos e aos berros
Eu sinto seu cheiro
Toco na sua pele sem calor
Eu sinto todas as chances sem tentar
Quero tremer compulsivo no chão
Me atirar por entre cada espaço
Que você está
Tranquei meu coração num mar
E fiz das minhas emoções abismos
Mas tudo isso é vago
Quando somente o seu nome
Me faz te dar todas as chances.

Leonardo Ragacini

Imagem de Alan Cassiano

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Eu não consigo evitar

Como isso me faz sentir!
Quero sentar e chorar
Mas já não existe
Nem motivo pra me apegar
As coisas ruins
E eu por isso
Não consigo deixar de te amar
Quero tanto te odiar
Mas não posso fazer nenhum
Mero sinal para mim mesmo
Porque eu estou fazendo
Da dor a minha armadura
E da minha felicidade
Uma conseqüência falsa
E todas as coisas que me machucam
Não podem me fazer te odiar
E mesmo que você não mereça
E mesmo que você nunca saiba
Eu te vejo ainda resplandecer
Como se nunca tivesse ido
Quero parar de sangrar
Mas eu preciso da ferida
Aberta e pulsando
Porque ainda não estou pronto
Apenas para odiar você
E ainda me dói dizer: Acabou!
E ainda me faz sentar e chorar
Mesmo que não existam motivos.

Leonardo Ragacini

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Simples fato de você

Você nunca olha fixo em outros olhos
Mas quando olha nos meus
Sou eu quem não sei se posso olhar
Apenas pelas coisas que já me diz
Que nunca irei dizer
Apenas pela forma que você me tem
Que nunca ira saber
Eu te amo tanto
Eu sei que existe apenas o hoje
Que seu amanhã nada me diz
Mas preciso apenas dizer
Que por um momento o "nós" me basta
Mesmo que eu fique depois pra chorar
Sozinho em qualquer canto
Que eu caia tão rápido quanto eu subo
Isso não é novidade
Você sabe que me faz bem
Obrigado, por me dar isso por hoje
Não me importo com o temporário
Apenas com o "nada".

Leonardo Ragacini

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Como um veneno

Você é como um veneno,
Mas um veneno que eu preciso tanto...
Uma droga especialmente feita pra mim
Preciso tanto, tanto e tanto de você.
Dói-me ficar com você
E me Dói muito mais estar longe de você
Não importa o que eu diga... O que eu faça
Você não me merece, você não merece meu amor
Mas como queria que você merecesse
Como eu queria com todas as forças
Não precisar de você comigo...
Demorei tanto pra me livrar disso
Eu me esforço tanto pra mudar
Cada vez que eu te vejo
Não sei mais o que é ser natural
Você é muito para mim
Eu sou pouco para você
Ou talvez nenhum dos dois
Você, você sabe tão bem disso
Você já tentou me fazer
Sentir melhor mesmo assim
Tentou não me ferir
Mas agora que sinto as cicatrizes
Obrigado, por me entender por hoje
Obrigado, por me ouvir por hoje
Obrigado, apenas por me abraçar
Obrigado, apenas por me deixar estar...
Você talvez nunca leia isso
Mas não queria ficar sozinho
Apenas com essa voz em meus ouvidos
Talvez eu não seja para você
Talvez você não seja para mim.

Leonardo Ragacini

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Quero

Quero tirar isso de você
Pra estar dentro de você
Quero ser invisível entre suas pernas
Quero ser o calor do dia
Por entre seus lábios
Vamos lá
Me deixe ver você no escuro
Sussurre em meus ouvidos
Só posso pensar sobre sua pele
No calor das suas mãos
Vamos
Venha pra cama comigo
Vamos brincar de nunca parar
Quero te por de 4 e ver isso
Quero te grudar junto
Pra ficar assim
Quero sentir cada músculo
Quero penetrar cada fio do seu cabelo
Quero ver a luz entre seus dedos
Quero sentir todas as partes quentes em mim
Quero
Quero provar aquilo que existe aqui e dentro

Leonardo Ragacini

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Andare Avanti

O que realmente você espera de mim?
Que maldita coisa você espera de mim?
Porque você não simplesmente cala a boca?
Todas as coisas combinadas
Você mente pra mim
Como se fosse o seu idiota
Mas no fundo você não sabe
Por quê? Por quê?
Deu ser tão desconexo
Por viver tão abaixo do que você sente
Pelos meus motivos tão violentamente secretos
Marque suas palavras
Faça sua companhia do drama
Seja a porra de uma narcisista
Rainha do drama
Não vou mais chorar por você
Não quero mais ser parte
Desse maldito suicídio
Porque eu gosto de ver com meus olhos
Gosto de viver acima desse seu lixo
Estou no tempo a muito tempo
Para perder ele com você
Todas as malditas mortes
Todas as malditas partes
Malditas coisas que nunca serei pra você
Porque eu me preocupo?
Apenas um fato
Apenas uma passagem
Você nem ao menos pode ver dor nos meus olhos
Você nem ao menos pode ver meu rosto chorar
Porque você está presa no seu domínio
Nessa sua microcelular
Você ainda pergunta o por quê
Porque de eu estar acima desse seu afogamento

Leonardo Ragacini

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Sementes Sobre A Terra

Todas as portas estarão fechadas
Mas as passagens estarão livres
Por entre os seus olhos
Nunca direi adeus a isso

Todas as noites depois dessa
Quero te prender aqui
Quero te segurar até perde a cabeça
Quero te respirar ao meu redor
Como se você fosse meu ar líquido

Quero ser como as sementes são pra terra

Eu serei para você
Como as coisas mais simples
Serei para você
Como todas as coisas importantes
Todas as portas estarão fechadas
Mas a passagem estará livre
Por entre os seus olhos
Nunca direi adeus a isso

Quero ficar sozinho
Só para ficar assim
Perdido por entre tempo e você
Como as sementes são para terra
Eu serei para você


Eu quero me apertar em você
Quero chorar por você até secar
Quero sentir toda essa dor
Toda essa maldita rejeição
Porque essa noite todas as portas
Estarão bloqueadas
Mas as passagens estarão livres por seus olhos
Não importa se já foi ou é amor
Que importa é deixar isso claro
Como a luz pela manhã
Como uma canção nas paredes
Quero te apertar até ser um
Quero te apertar até sufocar em mim.

Leonardo Ragacini

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Analogia

A vida e a Matemática são coisas belíssimas. O que não significa, entretanto, que as compreendemos. Ambas estão repletas de equações com diversos graus de dificuldade. O mistério que as envolve ao mesmo tempo em que motiva pode confundir (e deprimir) qualquer pessoa.
Algumas propriedades nos ajudam a viver, como somar amigos, multiplicar sorrisos e subtrair desavenças. Mas quando usá-las, e como? Em qual momento podemos eliminar os denominadores? São tantos problemas com respostas variadas!... Não somos máquinas. É difícil nos sentirmos completos, pois tudo vem fracionado, assim como o tempo, dias “calendariados” na forma de matrizes.
Um mestre na arte de viver é disciplinado, e aquele que entende a magia dos números pode ser um disciplinador. Não são paranóicos, não se privam de momentos agradáveis, eles tão somente perceberam (e se adaptaram) às regras que regem seus respectivos sistemas.
Evidentemente, a vida é maior que a Matemática, pois tal matéria pode, no máximo, fazer parte de um todo. Mas com ela muitos aprendem, a duras penas, a didática de viver.

Rafael Cardoso



quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Tempestade em copo d água? Resolva com um pinguinho de gente!

O garoto partiu. Percebi o seu estranhamento com a situação, me pareceu que eu voltava no tempo, olhando dentro de mim... Não é exa-tamente sua ausência que me dói. É que, para um garoto de sete anos, despedida é novidade, coisa perturbadora existente somente nos filmes.
Aqui, ele deleitou conosco a maravilhosa sensação de ser e ser ob-servado. Sua espontaneidade trouxe risos há muito ausentes nesta casa. Trouxe também, como já disse, lembranças da minha infância querida. Pois o menino foi fortemente influenciado, por exemplo, a torcer pelo nosso time. Jogamos bola e por alguns momentos pensei ter sete anos, enquanto ele dizia ser o Neymar. Hoje vejo a maestria do meu pai em convencer as pessoas, pelo menos no que se refere a futebol.
Durante certo tempo estive preocupado com a falta de alguns a-migos no meu cotidiano. Neste ano, em que o tédio e a solidão se unem para reinar no meu mundo, veio visitar-me um rapazinho desdentado. E na hora certa veio preencher o vazio que eu, moço mimado, criei. Pois mesmo acostumado a despedidas, sofri ao pensar que estaria só. Até que a criança doce e, infelizmente, solitária surgisse diretamente da ca-pital do país dando-me uma lição de vida. Aprendi, inclusive, que há pessoas boas no Distrito Federal. Do jeito que é esperto e segue os nossos conselhos, não duvido que nos próximos anos ele tome meu lu-gar nesse blog.
Nasceu aqui e rodou o Brasil. Pretendia ficar dessa vez, mas a mãe não arranjou emprego e tiveram que voltar. Partiram às 02h50min da tarde, horário de Brasília, voltando a ela num ônibus às 4h. Mas não há hora nem lugar específico para sentir saudade das pessoas especiais, aquelas guardadas com muito carinho em nossa memória.

Rafael Cardoso

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Janeiro

Saudade... O tempo em que via vocês!...
A época em que dois e dois não eram três!

É-me inútil acordar cedo.
Junto do Sol vem o medo
De outro dia indefinido
Que nem os outros têm sido.

Reflito assim, zonzo e sério
Ao mergulhar no mistério
Das férias intermináveis:
Resistir? São inviáveis

As esperanças que tenho.
Resistir por que, se falta
Garra pra por num desenho
A mais nota alta da flauta?

Vês? Na música, um fiasco
Minha voz é madrugada
Na escrita, de novo, nada
(Até este poema dando asco!)

A chuva diária não varre
Filosofia de giz
É aí que me dizes: “Arre,
Que queres pra ser feliz?

Se tens tu pena de mim,
Dá-me algo para fazer
Trabalho, estudo, lazer
Não me venha com din-din

Que o problema é psicológico,
Antes que eu vá pro zoológico
Ver do alto com a girafa,
Dizerem: ''isso é ilógico,
Você está maluco, Rafa!''

Rafael Cardoso

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Cartas ao deserto, entre febres e delírios

Retorno após grande jornada. E não trago souvenires na mala. Quero apenas rever quem gosto, e agora incluo à lista eu mesmo. O momento é nebuloso e confuso, mas preciso estar de pé pra recebê-la em meus braços e dar-lhe os fortes abraços que dava antes que chegasse a noite.
Perdi a noção dos dias, do que faço e vejo. Já não sei exatamente o que é sentir-se bem. Talvez seja ter a cabeça leve... Ou o contrário? Pois a mente ocupada é a que vive mais?
Vão me ver e não me reconhecerão. Pensarão que estou louco... Pode ser que sim. Não me lembro a causa de minha enfermidade. Porém tudo o que importa é revê-la, e dar-te o meu coração é minha obsessão.
Ah, mas como ela vai me entender, como vai me conhecer se as portas do meu velho guarda-roupa, cheias de figurinhas com todas as épocas, estão fechadas para mim? Não o tenho mais, é fato. Lá se foram com ele edredons das horas que não esqueço: ouvia histórias sobre aberrações sem saber que se tornaria uma, deitada e delirante assim como eu ficava naquele instante sadio, em que me ria com os desfechos trágicos. Preciso manter a lucidez enquanto for possível. Em breve rirei de minha própria história e seu fim.
Até porque jamais me compreenderão se eu continuar a escrever pela metade, se deixo o passado por mais que sinta saudade (estou rimando em prosa, já estou gagá de fato!). Como saberá quem sou se minha essência, ao se esvair, não deixa o que restou?
Amor, aquela navalha que eu tinha ficou cega. Ela corta, mas não raspa, entende? Cortou até meus velhos medos superados. Por pior que fossem, ajudavam-me a viver.
Plantarei uma árvore lá no hipotálamo. Mesmo que um eu perdido a arranque, baseando-se no pavor que tenho de tudo e todos - sobretudo do termômetro e seu resultado fervoroso - os outros saberão que a semente dela veio do fruto, ou seja, aquilo que fui um dia. O passado é minha estória, história, recordação e fantasia, quem fui e deveria ser agora. Foi embora. Estou indo embora.
Teremos uma casa com varanda e uma menininha de vermelho, como você sempre sonhou. Até porque o vermelho é a vida escorrendo de meus dedos. Em breve começo o trabalho, depois que me amputarem as pernas. Entregarei cartas em breve e espero (quem sabe?) receber notícias minhas de mim mesmo. Nossa filha vai conhecer o padre que me dá a extrema-unção, vou apresentá-lo pessoal-mente. Sei que é um pouco confuso, mas mamãe telefonou do céu e disse que é só dor de ouvido, não se preocupe. Ela só precisa de doses de informações (eu tenho tantas do velho trabalho!) que não estejam censuradas, assim como o Egito , aquele país bonito ao lado de Pasárgada, também precisa porque está doentinho.
Egito, oh Egito, precisamos desvendar o mistério de nossas pirâmides!
(...)

Convulsão e morte.
Rio, 26 de Janeiro de 2011

Rafael Cardoso

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Malditos Sonhos Malditos

Plena quarta feira e cá estou, indo para o trabalho – novamente – para ganhar o suado pão de cada dia dado pelo chefe mais chato, esquisito e sem graça do mundo. Passo pelo Trianon, atravesso a Augusta e sigo caminhando pela Consolação. A linha verde me espera.
Vejo todos os tipos de pessoas. De pobres a ricas, de bebês a idosos, de relaxados a ansiosos. Tudo como deveria ser. Que dia chato, meu Deus! E assim sigo, falando em divindades que acredito que não existam.
Chegando naquela empresa cafifenta, me deparo com a cara emburrada das pessoas, em especial, o chefe que, não contente com seus funcionários, demite um a cada hora. A empresa está ficando vazia por culpa deste homem incompetente. Espero um dia poder dizer isso na cara dele.
O dia passa lentamente. O relógio não dá trégua. Aleluias e gritos de alívio são ouvidos quando chega o horário do almoço e caras de desanimo são vistas quando o horário – que nesta hora passa correndo – se esvai. E assim continuamos com a cara no computador, esperando que o chefe não nos demita, pois as contas do mês nunca esperam.
Terminado o serviço, faço todo o caminho de volta, praguejando pelo forte calor humano dos transportes públicos do país. Dezenas de pessoas num cubículo e o esfrega-esfrega é comum. Isso me lembra varias baratas avançando numa pequena lata de lixo deixada a céu aberto.
Em casa, as coisas também não estão nada fáceis. Mulher em crise, filhos que choram e você não possui o direito de culpá-los, pois o incômodo da vida avança por todos no ambiente. E foi nessa noite que tudo mudou.
Eu suava em bicas a noite. Mas isso não era devido a mal-estar, febre ou qualquer coisa dessas. No fundo estava desesperado, mas não sabia o porquê. Ainda.
Fecho os olhos, e ao longe a sombra vem e toma conta de mim. E o pesadelo começa.
O tempo desta vez avança depressa, mas as cenas que me são mostradas não são, em nenhum momento, boas. A dor, o ódio, o desespero, a magoa, a raiva, o remorso, a agonia estão todos embutidos em mim, como se eu fosse um boneco inflável movido pela bomba de ar do destino. E assim as cenas passam. Eu fico doido e mais doido a cada instante. Eu acordo. Meu coração está a mil por hora e o Capitopril é o comprimido que escolho na primeira prateleira do armário do banheiro. Minha mulher levanta e pergunta o que aconteceu, mas agora já está tudo bem. Volto a fechar os olhos, mas desta vez a sombra me toca de uma maneira diferente.
Desta vez eu me vejo no topo, mandando em todos. Na cadeira do meu chefe sou rei. Em casa sou rei. Na vida sou rei. O tempo passa depressa também, mas minha majestade é suficientemente grande para que este fator passe despercebido. Então o alarme toca. Tudo começa novamente e o simples empregado refaz aquele mesmo percurso, porém seus miolos agora estão totalmente remexidos.
Ao chegar na empresa, recebo a todos com um belo sorriso e o pessoal, em uma forma instintiva, o retribuem. Até meu chefe está melhor hoje. Tudo estava indo bem, até a hora em que meu chefe me ordena que eu vá a sua sala por um instante. Eu já sabia o que era, minha demissão estava mais do que clara.
- Ernesto... Estamos fazendo cortes na empresa e... Você sabe como é...
- Eu já sei senhor, pego minhas coisas hoje mesmo e seguirei minha carreira... mas antes, queria dizer que você é um mau chefe, não dirige bem a empresa, bebe igual a um cachaceiro, é grosso, ignorante, idiota e fica traindo sua mulher com a secretária Josefina. Mas você é o único que não percebe que sua mulher é bem famosa por aqui. Já saiu com quase todos os homens desse andar... Bom... finalmente disse tudo o que precisava dizer. Até mais, panaca!
- Ernesto, Ernesto... Você ERA um bom funcionário... iria te promover para o meu cargo, pois recebi uma oferta melhor e também pela grana que a empresa ganhou cortando gastos, mas pela sua... digamos... franquesa, não saio daqui sem antes te dar um pé na bunda! Até mais... panaca...
E assim eu saio da sala, cheio de raiva... quem disse que os sonhos não mudam a vida de uma pessoa? Pois é... Agora o jeito é voltar pra casa e aguentar os sermões da patroa... A vida continua afinal.

Lucas de Figueiredo

sábado, 5 de fevereiro de 2011

É Desse Jeito que se Vive!

Geralmente quando a gente acorda, continuamos com sono. Temos preguiça de abrir os olhos e deixar os feixes luminosos chegarem às retinas ainda frágeis, acostumadas com a escuridão profunda. Eu sou uma exeção.
Sala branca, cama branca, pessoas brancas, objetos estranhos e esterilizados. Minha mãe está às minhas costas e agradeço a força que ela me deu, literalmente falando. Eu não queria chorar, eu queria sorrir, queria abraçar minha mãe e olhar para o rosto de papai, mas eles queriam que eu chorasse. Então soltei um choro fingido e quando vi que já era o suficiente para testarem minhas cordas vocais, parei. Eles me levaram para os braços de mamãe, mas ela estava zonza e mal conseguia me apanhar no colo e assim, uma mulher verruguenta me pegou e me colocou numa cama aquecida que, por incrível que pareça, me incomodava. Eu queria minha mãe e por isso chorava. Não é a toa que fiquei com fama de chorão... e logo eu, que tive que fingir o choro naquele quarto extremamente claro! Os que estavam ao meu lado estavam tão mirradinhos, tão nojentinhos... pareciam que não queriam ter saído. Como eles são burros! Prefiro ser chorão do que cagão!
E foi nesse instante que vi um cara com barba mal feita, rosto quadrado e barriga redonda me olhando com aquela cara de bobo que só um pai sabe fazer. Não aguentei e sorri. Queria mostrar a língua para ele no intuito de saber sua reação, mas fiquei com vergonha. E o homem sorria, chorava, falava com as outras pessoas do lado de fora. Era um bobão, mas eu gostava dele...
Depois de um tempo me levaram até mamãe. Ainda bem, estava com fome e dei uma mamada gostosa, mas parei quando vi que estava apertando demais o bico, fazendo com que minha mãe fizesse umas caretas esquisitas que significavam dor. Então, eles me deram um banho a seco – que foi muito estranho, pois pano úmido NÃO é água! – e me colocaram para dormir. E assim passei um bom tempo.
No dia seguinte, foi praticamente a mesma coisa: o corujão me olhava pelo vidro, mamãe me pegava – agora com mais jeito e força, me deixando confortável – e sorria pra mim. Eu adorava aquele leite quente de suas entranhas e a única coisa que eu não gostava muito era daquele maldito banho.
E assim o tempo – que não sei exatamente ao certo, pois os incompetentes não colocaram um relógio no berçário, que seria muito útil – passou e finalmente minha mamãe me levou para casa. Ela estava completamente recuperada, afinal eu saí por um buraco que já existia nela bem antes de eu nascer, alias eu – ou pelo menos metade de mim – passou pelo mesmo buraco para se encontrar comigo mesmo – a outra metade – na hora em que papai e mamãe estavam... digamos... BEM juntinhos.
E agora estou aqui, mamando e machucando um pouco mais o seio de minha mãe, afinal eu sei que não poderei mamar pelo resto da vida. Logo meus dentes nascerão e terei que me virar mais ainda. Contudo, não estou com medo, estou feliz e curioso com o que virá pela frente, mas nunca esquecendo de viver a cada segundo e aprender coisas novas. Não sei se no futuro irei olhar pelo vidro do berçário com cara de bobo como meu pai fez, mas isso não importa por enquanto. O que verdadeiramente importa neste instante é aproveitar o máximo esse leite que já está acabando. É desse jeito que se vive!

Lucas de Figueiredo

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

A Velha

E a velha que sempre me acompanhou morreu. E no lugar veio outra. Aparência, código genético, pensamentos... tudo igual. Ou pelo menos era o que aparentava ser.
A religião sempre foi uma de nossas diferenças, mesmo antes da morte da antiga velha. A nova, porém, acentuava tudo o que provocava discórdia. Parecia que alguma coisa tinha dado errado no processo, pois a nova velha não conhecia nada além de destruição.
E foi nesse momento que resolvi olhar o que estava acontecendo de uma maneira mais profunda, mais concreta e certeira. Assim descobri o que estava errado. Tudo estava incorreto, ou pelo menos tudo em que eu notava. Centímetro por centímetro, o demônio a minha frente estava se mostrando e sua aparência não conseguia escondê-lo como antes conseguia.
Eu conseguia ver agora, circulando em suas veias, um líquido grosso, escuro e muito provavelmente, fétido. Eu estava pasmo com a descoberta. De certa forma, o monstro criado se tornava cada vez maior! Não de tamanho, mas de profundidade. Eu enxergava seus olhos negros e via um precipício. Um precipício de dor.
O que acontecia é que a velha falava em dor, respirava a dor e seus passos deixavam pegadas negras, fétidas e dolorosas. Olhar para ela provocava dor. Cheirá-la provocava dor. Falar com a velha provocava dor. Até quando dormia, nuvens grossas pairavam sobre sua cabeça. A dor tomou posse da velha.
Contudo, uma parte dela queria resistir. Ela ainda queria viver, pois procurava terapias, remédios e todo o tipo de ajuda. A bengala logo foi ser uma de suas companheiras que, de certa forma, ajudavam no processo bioquímico-doloroso da velha. E assim a velha passava sua nova vida.
Porém, só notei muito depois o quanto a situação estava crítica: a velha fazia dos produtos de limpeza uma das metas para alcançar a salvação. Limpava, limpava e limpava a casa, em busca de deixá-la impecável, para que todas as pessoas que a vissem elogiassem seu trabalho, liberando pequenas quantidades de prazer e deleite em seu mundo dolorido. A velha tentava limpar, por fora, o que estava sujo por dentro. Era triste de ver.
Nessa hora lembrei de duas outras velhas amigas de minha velha: uma vivia com o pano, a outra só falava de dor. E então reconheci o problema, mas não encontrei a solução para a anomalia da “limpeza dolorosa”. E neste instante a lembrança dos dias bons veio em minha memória. Lembrava, naquele exato momento, o quanto falávamos das outras duas velhas e o quanto eram esquisitas. E minha velha se tornou uma mistura das duas. E assim, a casa se destacava em contato com a aparência deplorável de minha velha. Foi uma das piores visões de minha vida.
E foi nesse instante que reconheci meu erro: não adianta tentar trazer a vida para quem está morto. Ela viveu até onde ela se permitiu viver e não cabia a minha pessoa trazê-la de volta à luz da vida. E então, a velha voltou a morrer, abandonando toda a dor que estava com o total controle de seu velho ser. A casa escureceu-se com a dor, infectando tudo o que a velha tentara deixar limpo. A dor tentou infectar a mim, mas já era tarde para a mesma. A dor não pode infectar um coração preenchido pela revolta.
Acendi o gás e a casa explodiu. A paz voltou a reinar novamente e com ela a felicidade que, embora mais fraca pela saudade da velha, ainda brilhava forte, enfeitando a minha vida que estava clara, tanto por dentro quanto por fora.

Lucas de Figueiredo

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Pai, filha, mãe

São Paulo, 22 de março de 2004

Estou escrevendo para falar um pouco de nossa filha. Ela está crescendo tão depressa e às vezes fico abismada com isso. Ela, que nem sabia andar e cabia na palma de minha mão, hoje está cursando a segunda série do fundamental. Eu espero que ela cresça saudável, do mesmo jeitinho que está crescendo agora. Contudo, não posso dizer que sinto falta daquele pinguinho de gente, que agora já virou uma gota enorme.
E eu fico feliz de ver que ela gosta muito de você, mesmo tendo a oportunidade de te ver apenas por dois dias. Ela me conta sobre as brincadeiras e o carinho com o qual você a trata. Vejo que você a ama, independente do que aconteceu. Isso me deixa muito feliz, mais ainda até que nossa filha. Agora ela está brincando lá no quarto com aquele jogo que foi dado a ela semana passada. Ela está entretida lá há quase uma hora. Às vezes vou lá para vê-la e ela me olha com aquele sorriso de ponta a ponta. Os cabelos balançam com o vento proveniente da janela e ela sente como se estivesse voando. Ela é tão linda...
Então, estava pensando em oferecer um dia da semana para ela ficar com você, afinal ela também te ama muito. Não sei se você tem tempo livre, mas... não gostaria de simplesmente deixar pra lá e nunca lhe propor isso. Já fico com a consciência pesada só de pensar.
O que aconteceu de ruim entre nós está no passado. Nossa filha não tem nada a ver com isso. Gostaria, portanto, que ela tivesse mais tempo com o pai que tanto ama.
Quando puder, me ligue e então conversamos sobre essa história com mais calma. Se quiser uma audiência para deixar tudo escrito no papel. Bom... de qualquer forma, a gente vê isso depois.
Saiba que você é um ótimo pai.

Fique bem.
Gabrielle Oslo.

Lucas de Figueiredo

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Agradecimentos

São Paulo, 21 de Setembro de 2001

Fico lisonjeada ao saber de sua atitude. E foi nesse instante que percebi o quão valioso você é. Como homem, amigo, pai... Você é ótimo em todas essas áreas. Anne retorna cada vez mais alegre de sua casa e isso me deixa cada vez mais contente. Muito obrigada por ser este homem que você sempre foi desde os tempos de colégio.
Você sempre foi o garoto mais romântico, mais sincero e mais amigo. Qualquer garota daquela escola gostaria de ficar com você, nem que seja por somente um minuto, conversando sobre as coisas da vida caso elas o conhecessem de verdade. Eu tive essa oportunidade e agradeço. Você me retirou de muitos buracos em que cai, me ajudou a solucionar vários problemas que não tinham nada a ver contigo. Você sempre esteve ali, ao meu lado, quando mais precisava. Eu, por outro lado, sempre fui confusa, esquisita e de certa forma, idiota. Você ajudou a produzir a mulher que está lhe escrevendo essas cartas.
E enquanto traço neste papel essas simples letras eu me lembro daquela festa que fomos. Ambos tínhamos dezessete anos e conseguimos passar pelos seguranças da festa enquanto eles deixaram de vigiar a porta e foram pegar uns drinks. E assim entramos na festa que foi feita para o público adulto. A gente ria, dançava no meio dos caras e eles não se importavam, pois parecíamos jovens de dezoito, dezenove anos. E naquele instante eu vi seu olhar para Giselda. Eu fiquei maluca com aquilo e meu coração sangrava de raiva e inveja. Então, comecei a beber.
No final da festa estava trocando as pernas. Não conseguia me equilibrar de jeito nenhum. Falava besteiras, xingava o povo... eu não sei como não confessei meu amor por ti ali, naquele local.
Mas o que realmente mexeu comigo foi sua atitude. Você foi tão maduro e altruísta. Você deixou Giselda de lado e me levou para casa. Você dormiu em minha casa naquela noite! Quem me pageou em cima de um colchão duro foi você. Só faltou você me dar banho, mas isso era impossível, tanto por causa de seus princípios, quanto por causa dos princípios de mamãe. Sorte que papai já estava no décimo quinto sono.
Você me deu um susto quando levantei de minha cama. Eu quase pisei em você! Então minha cabeça começou a doer e, como se fosse por mágica, você levantou, me amparou até a cozinha e pediu um remédio para a minha mãe. Você cuidou de mim durante todo momento e até hoje desconfio que você não dormiu nada naquela noite.
E é agora, nesta noite estrelada, que lhe escrevo esta carta, agradecendo por tudo o que fez por mim e ainda faz por nossa filha. Devo dizer que agora sou uma mulher adulta, assim como você é um grande homem, mas quero que me deixe saber quando precisar de ajuda, para que assim eu possa lhe retribuir um pouco os favores que você me fez durante minha adolescência.
Muito obrigado mesmo por ser quem é. Você me fez muito feliz e agora está fazendo nossa filha sentir a felicidade de pertinho.

Mais uma vez Obrigada.
Gabrielle Oslo.

Dedicado à Jéssica Helena

Lucas de Figueiredo

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Vida – Terra – Morte

São Paulo, 13 de dezembro de 2001.

E começa a chover na cidade. Ouço as lamúrias e vejo os olhos encharcados de pessoas que nunca vi durante toda a minha vida. As lágrimas se misturam a água, brotando rios salgados nas faces das pessoas. Morte por toda a parte.
Temos que olhar por onde pisamos, não por causa dos cacos de vidro e telha que estão espalhados por todo canto, mas para que não pisemos na mão, na perna ou na cabeça de um cadáver sepultado pela própria Gaia. Será que naquela época – na Grécia antiga – as pessoas morriam deste modo? Talvez não seja tão diferente de morrer afogado afinal...
Mas o fato é que a Terra parece estar sucumbindo, perecendo depois de uma jornada de bilhões de anos. E desta vez parece definitiva, porém não tenho certeza se estou falando da Terra ou da própria raça humana que, assim como em tempos remotos, colheu o que plantou – e daí veio o sedentarismo, as plantações – e que agora está colhendo novamente. Nós, humanos, estamos colhendo terra. Uma terra banhada de esgoto, de sangue, de dor. Os três fluidos mais vívidos que já vi.
O esgoto, lotado das coisas que desejamos nos livrar. O esgoto não seria tão diferente da culpa, se esse líquido pútrido que sai de nossas casas não fosse tão irmão – e tão amigo – da fumaça que entra em nossos pulmões. Mas, sendo parecido ou não, isso não importa, o importante é notarmos que, por mais que seja mais fácil fugir do problema – e do esgoto – este sempre voltará para nós, exceto se nos encontrarmos com a Resolução.
E o fluido acre sempre esteve em terra, principalmente em termos de guerra. Desde antes do século I até agora o sangue banha a história. Seja na América ou na Europa, cheiro acre jamais se viu igual.
Mas não nos esquecemos da mancha negra e fétida que infesta nossos corações. A Dor, sempre aguda, é amiga do cérebro e inimiga do coração. Ela despedaça a bomba cardíaca, mas avisa o cérebro em qualquer circunstância anormal. Gostaria de perguntar-lhe o seguinte: Que relação diplomática ela tem com o corpo? Neutra? Inimiga? Ou quem sabe, a mais amarga aliada que temos? Acho que nunca terei as respostas mas, de qualquer forma, é bom dividir as perguntas com você.
Gostaria que você estivesse perto de mim para que pudéssemos conversar sobre esses assuntos. Eu sempre digo e sempre direi que sinto a sua falta, pois esta verdade eu não faço questão de esconder. Posso ter até errado em mentir algumas vezes, mas creio que você não esteja zangado comigo ou que este fora o motivo de nossa separação, nossa divisão de destinos. Gostaria de voltar a vê-lo um dia. Quem sabe até com uma outra companhia a seu lado. Espero que não se importe que, neste dia, eu também esteja com a minha. Somos livres para ficarmos com quer quisermos, não é mesmo? Mas não se preocupe com isso agora, afinal não estou comprometida, nem apaixonada por alguém (por enquanto). (Risos)
Desejo que você seja Feliz, mesmo com todas aquelas vítimas que estão lá fora. Não se esqueça que a vida é um bem individual, mas também não deixe que esse conceito tome conta de sua mente, afinal, mesmo que a vida seja individual, não podemos virar as costas para os que nos pedem ajuda, certo?

Um beijo de sua amiga.
Gabrielle Oslo.

Lucas de Figueiredo